Mercedes e Williams vivem momentos distintos na categoria. Foto: Divulgação

Mercedes e Williams vivem momentos distintos na categoria. Foto: Divulgação

Entre as balelas que ouço no discurso neoliberal — esta praga que contamina significativa parte da elite brasileira — uma das que mais abomino é a tal da meritocracia.

Falar em meritocracia em um país tão desigual é, no mínimo, ter visão míope da realidade.

Estou suavizando as tintas, por respeito aos leitores.

Entro nesta seara para não parecer que aquilo que acho sobre desigualdade na Fórmula 1 possa ser comparado às mazelas sociais, por exemplo.

Em um lugar onde dinheiro não é problema, nem mesmo com o esvaziamento dos cofres em meio à pandemia, a Fórmula 1 é um terreno fértil para a "lei do cão", onde quem pode mais chora menos.

Por que diabos deve-se ter dó das equipes que andam na rabeira do pelotão?

Na F1, onde cada equipe constrói seu chassi e algumas delas inclusive produzem seus motores, é natural que os desempenhos sejam diferentes, mesmo porque os investimentos também são distintos.

E não basta dinheiro, apenas.

É preciso também que a equipe funcione em todas as suas esferas.

A Toyota, por exemplo, quando esteve na F1, não mediu esforços e derramou caminhões de dinheiro para tentar ganhar corridas e conquistar títulos. Não conseguiu nem uma coisa nem outra, e saiu de fininho.

Percebeu que o buraco era mais embaixo e foi mais feliz em outras categorias do automobilismo, como o Mundial de Endurance. E, do ponto de vista dos negócios, constatou que era melhor continuar investindo em sua fábrica de carros de passeio, dando mais fôlego ao interminável Corolla, com sucessivos facelifts.

Acho simplesmente deliciosa a "sova" que a Mercedes está impondo às demais equipes, neste e nos últimos anos.

Fruto de um trabalho espetacular, a exemplo do que já fizeram a McLaren nos anos 80 e 90, a Ferrari nos anos 2000 e a Red Bull nos anos 2010.

Algumas categorias, com a desculpa esfarrapada de "equilibrar as forças", criam artifícios absolutamente esdrúxulos, como o tal "lastro de sucesso".

Por conta dos novos carros, para evitar que uma marca sobressaia em relação à outra, a Stock Car brasileira adotou este estratagema para a atual temporada. Tomara que não repita em outras.

A matemática é a seguinte: o líder do campeonato leva para a corrida seguinte 30 quilos de lastro em seu carro, o segundo colocado 25 e assim por diante, até o quinto.

Ou seja, o tal "lastro de sucesso" pode ser traduzido por "lastro de castigo".

Já ouvi gente defendendo isso para a Fórmula 1. 

Se fizerem, a Mercedes (a de Hamilton, óbvio) vai precisar rebocar seu motorhome nas últimas corridas da temporada...

É mais ou menos como se Usain Bolt, no auge, fosse penalizado por ganhar as corridas dos 100 metros rasos, e colocassem três quilos em cada panturrilha do jamaicano.

Assim, com seis quilos a mais nas pernas, talvez os concorrentes, menos capazes, tivessem alguma chance para derrotá-lo...

Ou se Michael Phelps, depois de seguidas vitórias nas piscinas, tivesse um dos braços amarrados para que sua coleção de medalhas não fosse aumentada...

Por escrever, falar, entrevistar e ler muito sobre automobilismo, vejo gente (do meio, inclusive), dizendo que a Mercedes está "estragando a brincadeira".

Então a culpa é de quem se prepara melhor, de quem é mais competente?

Retomo os exemplos de Bolt e Phelps.

Eles "estragaram a brincadeira" do atletismo e da natação, respectivamente, justamente por serem acima da média?

Ou foram os concorrentes, que nunca foram concorrentes de fato, mas incapazes de superá-los, que tornaram-se meros coadjuvantes?

No título desta crônica, escolhi "Beleza da Fórmula 1 também está na desigualdade".

Na verdade, a beleza de qualquer esporte está justamente na desigualdade.

Ainda bem, pois assim puderam sobressair expoentes como Pelé, Bolt, Phelps, Hortência, Michael Jordan...

Ah, e o Lewis Hamilton, que por coincidência dispõe da Mercedes na Fórmula 1.

Talvez o casamento mais perfeito que a categoria já teve em seus 70 anos.

Igualdade, sim, mas na esfera social.

No esporte, não.

Em algumas modalidades ele pode ser até a redenção dos pobres, como o futebol.

Me divirto quando vejo o menino da favela chapelar o garoto do condomínio de luxo.

 

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