Menos de um mês depois de cobrir o Terremoto do Haiti, Chico Santo teve que fazer as malas novamente. O sismo de 27 de fevereiro de 2010 deixou, pelo menos, 525 mortos e outros 25 desaparecidos. "Eu estava na Universidade São Paulo quando soube do tremor e do alerta de tsunami enviado pelas autoridades japonesas A bem da verdade, estava acostumado a cobrir tragédias. Tinha feito as enchentes de Santa Catarina e Angra dos Reis, além dos terremotos de L?aquila (Itália) e Porto Príncipe (Haiti). Faltava um Tsunami para o meu currículo. Com o terremoto do Chile preenchi esse vazio?, brinca o jornalista acostumado com altas vibrações. Em São Paulo, mesmo com o cancelamento de vôos para Santiago do Chile, o repórter sabia exatamente como fazer para chegar ao epicentro. "Diferentemente do que aconteceu no Haiti, um mês antes, no terremoto do Chile eu tinha totalmente a situação sob controle. Até porque conheço bem cada quilômetro de estrada da América do Sul. Então, quando a edição me perguntou se havia algum plano para desembarcar em Concepción, a resposta já estava pronta na minha mente, com o mapa sul-americano traçado em outras experiências que tive pelo continente. Basta dizer que rodei toda a América do Sul, de ponta a ponta, de ônibus. Em situações como essas, esse tipo de conhecimento vale muito mais do que uma passagem de primeira classe.? No mesmo dia, o enviado especial do Terra embarcou no primeiro voo para Buenos Aires. De lá, repetindo o trajeto que mais gosta em todo o planeta, principalmente pelo sentimento de amor que lhe desperta o comenos, cruzou por terra a neve da Cordilheira dos Andes, deixando para trás o Aconcagua, antes de desembarcar em Santiago. "Exceção feita a Paris, dentro deste contexto, nenhum outro lugar no mundo me chama tanta atenção, sobretudo em estado de paz de espírito, do que aquele canto especial da Terra. Em momentos de folga, costumo viajar a Mendoza apenas para sentir a energia dos Andes. Há algo especial que me atrai para lá. Uma vez, voltando da cobertura de um jogo da Seleção Brasileira, perdi uma passagem de primeira classe com bancos em 180 graus depois de beber algumas garrafas de vinho no piano. Talvez tenha sido a tarde mais feliz da minha vida ou, pela energia envolvente, uma delas?, relembra. Pela rota Buenos Aires-Santiago, Chico Santo fechou a primeira matéria da cobertura. Encontrei alguns chilenos que moravam na Argentina e queriam retornar ao Chile para rever a família. Além da falta de água potável e o racionamento de energia e alimentos, o país sofria com a queda de pontes e o congestionamento formado nas carreteiras. Sem falar nas informações contraditórias que corriam tanto na Argentina quanto no Chile. Drama que o chileno Nelson Aguill viveu de perto. "Tenho de ir a Concepción. Minha mãe e meus sobrinhos estão lá. Não tenho notícias deles. Tudo que sei vem da imprensa. Soube que estão saqueando todos os supermercados lá. Não estão roubando apenas comida. Aparelhos televisores e máquinas de lavar também estão sendo carregados. Isso é um absurdo porque até entendo as pessoas com fome pegarem comida. Mas não podem se aproveitar de um momento como esse para roubar objetos como eletrodomésticos?. Cena, esta, conhecida de perto, por Chico Santo. "Mudam os países, mas o contexto é sempre o mesmo. Em Santa Catarina, em 2008, o educado povo catarinense chegou a saquear latas de cervejas do supermercado. No Rio de Janeiro, os moradores do Morro da Carioca conviveram com os roubos de residências interditadas pela Defesa Civil. Na Itália, a prefeitura de L?Aquila teve que instalar o toque de recolher para evitar as perdas materiais. Do mesmo jeito que aconteceu no Chile. Para ser sincero, de todos, o único que não passou por isso foi o Haiti, tamanha a devastação do terremoto?, opina o jornalista.

