Guilherme Cimatti

Jornalista

Guilherme Heredia Cimatti nasceu na capital paulista, no dia 16 de novembro de 1990. É repórter, produtor e apresentador da Rádio Bandeirantes. Também é colunista do portal iG e do Nosso Palestra.

Cimatti cursou jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. Passou pelas rádios BandNews FM, Estadão, Globo e CBN. Estudou no colégio Liceu Santa Cruz, na Mooca, zona Leste de São Paulo. Decidiu seguir a profissão ainda menino e está na área desde 2011. Guilherme Cimatti é carinhosamente chamado por Milton Neves como “Tesonildo”.

Na BandNews FM, como estagiário, Guilherme Cimatti apurava notícias do trânsito e das estradas, além de atualizar o site e fazer edições para a programação. Depois, na Estadão, recolhia material sobre o Congresso brasileiro, durante a madrugada. Foi trabalhar efetivamente com esporte nas rádios Globo e CBN, desde 2014. É apaixonado por literatura.

Participou da cobertura de duas Copas do Mundo: a primeira em 2014 (Rádio Globo) e a segunda em 2018 (Bandeirantes). É filho de Irineu Cimatti Júnior (falecido) e Herminia Felicitas Heredia Saz. Tem forte ligação com os avós: Irineu Cimatti, Angel Heredia Cabrejas, Teresa Saz Yague e Cicera dos Passos.

Leia algumas crônicas escritas por Guilherme Cimatti:

Lembranças de um neto qualquer

Futebol era de terça e quinta. Na última aula, com o pessoal da sala, a alegria era intensa. Eu chutava forte e essa era minha única qualidade. Mas nem precisava de muito: a quadra era pequena e quase não cabia nela meu sonho. O meu e o de todos aqueles moleques. O professor escolhia sempre os dois ou três times e a brincadeira começava. Na escola fui artilheiro e perna de pau; fui bom goleiro e frangueiro no mesmo dia. A bola, claro, era figura fundamental nos sorrisos das crianças. E a bola nova tinha uma magia diferente: o cheiro, a textura, a cor.

Eu chegava em casa suado. Tinha bastante cabelo e era tigela: liso e esparramado. Meu uniforme molhado era o símbolo máximo e singelo de felicidade. Depois de almoçar ainda tinha espaço para jogar futebol na rua. Era o time da Elias Vitta contra o da rua de baixo. Um dos gols era a diferença física entre dois postes; o outro era o portão de um terreno do meu amigo, o Affonso. Lá quebrei vidros, ralei o joelho e machuquei alguns amigos. Naqueles dias, já faz mais de década, destruí lâmpadas e sujei portões. Meus avós puxavam minhas orelhas.

O paterno e o materno moravam quase no mesmo endereço. Um quarteirão separava as duas casas. E isso fazia com que eu frequentasse os dois lugares todos os dias. “Como foi hoje, Guigui?”, perguntava um deles. “Já aprendeu a chutar de esquerda”, questionava o outro. E a gente sempre se abraçava e a gente sempre ria. Um era palmeirense e o outro era corintiano. “Mas precisa estudar, hein? Não estão boas as suas notas”. Essa última era opinião unanime na família, seguida sempre pela tradicional “já sabe o que vai fazer na faculdade?”. E eu dizia: jornalismo, Yeye (apelido do avô materno). Jornalismo, Neneu (apelido do paterno). Falava com a certeza de um menino naturalmente cheio de incertezas.

Hoje cedo passei pela Rua Elias Vitta, onde minha avó ainda mora. Passei, de carro, pela lombada que eu era obrigado a driblar antes de chutar contra o portão da casa do Affonso. O guardinha da rua é o mesmo, mas o vizinho já se mudou e faz tempo. A vizinhança toda já não é a mesma. O próprio Affonso, meu grande amigo, foi para o interior. Só ficou a rua, com o concreto e a lembrança. Só restou o carinho daqueles tempos. É uma dor leve, mas que remete a um sorriso de canto de boca, sabe?

Meus avôs, já não mais nesse mundo, torciam muito pelos moleques da rua. Eles foram embora junto com o meu sonho de jogar bola profissionalmente. Foram de repente, do nada, assim como nosso time da Elias Vitta. E o time do clube. E o da escola. E foram com os abraços depois de todos os jogos.

