Zé Roberto

Ex-ponta do Fluminense e Santa Cruz
Zé Roberto, o José Roberto Lopes Padilha, nascido em 1952, tem quatro filhos e atualmente mora em Três Rios-RJ onde é coordenador de esportes da prefeitura local e técnico de futebol do Três Rios FC, que disputa a terceira divisão do Campeonato Carioca.

Zé Roberto, que era o pulmão de Gérson no Fluminense (ele corria pra que Gérson ficasse parado no meio do campo, em 1974), já publicou dois livros: "Futebol, a dor de uma paixão", pela editora Guanabara, e "A beira de um gramado de nervos", pela editora Editar.

Ele jogou na ponta-esquerda do Fluminense, de 1971 a 1976, no Flamengo, em 1976 e 1977, no Santa Cruz FC, em 1977 e 1978, no Itabuna FC, em 1979, Marília FC, em 1980, no Americano FC, em 1981/82/83, no Goytacás de Campos-RJ, em 1984, e no Bonsucesso, em 1985.

Zé Roberto foi campeão sub-20 em Cannes, pela Seleção Brasileira, em 1971, ao lado de Abel Braga, Marco Aurélio Moreira, Nilson Dias, Jorginho Carvoeiro, Ângelo, Eneas, Rubens Galaxie, Nielsen e de Marinho, aquele ponta-direita maravilhoso do Galo e do Bangu.
 

ABAIXO, TEXTO ENVIADO POR ZÉ ROBERTO PADILHA EM 30 DE AGOSTO DE 2018

A Troca
Texto: Zé Roberto Padilha.

Sempre que tem um Fla-Flu acordo com a sensação de que um dia não fui jogador de futebol. Fui mercadoria. Não com o preço fixado, embalado para presente e exposto nas prateleiras, mas como objeto de troca entre dois dos clubes mais importantes do futebol brasileiro. Em uma conversa entre seus dois presidentes, Hélio Maurício e Francisco Horta, em dezembro de 1975, ambos esqueceram, no afã de promover o próximo estadual, que a moeda já havia substituído o escambo. E que a escravidão tinha sido abolida. E propuseram, no Ceasa que se tornara suas salas de reuniões, uma troca: “Tu me dá o Doval e leva o Zé Roberto!”. Gostaram tanto que acabaram fazendo um pacote: “Então leva também o meu goleiro, Renato, que eu fico o seu mais novo, Roberto!”. E para fechar o carrinho, “Que tal Rodrigues Neto pelo Toninho Baiano?

Estava em Iguabinha, região dos lagos, curtindo a melhor fase vivida na carreira. Como ponta esquerda tricolor, tinha sido titular na Taça Guanabara e recuperado a posição na reta final do campeonato brasileiro disputando a posição com Mário Sérgio Pontes de Paiva, que nos engrandecia profissionalmente e valorizava o currículo. Há pouco havia disputado, com Lula do Internacional, Joãozinho, do Cruzeiro, e Ziza, do Guarani, a cobiçada bola de prata de melhor ponta esquerda do brasileirão. E acabara de ler nas bancas que Osvaldo Brandão, em entrevista ao Jornal dos Sports, incluía meu nome na lista dos pré convocados para a seleção brasileira.

Mas quando abro na praia o Jornal do Brasil estavam estampadas as trocas sem consultar a gente. E me senti o pior dos homens por mesmo ter nascido detentor de todos os meus direitos, de liberdade e expressão, não me deram a oportunidade de escolher o meu destino. Afinal, foram oito anos de Laranjeiras, dos infantis aos profissionais, três Taças Guanabara conquistadas, dois títulos estaduais e o orgulho de ter transformado a bandeira que levava para as arquibancadas na camisas que entrava em campo. Calçar as chuteiras para torcer e jogar por sua paixão não tem preço. Aliás, tinha. E até hoje, quarenta e um anos depois, não sei quanto foi.

No primeiro FlaxFlu do troca-troca, (17/5/76, público de 155.116 mil pagantes, com renda de CR$ 4.073,586,00 e arbitragem de José Roberto Wright, Walquir Pimentel e Carlos Costa) deu no que deu: a mercadoria se perdeu. Não havia dormido, passara tantos filmes na minha cabeça às vésperas de sair da utopia de defender uma paixão para iniciar, de fato, minha profissão, que quando o time entrou em campo fui saudar a torcida errada. Tantos anos virando a direita das tribunas segui a tradição, e Zico, Junior, Tadeu, Rondinelli e Cantarele foram para a esquerda saudar a massa rubro-negra.

A vaia comeu, me atiraram copos de água, e enquanto retornava do vexame procurando meus companheiros, ainda ouvi os comentários de Iata Anderson e Mário Jorge Guimarães: “Você não tinha nada que ir lá provocar os tricolores!” Pouco adiantava responder que o subconsciente foi quem conduzira meu corpo para lá, talvez para abraçar aquela torcida e agradecer a formação, o carinho e a paciência que sempre tiveram por mim. E pedir desculpas pela primeira vez na vida jogar contra eles.

Neste instante me acertaram um saco de pó de arroz e despertei de vez para a realidade. Era jogador profissional de futebol, e do Flamengo, e passei a ter muito orgulho disto. Mas se como mercadoria errara a prateleira, teria que jogar muito para convencer o dono da Gávea, ou da Sendas, que aquele produto, de rótulo novo, não perdera a essência do seu conteúdo.

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