Na rodoviária de Santiago, o que se observava eram plataformas lotadas e falta de ônibus. "Estou esperando há mais de 30 horas?, disse a passageira Elizabeth Mellado, encostada em um pilar com as malas aos pés e a expectativa de que o embarque fosse permitido. "A informação é que os ônibus não estão saindo por causa do tsunami. Algumas pessoas tentam fazer rotas alternativas e vão descendo. Não me agrada a idéia. Prefiro esperar um pouco mais e ir segura?. Exatamente, o que não fez Chico Santo. Para chegar ao epicentro, o repórter partiu por um caminho desaconselhado pelas autoridades e desembarcou em Curico, uma das áreas afetadas pelo tremor, ao sul do país. "Nessas horas não dá para você ficar parado esperando o Sol nascer. Tem que ir a luta, se arriscar. Quem tem medo da morte não pode cobrir terremoto. Curico, como em outras cidades, estava em estado de caos. Evidentemente, não havia internet, a maior barreira de qualquer jornalista. Só na prefeitura. Os moradores se revezavam em pontos instalados para recarregar os celulares. Registrei o problema da população e depois entrei no Gabinete do Prefeito Hugo Rey. Fiz uma entrevista com ele. Na sequencia, com a maior cara de pau do mundo, disse: Sr. Prefeito, me perdoe a intromissão, mas será que posso sentar aí no seu computador para enviar o material ao Brasil? Ele sorriu e trocamos de lugar?.
Em Chillan, outro município afetado pelo terremoto, a situação era parecida. Lá o repórter encontrou a multinacional brasileira Kepler Weber, com cerca de 80% de sua estrutura física abalada. O que sobrou foi roubado. "Desde o terremoto, sofremos com os saques. O maior tumulto aconteceu dois dias atrás, quando fui ameaçado de morte. Os saqueadores vieram em grande número. Eram de 500 a 600 pessoas. Estacionaram suas caminhonetes e disseram que se dificultássemos a ação seríamos mortos?, contou o gerente Rodrigo Carrasco. Na cidade localizada há 600 km de Santiago do Chile, o terremoto destruiu centenas de casas. "Esta aqui é a nossa casa. As paredes estão todas rachadas. Está tudo caindo. Veja só, como tudo isso é triste?, disse Nona Leopin Brevis. A comerciante vivia o pesadelo de quem perdeu o lar e o ganha pão. "Trabalhei aqui durante 30 anos. Nasci nessa casa, construí meu bar bem aqui. Agora, tudo vai ter que ser demolido.? Durante o terremoto, a gestante Scandra Figueroa por pouco não perdeu o bebê que estava em seu útero. "Estava no segundo andar quando os muros começaram a cair. As pessoas estavam gritando e as paredes começaram a rachar. O desespero foi grande. Tive medo de perder meu bebê. É horrível você ter que sair da sua casa em plena gravidez. Tinha planejado ter o meu filho aqui e agora não sei para onde vamos?.

Assim como já havia acontecido antes, nos trabalhos da Itália e Haiti, Chico Santo sentiu a terra sacudir enquanto cobria a tragédia no Chile. "Pelo menos dois novos terremotos, com magnitudes entre 6,3 e 6,6 graus na Escala Richter, foram registrados pelo serviço de pesquisas geológicas dos EUA (USGS). O primeiro deles aconteceu às 6h19 de 05 de março. O segundo, mais forte, foi sentido por volta das às 8h45. Os novos tremores aconteceram a cerca de 40 km de Concepción, na região de Bio Bio. O Centro de Alertas de Tsunami do Pacífico, também administrado pelos EUA, entretanto não emitiu o alerta de um novo tsunami?, conta. Os tremores foram sentidos em Chillán, que fica a mais de 100 km de Concepción e, evidentemente, deixaram os chilenos ainda mais preocupados. "Foi um terremoto muito forte. A gente percebe quando o terremoto é forte pela intensidade e duração. Esse foi bem intenso. Tenho medo que tenhamos outros terremotos como o de sábado passado?, temeu a gerente hoteleira Marta Patricia, 47 anos.