Hoje sei o que quero ser quando crescer: quero ser o abraço deles – e como eles.

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Que sonho assustador

Preciso compartilhar o meu sofrimento. Essa noite foi terrível. Tive um pesadelo duro e uma sequência de fatos que me deixou apavorado, encolhido e desesperado. Estou tremendo até agora. Tudo começou quando – no meu sonho – eu entrei no antigo Palestra Itália. Ele estava vazio. Logo na porta, fui recebido por Rosembrick. Eu dei bom dia e Rosembrick me respondeu, furioso: “Bom dia o cacete, moleque. Meu nome é Rosembrick José Bezerra de Lira. Quem é você pra me chamar com essa intimidade?”. Já comecei a achar estranho.

De repente, quando pisei o pé direito no antigo estádio depois de muitos anos, começou a correria. Rosembrick veio pra cima de mim e você manja, né? Rosembrick só sabia correr. Mas eu corria mais, por incrível que pareça. E me livrei. Quando menos esperava, no entanto, do outro lado do campo, Edmilson Canhão do Pantanal apareceu e começou a tentar me atingir com suas bombas, chutes de todos os cantos. Aí fiquei tranquilo: ele nunca acertou o gol mesmo. Já conhecia a mira do meu novo inimigo. Dessa vez, porém, errei. E Edmílson acertou a minha cabeça que, sangrando, bateu no gramado do Palestra.

Eis que a coisa ficou séria. Wesley tacou um caminhão de pipocas na minha cara e o sal ardia horrores. Marcinho Guerreiro chegou no carrinho, buscando machucar meu joelho direito. Jumar veio junto e chamou a tropa toda. Rapidamente consegui me reerguer e a fuga começou. Subi a arquibancada com a velocidade do Lúcio – o melhor lateral do mundo – até me jogar do último andar, caindo na Rua Turiassu (que não é mais Turiassu, mas ainda era na placa que eu sonhei nessa noite). Leandro Amaro, Maurício Ramos, Felipe Menezes e Cristian Mendigo riam de mim.

Tirone chamou a polícia e era o mundo contra o cronista que aqui escreve. Mas ninguém me encontrava por São Paulo até que Maikon Leite entrou no sonho, já no segundo tempo, apostando corrida com Gioino. Eu estava longe e jamais pensei que Maikon me alcançaria, mas o improvável aconteceu, com velocidade de 236 quilômetros por hora. Tive de voltar em direção ao Palestra para buscar abrigo, recebendo pontapés, socos e rasteiras. Já estava mais lesionado do que o Mago.

Quando o fôlego estava acabando, reencontrei o portão do Parque Antártica e o segurança fazia cara de bravo, com os braços cruzados. Cheguei mais perto e vi que o segurança era o Bruno, ex-goleiro do Palmeiras. Ele estava pronto para dar o bote e me prender, ao lado dos policiais. Mas passei por baixo das pernas dele, imitei um peru (cocóricóóóó, sei que não, mas no meu sonho peru gritava assim) e consegui fugir.

Subi novamente na arquibancada e, ao lado do anel do jardim suspenso, vi Mustafá. No meu sonho a língua do Mustafá era parecida com a de um sapo gigante e, com ela, ele quase conseguiu me alcançar (me salvei por exatos 15 centímetros). Ele dizia, repetidamente: “bom, barato e vou te pegar”, “bom, barato e vou te pegar”, “bom, barato e vou te pegar”. Era como se fosse a última fase do Mário Bros, sabe? A língua sem fim vinha e voltava, na velocidade do Euller. E aí no auge do medo, no topo do desespero, sem qualquer saída, decidi me jogar do anel.

Dei exatas 14 piruetas involuntárias antes de cair.

Bati a cabeça, faleci e contrariei a ordem da vida: acordei depois de morrer.

Ufa.

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Queria que meu pai tivesse visto

— Você conhece o Guilherme que fala sobre futebol no rádio?

Meu sonho era que você pudesse ter escutado essa pergunta. Que te indagassem por causa do mesmo sobrenome. E que, diante disso, pudesse dizer que o Guilherme é seu filho. Queria que você ficasse sabendo que seu filho virou jornalista, ama o que faz e é feliz.

