Olha que slogans bonitos:
"Say No to Racism". Diga não ao racismo em inglês...
Ou: "My Game is Fair Play". Meu jogo é justo... é fair-play.
Aí tem o "No to Racism". Lista de frases fortes, não? "Não ao Racismo". Nem sinal de exclamação tem...
Tem o "Equal Game", ou "Jogo Igual".
O mais inspirador... ironicamente falando, é claro, é o "Respect".
Uau... assim direto... "Respeito".
A lista de slogans é longa e as fontes são elegantes, impressas em braçadeiras de capitães que ganham milhões e em placas de publicidade que brilham ao redor do gramado.
Frases.
Nada mais.
Não ajudam nem nunca ajudaram em nada.
Mas estão lá: sendo divulgadas em campanhas publicitárias caríssimas, impressas em camisas e, no fim das contas... não valem nada.
Nem em campo, nem nas arquibancadas. E muito menos fora dos estádios.
Quem achar que, no momento em que alguém tem que pedir "Respeito", e acha que vai conseguir... esse alguém vive no mundo imaginário de Nárnia.
A verdade é que dói pensar que, para que se calem algumas bocas, para fingir que estão fazendo algo contra o racismo, dirigentes pensam que com frases inúteis e óbvias eles vão conseguir mudar algo num esporte onde, há bem pouco tempo, a FIFA foi obrigada a mudar a regra sobre quem fala com o árbitro.
Depois de tanta reclamação, mentiras, enganação e malandragem por parte de jogadores, a FIFA criou a lei que limita somente o capitão do time a poder falar com o juiz... porque o coitado não conseguia mais lidar com montes de atletas reclamando no ouvido dele.
E nesse ambiente... inscrever "Fair-Play" na camisa e "Respect" na placa de publicidade, os dirigentes acham que vai mudar alguma coisa em campo ou nas arquibancadas...
Pois respiremos um segundo aqui...
É quase poético ver a FIFA e a UEFA gastarem tanto tempo escolhendo as cores de suas campanhas enquanto o mundo real mostra torcedores nos quatro cantos do mundo imitando gestos de macacos para jogadores negros desde as arquibancadas.
São frases de efeito que ficam ótimas em relatórios anuais de sustentabilidade social, mas que parecem escritas com tinta que desaparece assim que o primeiro som de gritos de "mono" na Espanha, ou "scimmia" na Itália, ou "macaco" mesmo... ecoa de uma arquibancada lotada.
É a grande ironia das instituições que comandam o esporte mais popular da Terra.
E essa ironia agora está voltando, como um bumerangue, bem na cara deles.
Elas criam inúteis selos de qualidade ética, distribuem multas que fizeram Luis Suárez dar risada quando ele disse ao jogador negro Evra, em pleno campeonato inglês, que ele "não fala com negros"... 40.000 libras. Menos de uma semana de seu astronômico salário, então no Liverpool.
Multas que não afetam salários de atletas e/ou dirigentes.
E dirigentes de entidades que deveriam estar agindo, mas, ao invés disso, esperam que a mágica da propaganda e das frases de efeito resolva décadas de racismo em campos e estádios.
Enquanto os slogans desfilam pelas camisas, braçadeiras e publicidades, o jogo segue o roteiro de sempre, real.
Racista.
E a indignação inócua, institucional, dura exatamente o tempo de um post oficial nas redes sociais antes que o próximo contrato de transmissão seja assinado e o dinheiro silencie a consciência de quem deveria agir.
Isso sim: FIFA, UEFA, federações e clubes não param de ver crescer a lista de seus patrocinadores.
Há clubes sul-americanos que hoje compram jogadores europeus. Há seleções que quebram recordes em números de patrocínios.
Nunca clubes e seleções tiveram prêmios tão altos por vencerem competições.
E prêmios astronômicos por vencê-las!
Toda essa encenação ganha um tom ainda mais surreal hoje, enquanto eu escrevo e você lê este artigo.