No presídio da cidade, o tumulto tomou conta do lado de fora da cadeia. "Não sabemos o que está acontecendo. Não sabemos se estão vivos ou mortos. Ninguém nos falou nada. Não foi emitida sequer uma lista com as informações necessárias. Precisamos saber aonde estão os nossos familiares?, protestou a vendedora Marcia Brianez. Do lado de dentro, o clima de terror se espalhou entre os detentos que, para facilitar a fuga, atearam fogo nas próprias celas. "Quando o terremoto atingiu a cidade, os presos entraram em pânico. Uma rebelião foi formada e começaram a queimar os colchões. As celas foram golpeadas. Como os muros estavam fracos, com o impacto do terremoto, eles conseguiram escapar. Um preso morreu com o monóxido de carbono emitido. Outros três foram mortos durante o resgate. Não sei o motivo. Dos 800 presos que estavam aqui, 269 fugiram. Alguns já foram capturados, mas ainda há 180 foragidos?, disse o chefe interino Luis Núnez.

O cheiro de destruição ainda permanecia no ar. Maçanetas quebradas, televisores reduzidos a pó e trapos de roupas espalhados por todos os lados eram indícios do que havia acontecido durante o terremoto. "A cadeia foi destruída. Estamos fazendo um levantamento para ver se vale à pena reparar o presídio ou se daremos como perda total. Isso tudo vai ser levantado pelas autoridades de Santiago?, acrescentou. Dados oficiais apontavam que cerca de trezentos presos haviam fugidos durante o terremoto. Três deles foram baleados e morreram enquanto eram capturados. Uma outra vitima foi encontrada sem vida dentro da cela. O diretor de polícia contou detalhes sobre o momento da fuga e disse que menos de um terço dos funcionários da cadeia trabalhavam durante a rebelião. "Temos ao todo 140 funcionários. No momento do terremoto, por volta das 3 horas da madrugada, havia 30. Quando saíram, por maldade, invadiram as casas que estavam ao redor do presídio e jogaram fogo com as famílias dentro. Ninguém morreu, mas as residências foram todas perdidas?. Questionado sobre a presença dos familiares em frente ao presídio, Luis Núnez foi claro: "Querem saber informações sobre a família, mas não podemos dar. Eles precisam procurar o presídio de Concepción para que possam tirar suas dúvidas. Aqui não há nenhum preso, além dos que tem liberdade condicionada?. Situação que obrigou o toque de recolher na cidade. "Com a fuga dos presidiários, os moradores de Chillan passaram a viver com ainda mais medo. Supermercados, lojas de conveniência e eletrodomésticos foram roubados. Durante à noite, era comum ouvir o barulho de troca de tiros?, relembra Chico.
A capital dos terremotosDe Chillán, Chico Santo assinou o especial Capital dos Terremotos. "Foi apenas mais um terremoto. Um tremor de grandes proporções, mas que em Chillán, na província chilena de Ñuble, está longe de ser a pior das catástrofes. Localizada ente os vulcões de Bío Bío, a cerca de 500 km de Santiago, a pequena cidade de pouco mais de 150 mil habitantes é considerada a "capital dos terremotos" do Chile. O título é resultado de séculos vivendo as consequências da movimentação das placas tectônicas?, escreveu. "A cada 100 anos, mais ou menos, um grande tremor acontece por aqui. Foi assim em 1718, 1835, 1939 e agora em 2010", afirmou o restaurador Antonio Solis, 47 anos.? Acostumado a reconstruir, o morador de Chillán era um dos muitos especialistas em terremotos da cidade. "Nenhum outro lugar no Chile treme mais do que aqui", disse. Encostado junto aos escombros de um bar, o restaurador se mostrava tranquilo diante da força da natureza e encarava como algo normal a tragédia de 2010. "Esta é uma cidade acostumada com terremotos. Estamos habituados a isso. Cada um de nós já viveu um terremoto antes. Os mais jovens, que até então haviam crescido com as histórias dos pais, agora já sabem bem o que é isso. Não há em Chillán ninguém que não tenha vivido um terremoto." Era o caso da estudante de gastronomia Yesenia Pino. Aos 20 anos ela acabava de ter a primeira experiência em terremotos. "É o primeiro da minha vida, mas minha mãe já presenciou outros. Nunca tinha passado por isso. Agora, penso o tempo todo no que está acontecendo. Dá muito medo quando a terra volta a tremer".