Hoje faz 10 anos que você morreu e muita coisa tem acontecido desde aquele dia 25 de setembro de 2007. Trabalho na rádio que eu escutava quando criança: a Bandeirantes. Com gente que sempre foi referência e que você ouvia. Você, pai, que vibrou com o gol do Alex em 2002, o festival de chapéus no Morumbi, quando voltava do hospital comigo depois de ter visitado o meu avô (seu e meu pai). Apertava meu braço. Já tinha desenhado o lance todo na voz do José Silvério. Tinha pressa para chegar em casa e ver a pintura do camisa 10.

Em muitas vezes dentro dessa década eu tive pressa. Tive pressa principalmente nos primeiros dias. Queria que a dor passasse logo, em conjunto com o tempo. Queria ver meus avós chorando menos. Tinha pressa para amadurecer o máximo possível e passar tranquilidade. Até hoje sinto que não consegui o suficiente. E sei que jamais poderia ter essa capacidade de tentar ser você para eles.

Mas fui o filho caçula deles. Dos seus pais, dos pais da minha mãe e da minha mãe forte. Todos foram você para mim. Herdaram o seu papel. Eu tenho muito orgulho de ser por inteiro de vocês. De ter os mesmos riscos da sua testa, sua sobrancelha, seus olhos diminuídos quando a boca sorri. Seu jeito e até seu último tênis, branco, guardado na gaveta do meu quarto. Nunca usei. As manchas do tempo ficaram.

Mas têm ganhado cor. Elas se tornaram boas lembranças.

Queria ter te visto quando seu pai foi aí te ver em 2013.

Queria abraçar vocês.

Era para você ter visto que pouco tempo depois eu perdi o seu celular V3, mas guardo sua carteira. Era para ter conhecido o Facebook. Saber que infelizmente houve impeachment de uma presidente da República (acho que você iria questionar o meu “infelizmente” na frase, mas a gente não pode concordar com tudo, não é mesmo?). Não sei como te contar que o Palmeiras foi rebaixado mais uma vez, em 2012. Aconteceu...

Era para você ter ficado irritado com o Maurício Ramos, Preá, Egídio, Claudio e Daniel Carvalho. Era para ter cornetado o Ricardo Bueno, o Max Pardalzinho, Adriano Michael Jackson e o Betinho.

Por outro lado – esse melhor, claro - que pena que você não viu o pênalti do Prass em 2015. O garoto Gabriel Jesus em 2016. A calça vinho do Cuca enquanto dava sorte.

Queria que você tivesse acreditado comigo no Borja, Felipe Melo e Guerra.

Mas antes de tudo: queria que você tivesse visto o Allianz Parque.

Queria que você tivesse visto a Olimpíada no Brasil. Eu queria que você tivesse visto o jamaicano correndo no Engenhão. Aliás: eu queria que você tivesse visto o Engenhão.

Também queria que você tivesse visto a Copa do Mundo aqui. Até o “sete a um” eu queria que você tivesse visto.

Queria que você tivesse me visto na minha rotina de adulto. Ainda que eu alegasse falta de tempo como justificativa para não te ver todos os dias.

Faz exatamente 10 anos que eu não te vejo.

Mas faz quase 27 que eu me vejo em você.

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Permanências

Nada vai ficar, Gui. Ontem eu pensei muito nisso. E até chorei, confesso. Desci do meu quarto e vi meu pai vendo TV na sala. Os pés esticados, o corpo quase deitado. O canal que ele sempre vê, o programa que ele sempre assiste. As emissoras que ele detesta. O controle de não sei quantos anos. O sorriso. O “bom dia” dele. O abraço dele. Até a discussão dele. Todo esse enredo um dia vai terminar. Vai ter uma hora que eu vou perder essa rotina. Ou por sair de casa, ou por ele... bom, deixa pra lá.

O problema da vida é que ela acontece e a gente não percebe. E ela vai passando, acontecendo o tempo todo. É natural. Eu, por exemplo. Meus namoros. Meu primeiro relacionamento aconteceu cedo. Eu tinha uns 13 anos. Aprendi várias coisas com ele. E agora, 14 anos depois, o que ficou? O que vive em mim dele? Eu mesma já não sou a mesma pessoa. Sou mais impaciente, decidida, madura. Meu corpo também mudou. Meus contatos, meus amigos, meu contexto. Não sei se me reconheceria hoje daquele jeito, com aquelas ideias e aqueles princípios de ideais. E a gente vai seguindo, caminhando.

