Memória olfativa do carro do meu pai. Foto: Reprodução

Memória olfativa do carro do meu pai. Foto: Reprodução

Em uma das gavetas da cômoda do quarto dos meus pais havia um carnê do consórcio de um carro.

Meu pai estava em seu segundo Fusquinha e pagava religiosamente as prestações do tal carnê com o propósito de, pela primeira vez, ser o proprietário de um carro zero quilômetro.

Eu passava a maior parte do meu tempo envolvido com os carrinhos de todos os tipos e tamanhos, brincando no sofá da sala do nosso sobradinho na rua das Palmas, na Vila Guilherme, quando não estava jogando bola na pequena garagem ou mesmo na sala.

Todo mês havia o sorteio do tal consórcio e eu ficava numa torcida danada para que o meu pai fosse contemplado.

Havia também a possibilidade de dar "um lance", pagar um bônus para retirar o carro, mas meu pai não estava com essa disponibilidade financeira e nem pressa.

Até que em um belo dia, quando o carnê já estava exibindo quase que apenas os canhotos de pagamentos das mensalidades, meu pai finalmente foi sorteado.

E em pouco tempo ele fechou negócio na Lemar, concessionária Ford da Avenida Jabaquara.

Os dias se arrastaram...

Havia toda a burocracia natural para a documentação, o emplacamento...

Lembro do meu pai ter trazido alguns folhetos da Lemar e mostrado exatamente o modelo que escolhera do Corcel, um lindo LDO na cor Vermelho Jambo.

Vermelho Jambo, um nome pomposo para cor de vinho, a favorita do meu pai, encantado que ficara com o dia em que o Corinthians homenageou o Torino utilizando uma camisa desta cor depois do acidente aéreo fatal sofrido pelo time italiano.

LDO era a sigla que a Ford utilizava em seus carros mais equipados, que significava "Luxuosa Decoração Opcional".

Na verdade, a versão LDO só estava disponível para dois dos carros do curto portfólio da montadora que outro dia deixou o Brasil: o Corcel e o Maverick.

O Galaxie, por exemplo, teve as versões 500, LTD e Landau.

Meu pai buscou seu Ford Corcel LDO Vermelho Jambo na manhã de um dia de semana, mas apenas à noite, após deixar seu escritório de publicidade forense, saiu da garagem do prédio, na Liberdade, até nosso sobradinho na Rua das Palmas, 115.

Eu fiquei com o nariz grudado na janela da sala, que dava para a garagem de uma única vaga, aguardando a hora que meu pai tocasse a buzina para que eu abrisse o portão, como eu fazia sempre, até aquela noite com os Fuscas...

Ele buzinou duas vezes, um toque diferente, que eu nunca havia ouvido na vizinhança, afinal ninguém por ali tinha Corcel.

O Pérez, do outro lado da rua, tinha um Dodginho 1800 amarelo, a Dona Cândida uma Variant azul, e o Sérgio, do nosso lado, nosso dentista, uma Brasília branca.

Corri para o portão como uma flecha e meu pai calmamente entrou com o Corcel, que coube com pequena folga, quase encostando o radiador na janela...

Fiquei um tempão dentro do carro, sentado no banco do meu pai, trocando as marchas, abrindo o porta-luvas, o porta-malas...

Até a hora que minha mãe chamou para jantarmos, e eu comi o mais rápido que pude porque depois fomos dar uma volta pelo bairro, para "estrear" nosso carro lindo.

Na volta, já estava um pouco tarde, e eu não poderia mais ficar dentro do carro, então fiquei colado na janela, e percebi o quanto era gostoso o cheiro quente que vinha do motor, algo que eu não conhecia por que antes meu pai só havia tido carros com motores traseiros, os Fuscas...

Com aquele Corcel nós serpentiamos por incontáveis vezes a estradinha de Mairiporã que nos levava ao Saint Moritz, o clube de campo das minhas melhores memórias de infância e adolescência, lugar de meus títulos de futebol de salão e campo, meu golaço contra os "Pequeninos do Jóquei", da minha primeira paixão, pela menina mais linda daquele lugar, que foi Miss Primavera e parecia ter saído de um filme do Travolta ao som dos Bee Gees na discoteca que havia ali, nossa querida Periquit´s Disco Club...

Com aquele Corcel descemos a Serra do Mar fim de semana sim e outro não para nosso primeiro apartamento na Praia Grande, no Edifício Araújo, na Praça das Cabeças, onde ali em frente eu aprendi a andar de bicicleta graças ao meu pai, que segurava na garupa da Monareta e uma hora me soltou para eu nunca mais parar de pedalar...

E também ali na Praia Grande, na outra pracinha, ali perto, em frente ao Edifício Santa Mônica, onde havia um campinho de futebol (onde hoje está a Câmara Municipal), eu fiz o gol mais bonito da minha vida, de bicicleta, no ângulo direito, em um cruzamento do Nestor.

Com aquele Corcel, eu, meu pai, meu irmão mais velho, seu Antonio Miranda e o Adilson Miranda fomos para o Parque São Jorge levar o Adilson para sua apresentação como jogador do Corinthians, em 14 de janeiro de 1975.

O Dinho, que era como chamávamos o Dinho, nos deu todas as alegrias possíveis quando jogou no Timão.

Um dia, com o mesmo Corcel, fomos ao Pacaembu em uma noite, e o Adilson, o nosso Dinho, marcou os dois gols corintianos na vitória contra a Ponte Preta, e ele ganhou o Motorádio, eleito como melhor jogador em campo, e eu que carreguei seu prêmio até o Corcel, para voltarmos para casa...

E com aquele Corcel, de pneus faixa branca, estacionamos tantas e tantas vezes na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu, para assistirmos nosso time ganhar e perder, nos fazer rir e chorar, quando ainda amargávamos um terrível jejum de títulos.

Com aquele Corcel fomos tantas e tantas vezes almoçar na "Casa Santos", um restaurante especializado em comida portuguesa no bairro do Pari que faz um bolinho de bacalhau incomparável. Mas a sobremesa a gente comprava ali perto, na Praça Padre Bento, em um doceria que chamávamos de "Piruliteiro", que tinha os doces gelados mais gostosos que já comi na vida... Charutos recheados de chantili, latinhas de chocolate igualmente recheadas de chantili e cobertas por fios de ovos, bombas de chocolate ou creme, massa folhada...

Um dia meu pai trocou aquele Corcel por outro, também zero, tirado via consórcio, outro LDO, mas este na cor Areia Casablanca, um bege lindo, com um interior de bancos em duas cores, outra belezura.

Tenho a memória olfativa daquele cheiro do motor quente, quando meu pai estacionava o Corcel na garagem do nosso sobradinho.

E uma saudade desmedida do toque de buzina que meu pai dava, para que eu abrisse o portão.

Meu irmão mais novo, o Rogério, e eu, na garagem do sobradinho da Rua das Palmas, 115. Em frente, o Corcel do meu pai. Foto: Waldemar Micheletti

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