Válter Vasconcelos

Ex-meia do Santos
Por Chico Santo
 
Válter Vasconcelos Fernandes, nasceu em Belo Horizonte (MG) em 28 de maio de 1930. Excelente meia-esquerda do Santos FC nos anos 50, morreu no dia 22 de janeiro de 1983, em Brusque, Santa Catarina e lá está sepultado. Ele morava no bairro Dom Joaquim. O ex-meia que também atuou pelo Vasco da Gama, passou por Náutico e Apucarana (PR), no início dos anos 60. Foi, na realidade, da glória ao xilindró. Um exemplo de craque que se deixou levar pelo vício. Talento indiscutível. Exemplo de craque, lamentavelmente, jogado na lata de lixo. "Foi um dos principais jogadores do Peixe de todos os tempos", se recorda o jornalista Paulo Roberto Martins. "Um dos ídolos da torcida do Santos", relembra Pepe. O descaso do infortúnio de Mauro Ramos de Azevedo. O precursor, ao acaso, da Era Pelé no Santos. "Num dia de jogo na Vila Belmiro pelo Campeonato Paulista de 1956, Valdemar e Dondinho chegaram com Pelé, que aos 15 anos vestia calças compridas pela primeira vez e nunca tinha visto uma cidade e um estádio tão grandes. O garoto, que estava ansioso para conhecer Zito, foi ao vestiário ao fim do jogo e conheceu todos os cobras do Santos. O técnico Lula, que havia sido alertado por Valdemar de Brito para as habilidades do garoto, perguntou, sorridente: "Então você é o tal Pelé, hein?! Já estávamos esperando por você. Fique à vontade!". Dondinho pediu para os jogadores tomarem conta do filho, e Vasconcelos, titular da camisa 10 que um dia seria consagrado pelo garoto pequeno e tímido que chegava, agarrou Pelé pelo pescoço e respondeu: "Pode deixar!", descreve Odir Cunha, o "ombudsman" do Santos.

Os dois se tornaram companheiros de clube. Um na plenitude de sua carreira, o outro a esperança de que ainda conquistaria o mesmo respeito adquirido por Vasconcelos. Talvez, diante de tudo o que Pelé fez no futebol, hoje, até seja mais fácil acreditar que o então jovem de 14 anos estava preparado para tomar a 10 de seu antecessor. Mas naquela altura do jogo, somente uma fatalidade poderia colocar o então 10 do Peixe na reserva. Exatamente, como ocorreu.  "Foi em um desses dias, uma tarde de domingo, 9 de dezembro de 1956, que Pelé viu o amigo e protetor Vasconcelos quebrar a perna em uma jogada com o zagueiro Mauro Ramos de Oliveira, do São Paulo, jogo que o Santos perdeu por 3 a 1, pelo segundo turno do Campeonato Paulista daquele ano. Vasconcelos tinha tocado para Pepe e recebido na frente. No momento do chute foi calçado por Mauro, que, depois, casualmente, caiu sobre a sua perna".

O lance originou a história de Pelé com a camisa do Santos e praticamente colocou um ponto final na carreira de Vasconcelos, após o trágico lançamento de Pepe. "Eu me lembro, foi uma jogada absolutamente normal, corriqueira, que a gente fazia muito, aqui, no Santos. A gente trocava muito de posição. Então, eu desci pela meia esquerda e o Vasconcelos, imediatamente, abriu para a ponta. Então eu fiz o passe para o Vasconcelos assim próximo da linha lateral, no gol de fundo da Vila Belmiro. O campo estava molhado e o Mauro procurou se antecipar. A gente pensava que era uma lesão normal sem essa gravidade que teve. Foi realmente muito triste".

Mais do que um acidente de trabalho, a séria lesão representou o declínio físico e emocional do craque. "Ele ficou muito tempo parado e quando voltou alguns meses depois não era mais o mesmo jogador. Não existiam os recursos que existem hoje. O Vasconcelos voltou com um futebol com a expectativa de ser o mesmo Vasconcelos, mas não foi. Ficou pouco tempo no Santos e se transferiu para o Jabaquara", complementa Pepe. Transferência prematura que, em uma ironia do destino, acarretou no término da relação com o grupo que ele também ajudou a projetar. "Logicamente, ele saiu do Santos e - o Santos jogando como jogava, quase todo o dia, - a gente perdeu o contato", diz Pepe.

Solidão entregue ao vício, porém, fruto de uma escolha errada. "Jogando no Santos, no auge dele, ele já vivia bêbado. Em muitas ocasiões, várias vezes, os jogadores do Santos foram buscá-lo em uma boate ou deitado em um banco de praça, ainda jogando bola pelo Santos. Não houve por parte dos jogadores do Santos um relacionamento mais íntimo, mais amigo com o Vasconcelos. Muitos o criticavam muito pela postura. Ele era uma figura discutida em Santos pelo fato de ser alcoolatra e aqueles jogadores mais sérios acabaram se afastando e por isso acabou basicamente como mendigo", afirma o jornalista Paulo Roberto Martins.

Na tradução da bola, a bem da verdade. Valter Vasconcelos acabou como mais um exemplo de atleta jogado à sarjeta. "Não existiam drogas como maconha e cocaína. O problema principal era o álcool. Na verdade, ele saiu de Santos, deu uma perambulada por aí, foi jogar em Pernambuco. Terminou a vida dele em Santos. Morreu muito novo. Terminou a vida pobre, alcoolatra e vivendo de favores das pessoas amigas. Mas aqueles poucos amigos que ele tinha foram absolutamente impotentes para controlar o vicio da bebida dele, jogando fora toda a trajetória brilhante que teve como jogador de futebol. Lamentavelmente, terminou a vida de forma melancólica, muito pobre, sem dinheiro", acrescenta Morsa.

Foi, a bem da verdade, a antítese da história do jogador que acidentalmente ajudou a revelar Pelé mas que, diante dos próprios erros, acabou como por se tornar a sombra invertida de um Rei. "Não houve nenhum tipo de relação entre eles. O Pelé entrou no time principal do Santos e o Vasconcelos ficou afastado. Não havia um relacionamento bom do Vasconcelos com o grupo de jogadores do Santos, no qual Pelé fazia parte. Então, posteriormente ao encerramento da carreira dele, o Pelé não teve nenhum tipo de participação, nenhum tipo de relacionamento", opina Paulo Roberto Martins. 

A bebida, mediante a derrota pelo álcool, fez com que Valter Vasconcelos mantivesse o status de 15º maior artilheiro da história do Santos com 111 gols associado a uma carreira polêmica. "Ele era um dos poucos jogadores que morava na Vila Belmiro naquela época. Estava sempre na Vila Belmiro. Ficava ali próximo ao portão de entrada onde tinha uma pedra muito grande. Ele ficava sentado ali antes e depois dos treinos com um chapéu de palha na cabeça e uma camisa na flanela batendo papo com os torcedores. Era muito querido. O apelido dele era Bagaço Foi muito importante para a subida meteórica que o Santos teve. Se não tivesse quebrado a perna, talvez Pelé demorasse um pouco mais para ser revelado no Santos", finaliza o ex-companheiro de ataque Pepe.
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