Ótimas lembranças na pista paulistana. Foto: Fernanda Gonçalves

Ótimas lembranças na pista paulistana. Foto: Fernanda Gonçalves

Já falei de Interlagos por aqui algumas vezes.

Debutei no autódromo paulistano, curiosamente, não em uma corrida de carros.

A Prefeitura de São Paulo promoveu aquilo que chamou de "Maratona de Interlagos", uma prova de pedestrianismo que na verdade eram as "10 Milhas de Interlagos", duas voltas completas pelo traçado antigo, com quase oito quilômetros de extensão, perfazendo um total de praticamente 16 quilômetros.

Acostumado a correr na praia, fim de semana sim e outro não, e quando não estava na praia corria atrás de uma bola no clube de campo em Mairiporã, o Saint Moritz, resolvi encarar aquele desafio de peito aberto.

Foi em 21 de agosto de 1983, e eu estava no 2º ano do inesquecível Colegial.

Fomos todos de casa, eu meu pai, minha mãe e meus dois irmãos.

Desde então, em tantas vezes que fui a Interlagos, quase sempre a trabalho, cobrindo tudo quanto é tipo de corrida de carros, já senti na pele muito frio naquele extremo sul da cidade, mas não tanto como naquela manhã de inverno.

Pior. Como eu iria correr os 16 quilômetros, precisei me livrar do agasalho Adidas e ficar apenas de calção e camiseta regata.

Consegui, para espanto do meu pai, minha mãe e dos meus irmãos, cumprir as duas voltas pelo lindo traçado antigo de Interlagos, com a interminável Reta Oposta, a longa Curva da Ferradura e a torturante Subida dos Boxes.

Emerson Fittipaldi, que autografou o meu certificado desta aventura, disputou a prova (e chegou bem antes de mim), saiu-se com uma boa conclusão sobre este trecho da pista que ele conhecia tão bem.

Fiquei ao seu lado, enquanto ele era entrevistado por uma emissora de rádio, e ele disse que, depois de correr 15 quilômetros, encarar o quilômetro final, com a Subida dos Boxes, era como escalar uma parede...

Meu certificado de participação na Maratona do Estado (na verdade 16 quilômetros) em Interlagos. Acima, à esquerda, o autógrafo de Emerson Fittipaldi

Na volta para casa, passamos pela Rua dos Trilhos, na Mooca, para comprar o ravioli delicioso do Pastifício Carasi. Minha mãe já havia deixado pronto o molho de tomates frescos que só ela sabe fazer, encorpado. Muito parmesão ralado grosso por cima, como deve ser um parmesão que cobre uma pasta.

Com o molho, que enchia até a boca a panela de pressão Clock, a cobertura suficiente para os bifes à milanesa, que com uma generosa camada de mussarela (desculpem, não consigo escrever mussarela com ç...), um suculento parmegiana de comer rezando...

Ainda no clima da prova, só fui sentir o efeito dos 16 quilômetros no asfalto duro de Interlagos no dia seguinte.

Meu pai me deixou na porta do Gonçalves Dias, e cheio de dores cheguei na sala do 2º B.

Cambaleante, me acomodei na segunda carteira da fila do meio.

Eu nunca havia tomado uma surra na vida, mas a sensação que tinha naquele dia era a de quem havia apanhado feio, a ponto de nem ter reparado, de início, na menina de blusa de nylon lilás que sentava na fileira da janela...

Porém, a primeira aula foi vaga, e acabamos indo para o pátio.

Eu estava tão quebrado que recusei o convite para jogar futebol na quadra, algo impensável para mim, que jogava bola sempre que podia.

Fui para o palco, lugar onde aconteciam as apresentações da escola.

A menina da blusa de nylon lilás estava abraçada a um violão, tocando e cantando "Não Chore Mais", linda versão de Gilberto Gil para "No Woman no Cry", de Bob Marley.

Sentado no chão, de queixo caído, como sempre, fiquei observando ela dedilhar as cordas e cantar. Uma anestesia para minha dor.

No mesmo dia, à noite, como sempre, escrevi um poeminha sobre minha cantora favorita no palco da escola.

"Palco" retratava aquele momento, em que ela, ao invés da blusa de nylon lilás, usava uma jardineira jeans.

Em 2011, a bordo de um Porsche Carrera emprestado, dei uma volta pelo novo traçado de Interlagos com minha querida amiga Fernanda Gonçalves.

Ela, ao meu lado, foi me filmando  (o vídeo está abaixo), enquanto eu descrevia as curvas e retas da pista em que eu havia estado pela primeira vez correndo a pé, 18 anos antes...

Na Reta Oposta realizei um sonho até então inimaginável para mim, quando vi o ponteiro do velocímetro chegar em 200 km/h, antes da providencial freada para a Curva do Lago.

Fiquei feliz, outro dia, ao saber que Interlagos continuará fazendo parte do calendário da Fórmula 1 pelos próximos cinco anos, a contar de 2021.

Interlagos, para mim, é uma mistura de muitas coisas, de lembranças saborosas.

Até mesmo quando ouço Gilberto Gil cantando "Não Chore Mais"...

UMA VOLTA EM INTERLAGOS COM UM PORSCHE CARRERA 911. GRAVAÇÃO: FERNANDA GONÇALVES - EDIÇÃO DE LUCAS MICHELETTI

GILBERTO GIL CANTANDO "NÃO CHORE MAIS"

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