O maior tremor da história de Chillán foi registrado muito antes de Yesenia nascer. Em 24 de janeiro de 1939, cerca de 30 mil pessoas morreram em um abalo de 8,3 graus da escala Richter. "Foi, sem dúvida, a pior experiência que já passamos. As casas eram de barro e por isso tantas pessoas morreram. Nossas construções evoluíram muito?, acrescentou Antonio Solis. Segundo ele, a cidade não conta com técnicas de projetos anti-sísmicos, mas diz que a engenharia local está bem evoluída. "Prova disso é que praticamente todas as casas que resistiram ao terremoto de 1939 caíram agora, enquanto as construções mais novas permaneceram de pé", explicou Solis. Aos 77 anos, Bernardo Jorge Gonzalez, ainda se lembrava do maior terremoto da história de Chillán. Em 1939, o aposentado tinha apenas 6 anos quando viu tudo cair. O trauma de criança se repetia. "Todos estamos acostumados a perder parentes e amigos. Faz parte da nossa realidade. Não sei dizer ao certo quantas pessoas da minha família morreram porque em 1939 tudo virou pó. Não sobrou nada. Por isso se pode dizer que aquele foi um terremoto de muitos estragos para a nossa comunidade." Experiente, Jorge Gonzalez resumia a região com uma frase que poderia assustar quem ainda não havia vivido uma situação parecida. "Acima de tudo, sabemos que esta é uma cidade de terremotos."
Passado o susto, aos poucos, Chillán retomava a vida normal. Mas enquanto muitos aproveitam as tardes de verão para passear pelas praças da cidade, os trabalhos de remoção dos destroços e de avaliação de edificações abaladas continuavam. Algumas, em verdade, tiveram de ser colocadas abaixo. Era o caso da igreja Virgem do Carmo, com mais de 100 anos de história. "Provavelmente teremos de derrubar a igreja. Ainda é cedo para falar porque é preciso avaliar a estrutura. Por uma análise superficial, dá para perceber que os pilares de sustentação estão abalados. Acredito, não há a mínima condição de uso", afirmou o engenheiro Alvaro Ulloca. Em Chillán as escolas também foram castigadas. Por medida de segurança, as aulas foram suspensas. Mas para uma população acostumada a recomeçar, a situação estudantil tinha que ser normalizada o quanto antes. "A maior parte das escolas está com suas estruturas abaladas. É perigoso manter os alunos lá. As aulas estão suspensas. Não sabemos até quando, mas acredito que logo serão retomadas porque é preciso continuar o ano letivo, ainda que seja improvisado algum lugar", disse a inspetora de educação Ana Lagos.
Para os mais jovens, que até então, jamais haviam presenciado uma situação como esta, ainda iria levar algum tempo para superar o trauma. "Eu estava dormindo no segundo andar quando tudo começou a tremer. Foi impactante. As paredes tremiam e a casa pulava. Ficamos 3 noites dormindo na sala com medo", contou Maribel Torres, 18 anos. A estudante ainda enfrentava dificuldades para retomar a vida. Apesar disso, uma coisa estava claro. Com o passar dos anos iria se habituar com a rotina de uma cidade onde pessoas e terremotos convivem há séculos. "Todo mundo se acostuma. Pode demorar um pouco. Não importa, todo mundo se acostuma", finalizou o recepcionista Domingos Valgts, 56 anos.