Quando olhamos para o caso de racismo contra Vinícius Júnior no jogo contra o Benfica agora em 2026 — o 20º caso que ele sofre oficialmente...
Ninguém duvida que houve racismo em campo.
Mas os dirigentes do futebol, lentos como um mamute em extinção, ainda querem verificar, ver, analisar, tentar entender e, cansados de saber que, sim, há racismo... ainda querem confirmar.
Mesmo com um baixinho argentino sendo covarde e se achando esperto, colocando a camisa na boca durante o jogo para dizer ofensas contra o atacante brasileiro.
É algo quase poético, se não fosse trágico.
Pense bem na imagem de um homem de pele escura, resiliente, no topo de sua forma física e técnica, sendo um dos melhores jogadores de bola do planeta.
Ele marca um gol lindo, fenomenal e decisivo. Gol da vitória em uma Champions League.
E o que ele faz em seguida é dançar. Debocha, brinca, enfim... celebra.
Toma um absurdo amarelo por ter "comemorado demais", segundo o árbitro, sem mesmo ter saído das quatro linhas.
É um momento de felicidade pura.
Mas o simbolismo por trás dessa alegria foi afronta para muitos.
Acusado de desrespeitar a bandeira do Benfica que estava no escanteio, ele foi atacado.
E, por ser negro, ele sofreu racismo.
Se fosse branco, seria xingado. Por ser negro, foi xingado e discriminado pela cor de sua pele.
Não parece complicado.
Mas, para o Benfica, por exemplo, entidade centenária e respeitada, Vini Jr. "causou" essa reação pelo modo de festejar seu gol.
Misturaram alhos com bugalhos. Botaram mel no feijão... nada a ver, nada com nada.
Como ele celebrou seu gol de forma que eles acham "desrespeitosa", então tudo bem chamar ele de negro e imitar gestos de macacos na arquibancada em Lisboa...
Quanta pobreza espiritual.
Ver essa resiliência negra celebrando uma vitória contra um time português, o país que foi o maior catalisador da colonização no Brasil, é um choque de história ao vivo.
O motivo de o Brasil falar português e o motivo de Vinícius Júnior estar ali sendo insultado por quem deveria apenas apreciar o seu talento, se confundem na mesma raiz histórica.
E o roteiro fica ainda mais perverso quando o suposto agressor, o jogador Prestianni, vem da Argentina: o maior rival futebolístico do Brasil.
Para completar o quadro, o comandante do time português, um homem branco, José Mourinho, que em vez de usar sua voz gigante para mudar o rumo das coisas, prefere usar a coletiva de imprensa para culpar a natureza da celebração de Vinícius.
Como dito antes,... ignorando a reação criminosa de seus torcedores.
E sequer considerar que seu jogador, o tal do Prestiani, poderia ,sim, ter feito algo grave.
Não para Mourinho. Isso sequer foi cogitado.
Acusar Vini Jr, o tal Mourinho soube fazer.
Dizer que vai averiguar o que seu jogador fez, isso nem passa pela cabeça dele.
A culpa de tudo, do jogo ter sido interrompido por mais de 10 minutos, é do brasileiro, óbvio.
Para o infeliz treinador portugues.
Que agora vai ter que aguentar a repercussão de suas frases. Que não são poucas lá mesmo em Lisboa, onde a mídia local não para de questioná-lo.
E nessa macabra cena poética, no meio disso tudo, o único que confronta o agressor para defender seu companheiro é um atleta de pai africano do Camarões e mãe francesa. Branca.
Provando que às vezes a vida está tentando nos dizer algo e nós simplesmente nos recusamos a ouvir.
Ou preferimos continuar com os mesmos hábitos de indignação seletiva que não mudam absolutamente, na realidade, nada.
Para entender por que chegamos a esse ponto de explosão no racismo do futebol, precisamos viajar por um túnel escuro de memórias que o esporte número 1 do planeta tenta esconder, varrendo caso após caso, sob o tapete verde dos gramados.
