Ônibus carioca, do Leblon ao Maracanã. Foto: onibusbrasil.com

Ônibus carioca, do Leblon ao Maracanã. Foto: onibusbrasil.com

Por aqui, em citações pontuais ou em crônicas robustas, falei sobre o primeiro GP de Fórmula 1 que assisti em um autódromo, o de 1985, no extinto Jacarepaguá.

Aquela foi a segunda vez que fui ao Rio de Janeiro.

A primeira, no esquema "bate e volta", foi para acompanhar meu Corinthians nas quartas de final do Campeonato Brasileiro de 1984, no hoje quase extinto Maracanã, contra o Flamengo.

Falo isso porque aquele estádio raiz, gigante pela própria natureza, impávido colosso, e com a geral democrática, para o povo, foi substituído por uma insossa arena Nutella para espectadores mais preocupados em selfies do que com a partida em si.

Eu estava no 3º Colegial, irremediavelmente apaixonado pela menina da blusa de nylon lilás que eu havia conhecido no ano anterior.

A bela e intrépida magrela dizia-se flamenguista e tinha suas preferências musicais distintas das minhas, exceto por uma: a dupla Kleiton & Kledir.

O destino acabou me fazendo amigo de ambos, e eu, de fã (por causa dela), me tornei próximo dos irmãos gaúchos.

Seus outros gostos musicais da época, Michael Jackson e Menudos, passavam longe do meu toca discos Gradiente que integrava o bonitão System 126 que ficava na sala de casa.

Michael era bom, reconheço. Anos depois, em um sebo, até comprei "Thriller", em vinil, estalando de novo.

Para "costurar" o que falei sobre o jogo no Maracanã, contra o Flamengo em 1984, explico.

Peguei um ônibus da viação "Cometa", o icônico "Flecha de Prata" à meia noite de sábado, 28 de abril de 1984.

Cheguei ao Rio, ao lado do meu irmão mais velho, com o dia amanhecendo na velha rodoviária da cidade, então chamada de "Terminal Rodoviário Novo Rio".

Foi a primeira vez que me deparei com uma taxa para usar um banheiro, imundo por sinal.

O outono não estava castigando, mas era um dia ensolarado, sem chance de chuva.

O motorista da "Cometa" nos deu algumas dicas para andarmos pela cidade antes do jogo, os números dos ônibus que poderíamos pegar para conhecermos o lugar onde eu queria estar, a "dobradinha" Leblon-Ipanema, tão exaltada nas novelas da Globo.

E foi para onde acabamos indo.

Minha memória dificilmente joga contra mim, mas desta vez me passou uma rasteira...

Não lembro do nome da cantina em que almoçamos, na rua Barão da Torre.

Mas, notem, recordo o nome da rua e também da decoração do lugar, que parecia uma cantina encravada no paulistano bairro do Bixiga, com pôsteres de times italianos nas paredes e garrafas de vinho penduradas com fitas vermelhas, verdes e brancas, alusivas à bandeira da Velha Bota.

Me fartei de um ótimo canelloni de ricota, uma das minhas massas favoritas, depois de um bem servido couvert, com sardella, azeitonas pretas temperadas com azeite e orégano e antepasto de berinjela. Claro, também havia um cesto de palha com fatias de pão italiano, bem macias e perfumadas, e manteiga.

Deixamos o lugar com uma boa margem de tempo para o jogo e fomos para uma avenida tomar o ônibus indicado pelo motorista da "Cometa", qualquer um que tivesse numeração 43 e mais algum outro número, pois todos teriam como destino o Maracanã.

Coloquei na cabeça que deveria ser o "433", eternizado no terceiro LP de Kleiton & Kledir, título da música de Bebeto Alves que a dupla gravou naquele vinil.

E foi justamente um 433 o primeiro ônibus que apareceu no Leblon, coisa do destino, óbvio!

"Ai essa louca ilusão,

Que embola o meu coração,

Num 433, Barão de Drumond,

Pra Vila Isabel lá do fim do Leblon..."

Assim começa a canção que eu fui mentalmente cantarolando enquanto lembrava da menina da blusa de nylon lilás, "minha" rubro-negra, a garota mais linda do mundo.

Sim, ela não saía da minha cabeça, e estar naquele ônibus, naquele dia, me deixava bem pertinho dela...

No primeiro ponto que o 433 parou após eu ter subido, entrou um ator global, Tião D´Ávila, rioclarense como meu saudoso pai.

Ele estava com a camisa do Flamengo, com um largo sorriso estampado no rosto, certo da vitória rubro-negra, que de fato aconteceu, 2 a 0, gols de Élder e Bebeto. 

Aliás, aqui cabe uma observação: a menina da blusa de nylon lilás também era "apaixonada" pelo Bebeto, o que me dava uma raiva dos diabos do craque do Mengão...

Bebeto, por sinal, fez o gol bem na direção de onde eu estava sentado na numerada do Maracanã, e comemorou na minha frente, parecia estar me provocando, como quem dizia: "Ela gosta é de mim, seu bobalhão!".

O time da Gávea aproveitou-se do fato de estarmos desfalcados da nossa maior estrela, Sócrates, que estava machucado.

Eu e meu irmão deixamos o Maracanã à noite, numa escuridão meio que fantasmagórica, pegamos o primeiro táxi que apareceu e rumamos para a rodoviária, onde compramos nossos bilhetes de retorno a São Paulo.

No caminho, comemos um lanche, em uma providencial parada em um dos bons postos de combustíveis da Dutra.

Sim, os detalhes: Bauru e suco de laranja. Para finalizar, um "Diamante Negro", meio de adoçar a boca depois do amargor da derrota corintiana...

No dia seguinte, tive de aturar as gozações da flamenguista linda...

Isso nem era um problema, porque ouvir sua voz era muito bom!

Uma semana depois, a revanche.

Vencemos por 4 a 1 e despachamos o Flamengo do Brasileirão.

Também fui a este jogo, no Morumbi, com direito a show do Dr. Sócrates, já recuperado...

Na segunda-feira, cavalheiro, não disse nada para a menina da blusa de nylon lilás, mas fui para a aula com a camisa do Timão...

Uma discreta provocação.

Bravinha ela também ficava encantadora.

Mas o que eu queria mesmo era ser o atacante Bebeto naquela manhã.

Talvez eu tivesse alguma chance...

ABAIXO, "433", COM KLEITON & KLEDIR

ABAIXO, OS GOLS DE FLAMENGO 2 X 0 CORINTHIANS, NO MARACANÃ, EM 29 DE ABRIL DE 1984, COM LOCUÇÃO DE LÉO BATISTA E, NA SEQUÊNCIA, OS MESMOS GOLS COM NARRAÇÃO DE LUCIANO DO VALE

ABAIXO, OS GOLS DE CORINTHIANS 4 X 1 FLAMENGO, NO MORUMBI, EM 6 DE MAIO DE 1984, COM LOCUÇÃO DE MILTON NEVES E NARRAÇÃO DE LUCIANO DO VALE


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