ConcepciónEm Concepción, no coração do terremoto, a devastação se assemelhava a uma cidade bombardeada pela guerra. "Não tenho o que fazer aqui. Vou embora. Estou cansada de tanto ter medo. Não dá para viver em paz com tudo isso que está acontecendo. Não vale à pena arriscar a vida", afirmou a moradora Patricia Bovet. A dona de casa de 58 anos era um dos muitos exemplos de quem passou a vida inteira em Concepción e de forma tão repentina se viu obrigada a mudar de cidade. "Conheço tudo aqui. Vi a cidade crescer ao longo dos anos. Minha família é daqui. Dói muito ter que ir embora assim. Se um dia as coisas se acalmarem, talvez, eu volte. Mas mesmo assim, jamais me esquecerei de tudo o que passamos aqui", disse. No terminal rodoviário do município, uma grande multidão aguardava pelo momento do embarque. Diante do comprometimento das estruturas e do risco de queda do complexo, os passageiros não eram autorizados a utilizar as dependências internas do prédio. Misturavam-se, junto com os vendedores ambulantes, entre as plataformas como se estivessem em um mercado público. A aglomeração era intensa. Muita gente dormia pelos gramados de acesso ao estacionamento. A bagunça tomou conta do local e em meio a tudo isso as transportadoras faturavam com o desespero.
"Quem quer ir embora tem que comprar com antecedência. Apesar de termos muitos ônibus disponíveis, a procura é grande. Com o toque de recolher, estamos trabalhando apenas das 12h às 17h. Então os horários são bem apertados", contou o vendedor Ruy Salles. O medo de que algo ruim ainda pudesse acontecer fez com que até quem teria muito trabalho pela frente evacuasse a área. Aos 34 anos, o pedreiro Ilan Sanches trocou o que poderia ser considerado uma mina de ouro por uma vida aparentemente mais segura. "Aqui vai ter muito serviço, mas não tem segurança. Não adianta pensar em dinheiro e esquecer da vida. Nada vale tanto como a sensação de se sentir tranquilo e poder viver em paz?. Assim como Sanches, outras pessoas deixavam a cidade. Uma atitude influenciada pelo desespero que aumentava a cada novo tremor, diante das chamadas réplicas. Não por acaso, quem andava pelas ruas de Concepción se deparava com um povoado completamente arrasado. Estevam Valdez, 25 anos, foi um dos jovens que decidiu dar um novo rumo em sua vida na luta pela sobrevivência. O estudante se preparava para cruzar a costa chilena e se estabelecer ao norte de Santiago. Uma mudança radical. "Eu não sei o que vai ser daqui para frente. Está tudo indefinido. Estou indo para Viña del Mar começar tudo de novo. Todos os meus amigos foram embora. Ninguém vai ficar. Estamos com muito medo", afirmou.
Se não bastasse tudo isso, a cidade de Concepción sofria diariamente com o vandalismo, violência e saques. O terror chamava a atenção do governo. Quase 40 anos após o golpe de Augusto Pinochet em Salvador Allende, a própria presidência da república se viu obrigada a solicitar às forças armadas uma intervenção militar. "Demorou demais para isso acontecer. Estava sem segurança e precisávamos agir. Tivemos que esperar a autorização do governo e isso contribuiu para que a violência aumentasse. O poder executivo foi quem deu a ordem para que pudéssemos sair às ruas e garantir o controle da situação. Sem essa ação, creio que tudo estaria pior", afirmou o militar das forças armadas chilenas, Luis Aguillar, 38 anos. O soldado garantiu, no entanto, que o comando da nação estava nas mãos da presidenta Michelle Bachelet. "Não há nenhum tipo de golpe. Isso é coisa do passado. Tão logo seja dada a ordem para que deixemos o local, sairemos sem nenhum problema. O Chile, hoje, é um país democrático. O povo é quem escolhe seus líderes", concluiu.