E essa viagem começa muito antes da televisão a cores chegar a nossas casas, quando negros eram proibidos de jogar ou obrigados a esconder quem eram.
Em 1904, Francisco Carregal precisava usar uma touca para esconder o cabelo crespo e aplicar pó de arroz no rosto para parecer menos negro no clube dele, o Bangu do Rio de Janeiro.
Era o Bola Branca, um talento que só podia existir se fosse mascarado.
"Bola Branca" era o apelido irônico e maldoso que deram ao a Carregal.
A explicação é a seguinte: como ele era negro e o futebol era um esporte de elite, ele era obrigado a jogar usando pó de arroz no rosto para clarear a pele e uma touca para esconder o cabelo crespo.
Como ele ficava com o rosto completamente branco de maquiagem para tentar "disfarçar" sua origem negra, os adversários e o público começaram a chamá-lo de "Bola Branca".
Era uma forma de dizer que ele era um "negro querendo ser branco" ou uma "bola de neve" em campo.
O mesmo aconteceu com Carlos Alberto no Fluminense em 1914, onde o apelido "pó de arroz" nasceu de uma provocação racista das torcidas rivais que percebiam a maquiagem caindo com o suor no decorrer dos jogos. Negros não deveriam, nem podiam jogar o futebol que os "nobres" britânicos trouxeram ao Brasil.
O preconceito era tão profundo que atingia até quem não era negro mas escolhia o futebol.
Como no caso do único ser humano na história a conquistar 4 Copas do Mundo, Mário Jorge Lobo Zagallo.
De família de classe média, precisou esconder dos pais de sua futura esposa que era jogador, pois na época o esporte era visto como algo marginal, destinado apenas a pobres e negros.
Sim, ao contrário de algumas décadas anteriormente, onde só brancos eram aceitos em campo.
Esse tal de futebol é mesmo uma coisa de doidos...
No tempo de Zagallo, se você queria ser aceito na sociedade, ser do futebol era uma mancha no currículo.
Um tipo de racismo social que definia quem podia ou não pertencer aos círculos da elite.
Mas houve quem resistisse. E essa resistência tem nome.
A Ponte Preta, clube que alega ser o mais antigo do Brasil, fundado em 1900, aceitava negros e operários desde o primeiro dia.
E por isso foram então chamados de "macacada" pelos rivais.
A Ponte Preta da cidade de Campinas então não hesitou: eles adotaram uma Macaca como símbolo de orgulho. E símbolo oficial do clube até hoje.
Não se joga hoje contra a Ponte Preta, mas sim contra a " Macaca".
E o que dizer do Vasco da Gama de 1923, que confrontou a liga de elite do futebol brasileiro então, e se recusou a expulsar seus doze atletas negros e pobres.
Era uma condição imposta ao Vasco da Gama, para ser aceito entre os brancos que formavam a liga.
Foi o primeiro manifesto antirracista do esporte mundial.
Mas a estrutura do futebol sempre deu um jeito de punir, de encontrar o responsável por derrotas.
Quando o Brasil perdeu a dramática Copa do Mundo de 1950 jogando em casa, a culpa foi depositada inteiramente nos ombros de três jogadores...negros.
Especialmente sobre o goleiro Barbosa, que viveu uma verdadeira "sentença de morte" social por mais de cinquenta anos, isolado, marcado, sentenciado como culpado da derrota no Maracanã.
Em 1954, a tese era de que jogadores negros eram tecnicamente superiores, mas emocionalmente instáveis. Não confiáveis apra o esporte de alto desempenho.
Um racismo pseudocientífico que serviu para justificar a exclusão e a desconfiança por décadas contra atletas negros.
Até os anos sessenta, clubes como a Portuguesa Santista mantinham em seus estatutos a absurda e racista proibição oficial de contratar jogadores negros: um apartheid escancarado.
Ironicamente, na mesma cidade e nos mesmos anos em que o Rei do Futebol, o negro Pelé, encantava o mundo.