Eu nunca mais vou ver o pôr do sol como ele se colocou na semana passada. Posso voltar mil vezes para o mesmo lugar, ver e ir embora mil vezes seguidas. Mas daquele jeito, do jeito que eu vi naquela vez, nunca mais. Se eu escutar minha música preferida de alguns anos já não vai ser a mesma coisa. Nem vai me dizer o mesmo. Ainda que seja aquele cantor, as mesmas palavras, o mesmo tom e gravação. A rotina renova instantaneamente, mas se perde na nossa pressa.

E mesmo sabendo de tudo isso, tendo essa consciência, eu ainda tenho pressa. Sem me dar conta, quero viver logo essa semana como se fosse um gole num copo de água. Quero engolir pra chegar a que vem, porque na semana que vem vou estar de férias, vou encontrar uma amiga, vou visitar minhas irmãs. Vou estar melhor da dor que está sendo o fim do meu namoro, da dificuldade de me envolver de novo com outra pessoa e recomeçar mais uma vez.

É automático pensar que na semana que vem meu pai vai continuar vendo TV na sala, você vai continuar tomando uma cerveja comigo aqui, minha irmã mais nova vai pedir dicas para interpretar a Hillary Clinton em um debate na escolinha dela. Mas não funciona assim e a gente tem certeza que sempre foi e será dessa maneira. A mania de pensar na ideia do próximo minuto, do amanhã. Mas nunca o agora, no que anda acontecendo nesse instante. O que você vai levar para sempre de hoje?

O meu problema não é recomeçar. Recomeçar é sempre uma necessidade. O complicado é saber que vai acabar, sabe? Ninguém está pronto para perder.

E nada é permanente.

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ETs e dinossauros protestam contra Borja

Por volta dos 40 minutos do segundo tempo, em um ataque do Coritiba com finalização para fora, Borja, do outro lado do campo, coloca as mãos na cintura. Ele tinha acabado de entrar. Dava seus primeiros passos em campo e já repetia o gesto que faz sempre em quase todos os lances das partidas que participa: coloca as mãos na cintura. Como sinal de cansaço sem sequer ter cansado, Borja descansou os braços em apoio com o corpo outra vez. E assim repete, repete, repete. Persevera e insiste.

Já é 2896, os ETs invadem a terra e Borja segue com as mãos na cintura. Eles só não dominam o Brasil porque José Sarney Tatatatataraneto é irredutível e não deixa o cargo de presidente do país. Quem ajudou no último golpe, em 2895, jamais se renderia aos efeitos alienígenas e transformações invisíveis dos seres estranhos. Não há bomba sobrenatural que faça o governo mudar. Ou Borja, fadigado, tirar as mãos da cintura. Chove meteoritos e a cena é a mesma: Borja está lá, corpo esticado, cara triste e mãos na cintura.

O gemidão do Whatsapp saiu de moda. Ninguém assiste o Chaves. Calça jeans caiu em desuso. William Bonner passou a encerrar o Jornal Nacional sem dar boa noite (é careta desejar bom dia, boa tarde ou boa noite em 2896). A Bavaria superou as famosas marcas alemãs e belgas e se tornou a cerveja mais gostosa do mundo. O MC Donald´s é recomendado pelos mais conceituados nutricionistas buscando o emagrecimento de seus pacientes. E, diante disso, vendo tudo acontecer e com a camisa do Palmeiras no corpo, Borja continua com as mãos na cintura.

O PMDB saiu do governo (tá, nessa acho que exagerei). Borja está com as mãos na cintura. O Brasil ganhou a final da Copa do Mundo contra a Alemanha. Borja está com as mãos na cintura. E foi por sete a um. Borja segue com as mãos na cintura. Egídio acertou um passe. Borja com as mãos na cintura. Você finalmente saiu com aquele amigo que sempre marca pra semana que vem. E lá está Borja, com as mãos na cintura e no banco de reservas.

