Então você tem que, no mínimo, respeitar a história de Roberto Alfredo Perfumo com a camisa do Cruzeiro!
Pense, por exemplo, se hoje o Cruzeiro contratasse o espanhol Sérgio Ramos, o Busquets ou o alemão Hummels.
Viagem? Delírio?
Pois em 1971 a raposa Felício Brandi, nosso então presidente, foi ao Racing Club da Argentina e nos trouxe de lá, aos 29 anos e no auge da forma física e técnica, o zagueirão Perfumo.
O `Marechal´ fazia parte então da seleção argentina e da seleção mundial da Fifa, e ostentava em seu currículo um título mundial de clubes pela equipe alvi-celeste de Alvellaneda.
De baixa estatura para a zaga (1,80 m), Perfumo compensava com um senso imenso de cobertura, um tempo muito rápido de bote nas roubadas de bola e de recuperação na zaga, aliados a muita raça e um temperamento forte, típico dos argentinos.
Perfumo chegou ao Cruzeiro para ser líder de uma nova equipe em formação, co-capitaneando junto a Raul, Piazza, Dirceu e Zé Carlos os jovens recém-chegados da estirpe de Palhinha, Eduardo, Roberto Batata e Joãozinho.
O novo time deu muita liga e Perfumo foi campeão mineiro em 1972, 73 e 74.
Disputou mais de 100 jogos com a camisa celeste (138, sendo bem preciso) e até hoje é o estrangeiro com mais partidas disputadas pelo Maior de Minas.
Há um fato curioso que quase abreviou a vitoriosa passagem do Marechal pelo Cruzeiro.
Um ano após sua chegada a BH, a sua bela esposa Mabel dizia-se incomodada com a pacata cidade. Belo Horizonte à época portava em torno de 1,5 milhões de habitantes e era um local muito sossegado, diferente da agitada metrópole que era Buenos Aires à época, com 10 milhões de moradores.
Havia outro complicador: o apartamento alugado pelo Cruzeiro para eles (havia ainda o filho Gustavo) ficava bem no centro da cidade, e o barulho dos carros incomodava o dia-a-dia da família.
Pois eis que após uma vitória contra o América, Perfumo chegou em casa e encontrou Mabel de malas prontas para a Argentina. Dela, do filho e do marido!
Por amor à família, Perfumo então decidiu largar o Cruzeiro e voltar pra casa.
Não tinha sequer outro clube como opção.
Era simplesmente voltar para depois decidir o futuro. E assim foi feito.
Acontece que o Cruzeiro tinha uma diretoria perspicaz e o então diretor de futebol e futuro presidente, Carmine Furletti, rumou à Argentina no meio da semana e entre explicações e pormenores, convenceu à família a voltar para BH.
Afinal, na metade da temporada (era mês de Julho), Perfumo realmente iria ficar parado até o próximo ano e durante esse tempo trabalharia como comentarista de TV. E era consenso de que esse hiato poderia inclusive acarretar na precoce aposentadoria do craque.
Para felicidade dele e nossa, Perfumo voltou e ganhou tudo o que ganhou.
Mudou-se de apartamento, deram-se o prazo devido à adaptação e o resto é a história que todos conhecem.
Já se encaminhando para a aposentadoria, entre as temporadas de 74 e 75, Perfumo recebeu uma oferta para voltar par Buenos Aires e jogar seus três últimos anos como profissional pelo River Plate, formando com Fillol e Passarela uma das melhores linhas defensivas de todos os tempos.
Lá ele também foi (e ainda é) idolatrado, mas quis o destino que sua história se cruzasse com a do Cruzeiro na final da Libertadores de 1976.
Perfumo jogou os dois primeiros jogos da final, mas suspenso não participou da batalha em terras chilenas que nos deu a primeira Libertadores.
O Marechal se aposentou pelo River em 1977, depois foi treinador de algum sucesso por times como o Racing Club e o Olimpia, do Paraguai.

Aqui e mais recentemente foi venerado por alguns de nossos craques contemporâneos, como Montillo e Sorín.
Junto a Juampi, inclusive, Perfumo foi homenageado por Cruzeiro e River Plate momentos antes do primeiro jogo entre as duas equipes no Monumental de Nuñez no ano passado, pelas quartas-de-final da Libertadores.

Atualmente trabalhava como colunista e comentarista de futebol em Buenos Aires.
Numa dessas, em resposta bem peculiar ao seu temperamento, Perfumo provocou a revolta de alguns torcedores do Cruzeiro às vésperas do já citado mata-mata contra o River.
Ele escreveu ao Olé que “…como todas as equipes do Brasil, o Cruzeiro tem registrado um desempenho lamentável. Sabemos que o futebol de nossos vizinhos é, atualmente, um dos piores do mundo. Com um desempenho muito pobre, o Cruzeiro perdeu para o Huracán. Acredito que o River é favorito”.
Não era, porém, mentira.
Duas semanas e uma acachapante derrota por 3 a 0 depois nos mostraram isso.
Como tento andar entre a linha fina que separam razão e emoção no mundo de um torcedor, não vou deixar que essa declaração me faça deixar de o homenagear.
Perfumo morreu ontem aos 73 anos após cair da escada num restaurante e sofrer um forte trauma craniano.
A notícia da morte acidental traz surpresa e consternação aos mais saudosistas, como eu.
Li lamentos de ex-companheiros tão entristecidos quanto eu.
Dirceu Lopes e Procópio, por exemplo, fizeram questão de enaltecer seu futebol vigoroso, sua honra à camisa azul e a lealdade enquanto parceiro de equipe e amigo.
O Marechal vai se juntar a outros tantos que daqui partiram a nos deixar saudades.
Como o seu consorte e há pouco por mim lembrado, Roberto Batata.
Juntos, devem estar contando casos no céu sobre o Cruzeiro, sobre o River, sobre os acidentes que lhes fintaram com a rapidez de um drible de Batata.
Que lhes roubaram o vicejar com a esperteza de um bote de Perfumo.
Entonces, hasta luego el Mariscal.
Muchas gracias por todo.
Y excusa la cegueira de muchos.
Dá-lhe Cruzeiro!
Abraços a todos, saudações celestes, fiquem com Deus!
Até a próxima!
por Rogério Lúcio
Twitter: @rogeriolucio77
(Fotos: Espn – Fórum Uol Esportes – Goal.com)
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