Enquanto o Brasil lidava com suas sombras raciais, a Europa mostrava que o ódio estava lá também: o racismo não tinha fronteiras.
Andrew Watson foi o pioneiro na Escócia em 1881, mas a Inglaterra, a situação e simplesmente escandalosa!
Trata-se de um dos fatos mais vergonhosos da história do futebol mundial em geral, e inglês, especificamente.
A seleção da Inglaterra, ou como dizem por aí, o país que inventou o futebol moderno e codificou suas regras em 1863, levou nada menos que 115 anos para colocar um jogador negro em campo defendendo as cores do país.
Somente em 1978, Viv Anderson entrou em campo com a seleção, mais de quarenta anos depois de Portugal ter convocado o primeiro negro na história de sua equipe nacional: Guilherme Espírito Santo, em 1937.
Na França, equipe criticada por ter vencido o Mundial de 2018, somente tendo em campo jogadores negros ( com pais e avós de origem africana e caribenha).... o primeiro negro só pode jogar pela seleção nacional em 1931, foi Raoul Diagne.
Os anos 70 e 80 foram marcados pela violência do National Front, um partido político de extrema-direita e orientação neonazista.
O partido usava os estádios de futebol como seu principal campo de recrutamento e propaganda racista.
Houve um processo do partido de Infiltração no Hooliganismo.
O partido National Front percebeu que as arquibancadas estavam cheias de jovens brancos da classe trabalhadora, frustrados com a economia.
Eles infiltraram então militantes dentro das torcidas organizadas (chamados de firms) para transformar a violência do futebol que existia em violência política racial.
Dirigentes deste partido racista e nazista foram os grandes responsáveis por organizar, pela primeira vez no futebol mundial, os coros de sons de macaco durante partidas e o arremesso em massa de bananas sobre atletas negros.
Prática adotada hoje ainda em outros países...
O objetivo era intimidar os jogadores negros pioneiros (como o próprio Viv Anderson ) para que eles desistissem de jogar, sob a ideia de que "não havia preto na bandeira do Reino Unido" (There ain´t no black in the Union Jack, diziam eles nos seus coros, cantados nos estádios).
Membros do partido National Front esperava os jogadores negros na saída dos vestiários ou nas estações de trem para agredi-los fisicamente.
Eles transformaram o ato de ir ao estádio em um ambiente de terror para qualquer torcedor ou jogador que não fosse branco.
Basicamente, o National Front foi a organização que tirou o racismo do plano individual e o transformou em uma estratégia política coordenada dentro do futebol europeu.
E que serve de base e inspiração para os racistas no futebol de hoje em dia.
Sem entender o papel deles, não dá para entender por que os anos 70 e 80 foram tão brutais para os negros na liga inglesa.
Bananas, cantos racistas, cuspes e ódio.
Era assim o racismo no futebol inglês dos anos 70 e 80.
Agora que voce sabe de onde vem o racismo moderno, igualmente como o "futebol moderno"...sim: da Inglaterra, vamos em frente.
Porque há mais racismo no caminho.
Porque não há como falar de outro " Fronte Nacional": o da França.
Partido político também, de extrema direita também.
E bem racista também.
Só que dos anos 2000
Grupos nacionalistas na Itália e na própria França usaram a composição de suas seleções nacionais para atacar a imigração.
No caso do partido frances, dizendo que aquela Seleção "não era a verdadeira França".
O que torna isso fascinante (e trágico) é definir aqui que existe um debate expõe o tal do "racismo de conveniência":
Se o time ganha, com fez a França em 2018 com uma seleção composta de 23 jogadores, somente 8 jogadores eram brancos.
Aí então a diversidade é celebrada como o triunfo da "Fraternité" (o lema nacional francês).
Agora, se o time perde (como na Copa de 2010 e na final de 2022), esses mesmos jogadores voltam a ser vistos como "estrangeiros", "indisciplinados" e "sem amor à bandeira".
