Após demissão do técnico, presidente da CBD foi a Brasília dar satisfações a ministros e chefes militares

Após demissão do técnico, presidente da CBD foi a Brasília dar satisfações a ministros e chefes militares

Fábio Piperno (twitter @piperno)

Na campanha do tri em 1970, um dos temas mais controversos é o de que até que ponto o governo dos militares interferiu em decisões tomadas pela antiga CBD, à época comandada por João Havelange. Há quem enxergasse na decisão de demitir o técnico João Saldanha, ardoroso comunista, digitais em verde-oliva. É certo que a presença no comando da seleção de alguém ligado ao então proscrito PCB realmente incomodava o regime, mas é igualmente verdade que a queda do aguerrido técnico se deu por um conjunto de fatores. E o epílogo do divórcio prenunciado foi a contestada decisão de barrar Pelé do amistoso que iria ocorrer no final de semana ao de cepciona nte jogo-treino contra o Bangu.

Se no Rio de Janeiro o ambiente em que estava imerso a seleção havia entrado em ebulição durante a fritura de Saldanha, em Brasília o governo monitorava tudo, de forma bem atenta. Perto de completar seis anos no poder, o regime liderado pelos generais reforçava a repressão aos grupos da resistência armada. E claramente não interessava aos militares a instalação de outro front de luta, mesmo que fosse no bem menos belicoso campo esportivo. Em ano eleitoral, de votação para deputados e senadores, a ditadura precisava do sucesso da seleção para capitalizar o êxito nas urnas. Com inúmeros militares instalados em postos de comando do esporte, e com presença até m esmo na comissão-técnica nomeada pela CBD, a cobrança pelo êxito da seleção se tornava mais explícita. Assim, não foi surpresa a convocação de João Havelange para que o dirigente fosse a Brasília prestar contas ao ministro da Educação, Jarbas Passarinho, a quem eram subordinados os órgãos de comando do esporte, como o Conselho Nacional de Deportes (CND), por tabela, a CBD. Não por acaso, Havelange foi acompanhado do presidente do CND, general Elói de Menezes, que afirmou que “por ele, Saldanha jamais teria sido técnico da seleção, pois é um temperamental, sem equilíbrio emocional, inadequado a uma posição de chefia”.

No encontro, o ministro exigiu tranquilidade para a seleção “sem tensões permanentes, polêmicas, lutas internas e entredevoramentos”. Cordato, o presidente da CBD prometeu ao ministro informar ao governo de “todos os passos da seleção” e a convocar uma junta médica para refazer os exames médicos de todos os jogadores convocados, o que incluía os cortados Toninho e Scala, e enviar os resultados das avaliações a Passarinho. Após a reunião, o ministro esclareceu que não haveria qualquer intervenção na CBD “pois é melhor não atrapalhar a já difícil preparação da seleção”.

Após a audiência com Passarinho, o périplo de Havelange pelo núcleo duro do governo prosseguiu. As escalas seguintes pelo Palácio do Planalto foram nas poderosas Casas Civil, chefiada por Leitão de Abreu, e Militar. Nesta última, o anfitrião foi o general João Batista Figueiredo, que em 1979 se tornaria o último presidente da república do ciclo militar. Para encerrar, o cartola teve encontro com o chefe do SNI, o temido Serviço Nacional de Informações, general Carlos Alberto Fontoura. Com esse tour pelo poder, o dirigente voltava para casa certo de que a sobrevida no comando do futebol brasileiro estava garantida. Melhor ainda foi ler no dia seguinte entrevista de Jarbas Passarinho, na qual o minist ro afirmava que as denúncias de Saldanha sobre corrupção na CBD seriam analisadas apenas após a Copa do Mundo.

Afável com o regime, a CBD decidiu organizar um jogo-treino no Maracanã programado para o dia 30 de março em comemoração ao dia do golpe militar. Na comunicação oficial, Revolução. Não seria no dia 31 porque naquela data Médici faria pronunciamento pela televisão em rede nacional. Em campo, os titulares enfrentariam os reservas e uma taça seria entregue ao capitão do time vencedor.

A subserviência da CBD aos militares do governo se tornava cada vez mais explícita e incômoda, a ponto do influente e, à época, governista Jornal do Brasil publicar na edição de 21 de março o editorial intitulado “Esporte Político”, no qual manifestava contrariedade com o servilismo da confederação esportiva em relação às autoridades políticas que comandavam o país. “Não há como manter a chama de esperança quando o governo interfere diretamente e de público no trabalho de preparar a seleção”, criticou o jornal.

A inquietação do jornal obviamente fazia sentido. O desfile de patentes se fazia onipresente na seleção. Entre os preparadores físicos estavam os capitães José Bonetti e Kléber Camerino. O preparador de goleiros era o subtenente Raul Carlesso. O capitão Cláudio Coutinho seria promovido a supervisor da seleção. Para chefiar a delegação no México foi escalado o Brigadeiro Jerônimo Bastos. Assim, era bem evidente que ter um comunista como Saldanha para comandar a seleção em campo era um incômodo.

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