É 2896 e sua dieta começa na segunda-feira. Você promete que nunca mais vai beber. A água do mundo acabou, mas inventaram outro liquido que preenche a necessidade humana: mijovski. Mijovski foi feito na Rússia e, apesar de não cheirar muito bem, fica ainda pior com álcool. Obviamente que álcool com outra fórmula. Nem ele (que pode acusar no doping) faz Borja tirar as mãos irredutíveis da cintura.

Baratas e pernilongos já não existem mais. Os dinossauros voltaram e ameaçam, ao lado dos ETs, dominarem de vez o mundo. Os dinossauros e os ETs palmeirenses reclamam a mesma coisa: querem que Borja tire as mãos da cintura.

E, com as mãos na cintura, protestam na porta do CT.

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Romero não sabia jogar futebol, mas aprendeu no Corinthians

Romero aprendeu a jogar futebol no Corinthians. Até dois anos atrás - mais ou menos - ele não sabia sequer o que é a bola. Romero era incapaz de dominar. Era incapaz de passar para um companheiro próximo. Era incapaz de driblar. E era incapaz de acertar o gol. Só não era incapaz de correr. Corria, lá e cá, sem se cansar. Olhando Jadson, Renato Augusto, Elias e outros bons jogadores. Aprendendo com eles. Era incapaz, no entanto, de ser mero coadjuvante. De jogar entre os onze.

Romero e Mendoza - você deve se lembrar - eram vítimas das maiores ironias da mídia esportiva. Eles e quem os contratou. Romero era um apesar ambulante. Apesar dele no elenco, o Corinthians ganhou. Apesar dele no elenco, o Corinthians venceu novamente. Com Romero como titular, no ano passado, aliás. Era o apesar que marcava lateral. O apesar que preenchia espaço para Arana passar. O apesar que jamais seria mais do que um mero e incapaz apesar. Um triste apesar na rica história corintiana.

Pois todos erraram. Romero aprendeu a jogar futebol jogando no Corinthians. Fez milagre: trocou o pneu com o carro andando. Enquanto era criticado e questionado, observava. Chegou sem saber dominar com o peito. Hoje ele dá chapéu. Dá caneta. E dá dribles desconcertantes em adversários incansáveis. Romero virou finalizador exímio. Suas canelas já não acertam a bola. Suas canelas, hoje, são vítimas dos marcadores desiludidos. Dos apesares que não aprenderam a jogar futebol. Romero é - antes de tudo - um lutador. Que aprendeu. Não nasceu sabendo.

Futebol geralmente se nasce sabendo. Os grandes craques são craques antes do estrelato. São gênios ainda meninos. Fazem a diferença desde o jardim de infância. Apontados por todos os lados, por todos os públicos. "Vai ser craque", deduzem. E são. Uns não vingam porque se perdem no caminho. Outros porque não têm sorte. E outros porque não têm vontade. Não querem aprender. Não melhoram, então. Gabigol, por exemplo.

Romero melhorou aos poucos. Chegou perna de pau, no popular. Virou taticamente importante com o tempo. Hoje - e chuto que sempre enquanto jogar aqui - Romero é fundamental. Se jamais será craque, Romero é craque em querer. Na vontade de ser bom jogador, na garra. De fazer parte de um time com tal característica. Um time lutador. E o Corinthians, amigos, mostrou seu outro lado. Aprendeu a ter paciência e ensinar. Seu aluno tem dado aulas por preço de ingresso. Aulas de nunca desistir. E vale pagar.

É Romero, mas podem chamar de perseverança. A principal característica de qualquer corintiano: a perseverança. A perseverança faz a água virar vinho.

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Corinthians: o campeão brasileiro

Vocês ficaram tristes quando Tite foi selecionado. Quando Paolo deixou o bando de guerreiros. Quando Cristovão e Oswaldo não vingaram. Quando Rueda foi descartado. Quando Fábio ainda nem passava perto de ser o Carille de hoje. Vocês, ontem, viam rivais gastando milhões. Assistiam possíveis reforços se perdendo no mercado. Sonharam com Drogba. Acordaram e acreditaram com Kazim, mesmo muitas vezes não falando a mesma lingua. Incentivaram, choraram, torceram. Vocês nunca desconfiaram do tamanho do Corinthians. Da grandeza de ter tradições e glórias mil.