Na final de 2022, quando a França perdeu para a Argentina, jogadores como Kingsley Coman e Aurélien Tchouaméni foram atacados brutalmente com ofensas racistas na internet.
Suas famílias ameaçadas.
Nenhum atleta branco daquela seleção sofreu ameaças...
Isso prova que a cidadania francesa para o atleta negro é, muitas vezes, condicional ao sucesso.
O Front National Francês era mais focado na política institucional e na crítica à "França multicultural".
A grande polêmica deles com o futebol foi na Copa de 1998 e depois na de 2018.
Seu líder, Jean-Marie Le Pen disse publicamente que a seleção francesa era "artificial" porque os jogadores negros não sabiam cantar o hino (A Marselhesa) com "fervor suficiente"...
O preconceito no futebol não é apenas sobre a cor da pele, ele é também religioso e étnico.
Muito alem de negros.
Todos falam de Vini Jr. hoje. Mas há no futebol outros tipos de discriminação. Sempre racista ao extremo.
Por exemplo, no caso do jovem craque israelense Manor Solomon que estava no Atalanta da Itália em 2023 é um verdadeiro soco no estômago.
O clube desistiu de contratá-lo porque sua torcida organizada declarou que "não aceitava um judeu no time".
Ele foi embora do time.
Não houve como os dirigentes " aguentaram a pressão dos torcedores".
Bonito isso....Mesmo sendo racistas, os torcedores receberam o que pediram.
Manor Solomon seguiu para o Tottenham da Inglaterra, virou ídolo local.
E na Itália, ninguém puniu ou afrontou o racismo do Atalanta, as ameaças de seus torcedores e a incapacidade de fazer absolutamente nada,de seus dirigentes!
Isso aconteceu agora, há dois anos.
Sem punições severas.
Somente repetindo o que já havia acontecido, exatamente igual:
Na mesma Itália, Ronnie Rosenthal, atacante israelense sofreu racismo na Udinese antes mesmo de jogar um minuto sequer.
Foi também para a Inglaterra.
Virou ídolo do Liverpool. E ninguém na Udinese foi punido.
Foi também o que sofreu outro atacante israelense: Racismo descarado.
Era o atacante, também israelense,Eran Zahavi enfrentou na Holanda, jogando com a camisa do Ajax.
Quando jogava contra alguns clubes adversários da liga nacional holandesa, os torcedores adversários cantavam músicas com sons imitando câmaras de gás....usadas para matar judeus pelos nazistas na 2ª Guerra Mundial.
O mesmo Ajax que adotou a identidade judaica como escudo, mas através disso atraiu o antissemitismo das torcidas rivais que exibem bandeiras nazistas até hoje nos jogos contra o clube.
Até mesmo Mario Balotelli, negro, sofreu ataques de racismo "duplo": ataques antissemitas da torcida da Lazio por ter uma mãe adotiva... judia, e ataques racistas por ser negro....
Provando que o ódio se acumula sobre os mesmos corpos de formas diferentes.
A perseguição a Vinícius Júnior na Espanha, que sofreu já vinte casos documentados em cinco anos, incluindo bonecos de pano com seu nome, sendo enforcados amarrados em pontes.
E cantos de macaco em estádios como o Mestalla e o Camp Nou, é o ápice de um sistema que vence uma guerra sem adversário.
E que se recusa a mudar.
O fato de ele ter sido expulso em uma ocasião jogando contra o Valência, em Maio de 2023, após denunciar o racismo no campo, resume a total e completa inversão de valores.
No Brasil, o goleiro Aranha conseguiu a primeira condenação criminal de um torcedor em 2014.
O goleiro Aranha, que jogava pelo Santos, foi alvo de insultos racistas vindos de um setor da torcida gremista.
As câmeras de transmissão de TV flagraram nitidamente torcedores, incluindo uma jovem chamada Patrícia Moreira, gritando "macaco" e fazendo gestos que imitavam o animal enquanto Aranha estava posicionado para uma cobrança de meta.
Diferente de muitos casos anteriores, Aranha não se calou.
