As lágrimas que todos nós derramamos. Foto: Reprodução

As lágrimas que todos nós derramamos. Foto: Reprodução

Assistindo ao último GP de Fórmula 1, da Emilia-Romagna, em Imola, uma cena me chamou atenção.

George Russell, promissor piloto inglês, bateu sua Williams da maneira mais boba possível.

Em plena volta de safety-car, sob bandeira amarela, com os carros andando em velocidade reduzida.

Ainda buscando seu primeiro ponto na F1, Russell errou.

Seu carro deu uma guinada em plena reta e chocou-se contra o guard-rail.

A Williams é hoje o pior carro do grid, e Russell é um dos melhores de sua geração.

Uma incoerência. E uma pena.

O jovem de 22 anos saiu do cockpit, sentou-se na grama e recostou-se em um gradil, em um local seguro.

Os fiscais até foram ao seu encontro, mas ele queria ficar sozinho.

Chorava por debaixo do capacete e da balaclava.

Seus olhos claros estavam vermelhos, como se notou, assim que ele se livrou da indumentária, minutos depois.

Em uma corrida marcada por vários abandonos, era sua grande chance de terminar na zona de pontuação pela primeira vez.

Paciência, meu caro...

Todos nós choramos, pelos mais distintos motivos.

Ao vê-lo em seu sofrimento, pequeno para alguns, gigante para ele, lembrei de um pelo qual passei.

Era uma tarde ensolarada, e o Chevette branco da minha mãe precisava de um trato, uma lavagem completa.

Eu havia planejado tudo.

Meu terno branco da formatura do Colegial estava impecável, estalando de novo.

Terno mesmo, paletó, calça e colete.

Camisa, gravata e sapatos igualmente sem uso.

Levei o bom Chevettinho para o posto da Rua Maria Cândida, o "Can-Can", no começo da tarde.

Ficou brilhando e cheiroso com o silicone aplicado no painel e o pretinho nos tapetes de borracha.

Lembro do perfume que usei para aquela noite.

Chamava-se Siê, era francês, e eu havia ganhado na festa da minha formatura anterior, do ginásio.

Usava pouco, antevendo que deveria guardá-lo para uma ocasião especial, como aquele 24 de dezembro de 1984.

O baile do Colegial, no Círculo Militar.

O amor da minha vida estaria lá.

E embalado de uma esperança que não cabia em mim, imaginei que seria eu quem a levaria de volta para sua casa, guiando o Chevettinho branco da minha mãe.

Ledo engano.

Eu a vi apenas na entrada do salão.

Ela ficou em um piso acima e não a encontrei mais naquela noite.

Nem sei se eu teria tido coragem para convidá-la para a carona.

Para que eu cruzasse a cidade com ela ao meu lado, do Ibirapuera até a Vila Gustavo, e fosse lhe dizendo, pelas ruas desertas de São Paulo, tudo aquilo que somente minhas poesias escancaravam.

Ela voltou para casa com uma amiga que estava com seu pai.

Não satisfeito, sempre munido de papel e caneta, as melhores armas que um ser humano pode carregar, escrevi um bilhete e deixei no portão da sua casa, naquela madrugada.

Eu nunca tomei um porre na minha vida.

Talvez devesse ter tomado um naquela noite, depois de escrever o bilhete.

Cheguei em casa depois das 4 da madrugada.

Abri o portão de ferro, o da rampa da garagem, e o outro, o basculante de madeira, e repousei o Chevettinho são e salvo atrás do Passat TS preto do meu pai.

Diferente de Russell, era o meu coração, e não o carro, que estava despedaçado.

Nem liguei para minha roupa branca.

Sentei no chão, encostei no pilar que ficava no meio da garagem, e chorei tudo o que pude antes de subir as escadas do sobrado em direção ao meu quarto.

Tive a certeza, em cada lágrima que escorria pelo meu rosto, que aquela teria sido a noite mais linda da minha vida.

Mas não foi.

Passados tantos anos, por incrível que pareça (não para mim), ainda dedico o que escrevo à aquela menina.

Que é o melhor que sei fazer.

Como disse Elton John em sua maravilhosa "Your Song"...

Eu espero que você não se importe
Espero que você não se importe que eu expresse em palavras
Como a vida é maravilhosa enquanto você está no mundo.

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