Vocês se decepcionaram quando berraram “vai, Corinthians” e o Corinthians não conseguiu ser o que é. Esquentaram a cabeça e a garganta por tanto gritarem por Giovanni Augusto, Marquinhos Gabriel e Romero. E adiantou. Os duvidados encerram 2017 sendo exaltados. Sendo a alma desse Corinthians questionado em janeiro. Exclamado em novembro. Não sangrou mesmo tantas vezes golpeado.

Muita gente duvidou, Corinthians. Logo de você. Que quase não gastou dinheiro, mas que gastou bola no primeiro turno do Brasileiro. Mas, assim como você, Cássio se fechou. Focou e trancou suas traves. Goleiro de seleção. Pronto para conquistar o mundo que vocês ganharam juntos em 2012. Ganhar é um verbo que combina muito com Fagner, arteria direita do corpo corintiano. Com o jovem Arana. Que apoia em campo assim como quem apoia fora dele, na arquibancada, onde Arana estava até outro dia. Assim é você, campeão Corinthians. Feito a segurança dos sólidos Pablo, Balbuena e Pedro Henrique. A regularidade e garra de Gabriel, Camacho e Maycon.

Feito o talento de passe de Jadson e Rodriguinho. Veloz como Clayson, Romero e Marquinhos. Feroz assim como é a vontade de Danilo. A volta por cima de quem quase encerrou a carreira, mas que está aqui contigo, Corinthians. Com esse bando até quando ele quiser e precisar.

Mas talvez seja Jô a figura mais semelhante. A imagem do menino da base que saiu e viveu fora. Se perdeu mais do que se achou até reencontrar o Corinthians aos 29 anos. Atual peça central de quem ficou longe de ser o centro das atenções quando a bola ainda não tinha rolado.

Você, Corinthians, ouviu tudo calado. Disseram que era a quarta força, que cairia na primeira fase do Paulista, que brigaria contra o rebaixamento. Menosprezaram. Desqualificaram. Desprestigiaram. Desfizeram de quem tanto fez e faz pelo futebol brasileiro. Um erro que, apesar de enorme, não chega ao seu tamanho.

Você, corintiano, não abriu a boca e deixou o tempo passar.

Sabe que às vezes o silêncio é a cura para quem grita por dentro.

Para no final berrar - mas de felicidade - pelo Brasil inteiro.

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Você já amou como eu amei

É que ninguém jamais confundiu Parreira e Felipão. Só você, naquele momento, naquele lugar. Era 2010, Copa do Mundo. Felipão tinha sido contratado pelo Palmeiras (ou seria, não sei bem). A tevê mostrou Parreira, então técnico da África do Sul. Eles não são nada parecidos, obviamente. Você, na verdade, nem sabia quem era quem. E tudo passou assim: leve, imperceptível, inalterável. A gente riu, infantilmente quase. E se abraçou em uma das últimas vezes.

Tudo que termina sem perceber é estranho e carrega uma dor leve. "Como seria se?", perguntamos em voz baixa, bem baixa para que ninguém escute, como um segredo bom que se esvaziou com o tempo. E chega ao fim sem solenidade, sem cortejo, sem reunião. Acaba sem despedida, discussão, tentativa. Quase como um amor de carnaval, que se perde diante de tanta gente.

"Que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?", escreveu um dia Rubem Braga, melhor cronista da história brasileira. E ele tem razão. Não é necessário mais do que isso, afinal.

Viramos retratos. Quase que não somos mais os mesmos das fotos. Nem eu sou aquele menino, nem você é aquela mulher. Dois amigos passeiam facilmente pelas memórias. Se divertem diante de tudo que viveram e dividiram. Retomam o que foram um dia. E gargalham, se divertem, brincam. Um casal, não. Casal vira lembrança apenas. Posso pensar o que seria, mas prefiro recordar o que ficou. O que restou daquele dia no bar, do dia na praia, dos dias em São Bernardo, do dia na praça e no estádio. O que sobreviveu no fim.