Ele gesticulou para o árbitro, denunciando os gritos.
O STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) decidiu, por unanimidade, excluir o Grêmio da Copa do Brasil daquele ano devido aos atos racistas de sua torcida.
Foi a primeira vez que um clube foi eliminado de uma competição por racismo no Brasil.
Patrícia Moreira e outros torcedores foram indiciados por injúria racial.
Patrícia perdeu o emprego, teve sua casa apedrejada e sofreu um linchamento virtual.
A história de Daniel Alves, que jogava no Barcelona, foi considerada até um ato irônico: durante uma partida, em abril de 2014, onde torcedores do Villarreal o chamavam de macaco, e até uma banana foi arremessada contra ele, quando ia bater um escanteio.
Dani Alves não pensou duas vezes: recolheu e comeu a banana, assim, no meio do jogo.
Foi um momento que viralizou no mundo inteiro, mas que, na prática, virou uma peça de marketing em vez de uma mudança real.
O torcedor, David Campayo, foi identificado, detido, liberado. E banido para sempre do estádio do Villarreal
Neymar até lançou a hashtag #Somostodosmacacos, mas o racismo continuou lá, estrutural.
No Leste europeu a situação é grave. Na Polônia, Ucrânia e na Rússia, são dezenas de casos de sulamericanos e africanos que são atacados e sofrem racismo nos últimos anos
E nada acontece.
Na Turquia, o pior: em campo e fora dele, atletas de pele negra são discriminados há décadas.
Sem nenhum tipo de interferência de autoridades ou dirigentes.
É na Turquia que repetidamente vêem-se torcedores de clubes da primeira e segunda divisão recepcionando jogadores negros, com torcedores pintando a cara com tinta preta...
E até na Ásia o racismo existe no futebol. De maneira cada vez mais grave, já que autoridades negam a sua existência, alegando que se trata somente de "um grupo radical e pequeno de torcedores".
Assim acontece nestes dias na Tailândia, onde o artilheiro da liga local, o Brasileiro Deni Jr., teve suas redes sociais e de sua esposa inundadas de ataques racistas, chamando-os de "macaco" e "gorila".
No Japão, o incidente ocorrido em 2014 com torcedores do Urawa Reds, que colocaram uma faixa na entrada de um dos setores do estádio que dizia: "Japanese Only" (Apenas Japoneses).
O Motivo: era um protesto contra a presença de jogadores estrangeiros no time. Foi então que pela primeira vez na história da J-League, um clube foi punido.
O Urawa teve um jogo com portões fechados....
No Japão, o preconceito é mais focado em "quem não é japonês" do que especificamente na cor da pele, embora jogadores negros sofram, sim, insultos isolados.
Como o caso do atacante queniano Michael Olunga, que foi artilheiro e MVP da J-League pelo Kashiwa Reysol, sofreu ataques racistas brutais em redes sociais.
Ou no caso mais recente e emblemático.
Com Zion Suzuki, o goleiro da seleção do Japão, filho de pai ganense-americano e mãe japonesa.
Durante a Copa da Ásia de 2024, após uma falha em campo, Suzuki foi inundado de insultos racistas por torcedores do próprio Japão.
Ele sofreu ataques de nacionalistas japoneses, que dizem que ele não é considerado "japonês de verdade", apesar de ter nascido e crescido no sistema de futebol do país.
Já na China, houve vários casos de racismo.
Os mais polêmicos tiveram dois protagonistas famosos envolvidos.
Demba Ba em 2018 foi vítima de ataques racistas.
O atacante senegalês, jogando pelo Shanghai Shenhua, foi alvo de insultos racistas por parte de um jogador adversário (Zhang Li). Demba Ba ficou transtornado em campo. O jogador chinês foi suspenso por 6 jogos
Já o brasileiro Hulk em 2017, quando estava no Shanghai SIPG, foi acusado por um treinador adversário de ter agredido seu assistente por motivações racistas.