O Trapezista brasileiroO clima de destruição prevalecia em cada uma das esquinas. Soldados armados, bombeiros trabalhando, muros quebrados e muita gente correndo. Cada um com a sua mala. Menos a família do brasileiro, Wesley Souza Oliveira, que não tinha planos de deixar o local. "Vamos ficar por aqui. Ainda não é a hora de voltar ao Brasil?, afirmou o rondoniano. Corajoso, o trapezista de 36 anos estava acostumado a lidar com o perigo. Quando não atuava nas cordas, pilotava a Moto da Morte em suas apresentações. Uma motocicleta que girava de ponta cabeça a uma velocidade de mais de 80 km/h dentro de uma esfera fechada. "Gosto da adrenalina. Não sei o que seria viver sem emoção. Talvez porque eu tenha crescido no circo, tudo isso seja normal para mim. Realmente, não sei o que é levar uma vida sossegada. Não tem graça", contou. Uma semana após o primeiro tremor, o brasileiro levava o que considerava uma vida normal. "Estamos sempre na estrada, por isso, é como se estivéssemos em uma cidade comum. Trouxemos nossa comida e estamos preparados para ficar aqui o tempo que for". Enquanto do lado de fora da área restrita aos funcionários do circo faltava comida e água, dentro da tenda o que se via era exatamente o oposto. "Graças a Deus não estamos passando nenhum tipo de necessidade. Até fazemos churrasco", disse. Durante os momentos de folga, o trapezista costumava brincar com os filhos com talento nos pés. "Já falei para eles que todo o brasileiro tem que saber jogar bem futebol. Não importa o placar. Tem que dar show". Sem nenhum tipo de conforto, a família de Wesley habitava uma pequena tenda de menos de 10 m². Silvia Renata, 26 anos, é quem cuidava da casa e dos filhos: "Wendy, Willy, Weslei e Weylon. O Weylon é o único que não é brasileiro. Nasceu no Paraguai."
Há dez anos, exatamente em uma aventura como esta, os dois haviam se conhecido e juntos viviam um romance de amor e terremotos. "Foi em Rondônia, por acaso. Estávamos lá e quando vimos já estávamos juntos. Isso faz oito anos. A primeira vez que viajamos sem rumo foi para Manaus. Nunca mais paramos", afirma Silvia. Ela diz sentir saudades do Brasil. Mas ao lado do marido, é na estrada que cria os filhos. "Quero voltar um dia ao Brasil. Não sabemos quando. Ainda não paramos para pensar sobre isso. Quando tiver que ser, será. Penso que quando a gente planeja muito uma coisa ela não acontece". Apesar do aparente clima de tranquilidade que o casal transmitia com uma combinação de simplicidade e alegria, havia também o receio de que alguma coisa ocorresse com os filhos. "Não vou mentir. Esses últimos dias não foram fáceis. Não temo por mim, mas, sim, pelos meus filhos. Viver em meio ao terremoto foi muito difícil. O mundo parecia que estava acabando. Não sabíamos para onde ir e o que fazer. Ainda bem que não aconteceu nada de mais grave", afirmou Silvia.
O momento de maior dificuldade enfrentado pelo casal em oito anos de estrada ocorreu em 2010. Durante o alerta de tsunami, Wesley e Silvia viveram juntos o que chamam de a situação mais delicada da vida. "Eu estava andando na rua e ouvi dois militares dizendo que haveria um novo tsunami. Na hora fiquei maluco. Tenho quatro filhos. Se vem água não dá para salvar todo mundo. Consigo pegar um, dois, mas e o resto? Como é que um pai vai deixar os outros para trás? Teriam que aprender a nadar. Sei lá", diz Wesley. Sem ter o que fazer, o casal chegou a fazer as malas e planejou o que seria mais uma mudança, trocar o circo pela montanha. "Arrumamos o máximo de comida que tínhamos e deixamos tudo pronto. Se fosse preciso iríamos para o morro", revelou. Não foi preciso. Dias depois a vida voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido. "Queria que o Ronaldinho Gaúcho olhasse essa (jogada). Depois de driblar um elefante, ele dribla qualquer um".