Sou péssimo para escrever essas coisas. Alguém vai dizer: lá vem um texto piegas, brega, cheio de lamentações. Mas é que já não somos mais o que éramos juntos, de fato. E acho até que é normal. Afinal, já não somos os mesmos e nem temos os mesmos sonhos. Não compartilhamos as mesmas aulas, as mesmas mesas, os mesmos amigos. Somos quase meros desconhecidos, que devem se cumprimentar com o velho sorriso de canto de boca se por acaso se encontrarem por aí.

Você tinha razão: Felipão e Parreira, depois de tudo, quase viraram a mesma pessoa, em 2014, no sete a um. Lá poderia não ter recomeçado o amor com a seleção. E terminado como nosso caso: do nada, com carinho, embalado com a luz que um dia prometeu nos iluminar e jamais se apagou completamente.

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Se eles estivessem vivos

Diz o ditado que grandes personagens da história nunca morrem. E eu concordo, viu? Pode passar o tempo que for: dias, décadas e séculos que eles continuarão ali, firmes e fortes, nos livros e na memória. Hoje me peguei pensando como viveriam muitos deles em 2018. E trago relatos importantes de gringos que teriam forte relação com o Palmeiras. Vou avisando: é surpreendente, revelador e chocante.

Dom João Sexto, por exemplo, seria palmeirense. Hoje com 251 anos, ele já teria abandonado (há tempos) o brega número romano VI. "Nada de VI, ora pois. É sexto. Sexxxxxxto. Ixcrito", falaria, engasgando entre coxas de frango que devoraria ferozmente. Seria contra a construção do Allianz Parque e o principal amigo da ala conservadora do Palestra. Membro do Conselho, iria aos aniversários do clube e guardaria os brigadeiros e beijinhos no bolso da calça, para comer depois. E ainda conservaria, como nos velhos tempos, um masturbador particular, mesmo se o pinto falhasse. Seria próximo de Michel Temer (principalmente perto das eleições).

Marilyn Monroe também torceria para o Verde. Aos 92 anos, com tudo em cima, seria musa do clube. Depois de largar a bebida e os Estados Unidos, Marilyn abriria uma igreja evangélica para competir com titio Val. Viraria muito amiga de Raul Seixas e, com ele, montaria uma banda para tocar aos domingos (quando não tivesse jogo do Palmeiras, óbvio). Metamorfose ambulante, mas em versão americana, explodiria nas rádios do mundo. Marilyn já não concordaria com a própria frase, dita quando jovem: “A imperfeição é bela, a crazy é genial e é melhor ser absolutamente ridículo que absolutamente boring”. Adaptaria em portuglês joelsístico.

Se tivesse mais um tempinho de vida, nosso eterno Roberto Bolaños, o Chaves, teria vindo para alguma vila da Mooca. Seria América-México e Palmeiras. Estudaria os tristes anos 80 do Verdão e falaria: “Ninguém tem paciência comigo, belo. Isso, isso, isso, meu”, com sotaque mooquense, dando chutes característicos de esquerda e direita. Às vezes misturaria o castelhano na coisa: “Meeeeeeeu, ya llegó el disco voador”. Em outro momento: “Pi, pi, pi, pi”, choraria ao relembrar a gestão Tirone. Bolaños teria 89 anos. Seria o principal crítico de Juninho e Fabiano. “Esse é de laranja, que parece limão, mas tem gosto de tamarindo”, comentaria sobre o preço pago pelos dois, discutindo o talento de ambos.

E, por fim, John Lennon. Lennon seria muito palmeirense. Teria feito excursão pelo Brasil e cantado no antigo Palestra Italia, lá pelos anos 90. Hoje com 78 anos, daria aula de música e teria montado uma faculdade. Cantaria com Roberto Carlos nos finais de ano da Globo. Para surpresa geral, apareceria em 2018 ao lado de Anitta, mandando um “vai, malandra”. Gravado, claro. Porque sempre se enrolaria na hora de gravar a parte “desce, rebola gostoso, empina me olhando e te pego jeito”. Já reparou como gringo não consegue falar a palavra “jeito”? Yoko Ono seria torcedora do Bragantino, mas não me pergunte o motivo. Daria encrenca durante o Campeonato Paulista.

Sem falar no árabe Mustafá que, se estivesse aqui, teria quase 80 anos. Ops. Error 404.

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