O caso foi abafado pela liga chinesa. E Hulk decidiu que não ficaria mais muito tempo naquele país.
Na China, disse Hulk, o racismo muitas vezes é usado como ferramenta psicológica para desestabilizar os astros estrangeiros.
Segundo fontes da ONU, o racismo segue vivo no futebol atingindo 48,1% dos jogadores negros brasileiros segundo pesquisas recentes dp Observatório da Discriminação Racial no Futebol.
Aliás, O Brasil é um dos poucos países onde a polícia entra em campo, no fim de jogos, para prender atletas que cometem racismo, crime grave na legislação brasileira.
O caso mais famoso ocorreu em 2005, durante uma partida da Copa Libertadores, na cidade de São Paulo.
O zagueiro argentino Desábato, do Quilmes, chamou o atacante Grafite (do São Paulo FC) de "macaco" durante uma briga em campo.
Grafite não esperou e denunciou ao árbitro.
E Desábato foi preso em flagrante ainda dentro do gramado do Morumbi, logo após o apito final.
Ele passou duas noites na cadeia e só saiu após pagar fiança.
Em 2022, na Neo Química Arena, um torcedor argentino foi preso em flagrante por imitar um macaco em direção à torcida do Corinthians.
Em Dezembro de 2024, durante um jogo válido pelo torneio Brasil Ladies Cup, quatro jogadoras do River Plate da Argentina, foram presas em flagrante por injúria racial contra atletas e um gandula do Grêmio.
O jogo foi encerrado pela arbitragem devido à gravidade do caso, seguindo orientações da FIFA
O racismo no futebol da América do Sul sempre foi dramaticamente grande.
Diferente do Brasil, o futebol da América do Sul regido pela Conmebol, lida com o racismo de forma muito mais "tímida".
Por anos havia por lá o famigerado "Imposto do Racismo": Por muito tempo, a Conmebol apenas aplicava multas financeiras irrisórias (cerca de 30 mil dólares) em casos graves de racismo.
Os clubes pagavam.
E o racismo continuava.
É quase como se houvesse uma "tabela de preços" para poder insultar brasileiros, únicos a falar português no continente.
E também por isso, há o chamado " Estereótipo do Brasileiro".
Em países como Argentina, Uruguai e Chile, o uso da palavra "macaco" contra brasileiros é tratado por muitos torcedores (e até pela imprensa local) como uma "provocação de jogo" e não como um crime: algo natural na rivalidade " saudável", segundo eles, do futebol.
Pois, em 2022, o Observatório da Discriminação Racial registrou um recorde nas competições sul-americanas.
O padrão é quase sempre o mesmo: clubes brasileiros viajam e são recebidos com bananas e sons de macaco, mas raramente o time local perde pontos ou tem o estádio interditado de verdade.
Algo que pouca gente menciona, mas que o Observatório destaca, é o racismo institucional na gestão.
E não só no Brasil, mas como explicar, o gigantesco número de jogadores negros na Europa e America do Sul, e inversamente, o praticamente inexistente número de técnicos negros no futebol de alto desempenho?
Considerando que a grande maioria, quase absoluta de treinadores das principais equipes nos dois continentes, é formada por profissionais que eram jogadores.....
O racismo atinge até o futebol feminino, como no caso de Paola Rodrigues no São José FC, onde o preconceito de gênero se cruza com a cor da pele em um silêncio ainda maior.
O caso da Paola Rodrigues (que na época jogava pelo São José FC) é um dos episódios mais revoltantes do futebol feminino brasileiro, pois ocorreu em um momento em que a modalidade lutava por visibilidade e respeito.
O incidente aconteceu em setembro de 2021, durante uma partida entre São José e Red Bull Bragantino, válida pelo Campeonato Paulista Feminino.
Paola Rodrigues relatou ter sido chamada de "macaca" por uma jogadora adversária (Lay, do Bragantino).
O insulto não foi apenas um "desentendimento de jogo"; foi uma agressão direta à identidade da atleta.
Diferente de muitos casos no passado, houve uma reação imediata: o jogo foi paralisado na hora pelo árbitro.
A Polícia Militar foi acionada e entrou no gramado no campo.
Ambas as jogadoras e representantes dos clubes foram levados para a delegacia minutos depois.
A jogadora do Bragantino chegou foi para a prisão por injúria racial, mas foi liberada após o pagamento de fiança.
Por que desta vez, nestes dias, tudo explode no jogo contra o Benfica ?
A resposta está na exaustão. No contínuo e desagradável cenário de repetição escancarado de casos de racismo no futebol.
E no novo, e até agora bem ineficaz, protocolo de Racismo da FIFA que finalmente permitiu que o jogo fosse interrompido.
Vinicius, que luta contra o racismo na pele de modo brutal na Espanha, tem sido um embaixador na luta contra a discriminação.
Ele foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da ONU através da UNESCO, desde 2024
Virou símbolo global da luta antirracista no futebol
No Brasile há uma lei já em seu nome: a Lei Vinicius JR desde 2023.
Lei aprovada no Brasil combatendo racismo em eventos esportivos.
Aumenta penas e facilita identificação/punição de racistas em estádios.
Já na Espanha, apesar de pouco, VIni Jr. já causa revolução de verdade: foram nada menos que 5 condenações judiciais na relacionadas a ataques contra ele.
Algumas com ordens reais de prisão.
Nada menos que um marco histórico: pela primeira vez na Espanha, racismo em estádio levou torcedores à prisão.
O fato é que temos que dizer: Vinícius transformou por completo a questão racial no futebol europeu em algo urgente.
Antes dele, casos eram ignorados ou minimizados.
Ele se recusou a aceitar, denunciou repetidamente, usou visibilidade para forçar mudanças.
É o jogador negro mais atacado da história recente.
Mas também o que mais lutou contra isso publicamente.
Mas o debate explode porque agora as máscaras caíram.
A justificativa de José Mourinho e de tantos torcedores de que o comportamento de Vinícius provoca o racismo é uma das mentiras mais covardes do esporte.
Atacar alguém pela cor da pele sob a desculpa de que ele comemora gols com alegria é apenas o racismo buscando uma máscara de racionalidade.
Comportamento e cor de pele não têm conexão.
Pep Guardiola tocou no ponto central ao dizer que o racismo só acabará quando a sociedade entender que quem deveria ganhar mais são os professores e os médicos.
O futebol é o palco mais iluminado de uma sociedade doente do mal de racismo.
É chocante no estádio, pelas câmeras de TV e estrelas em campo.
Mas o estádio nada mais é que o reflexo da criança negra que sofre bullying na escola, Mas não gera manchetes.
O futebol não é diferente da sociedade.
Ele é apenas o espelho que ela, a sociedade, se recusa a olhar.
As federações não resolveram o problema, talvez porque o racismo gera engajamento e elas temem as massas que sustentam o negócio.
Nada muda se nada mudar.
E continuar apenas indignado é uma forma de cumplicidade.
O tempo de aceitar o desequilíbrio emocional como desculpa para o preconceito acabou.
Rivalidade não justifica racismo.
E racismo é crime de ódio.
Seja ele pela cor da pele, pela religião ou pela origem geográfica.
O racismo no futebol vai acabar quando a cor da pele for irrelevante, mas para isso precisamos parar de culpar a dança e começar a punir quem tenta parar o baile.
Texto longo ? Sim. O racismo precisa de muitas explicações, mas sobretudo de muitas perguntas.
E este espaço é pra isso: para que argentinos, Mourinhos, dirigentes e racistas em geral, entendam que....o jogo para eles, devagarinho infelizmente, está acabando.
Felizmente.
Ficamos com a celebração mais conhecida no mundo do futebol na história.
A do Rei.
Pelé socando o ar, a cada gol, manifestava sua indignação contra muitas coisas. Mas quem o conhece sabe que ele "falava" com aquele soco no ar, contra o racismo que sempre sofreu.