Quadrado Mágico

A tentativa de Parreira de resgatar a arte do futebol
Por Chico Santo
A intenção era dar show. O time titular de Carlos Alberto Parreira, com a Seleção Brasileira de 2006, já era conhecido muito antes do desembarque em Weggis, na Suíça, durante o período de preparação para a Copa do Mundo de 2006. Mudanças, a princípio, só ocorreriam em caso de lesões. Não foi o que aconteceu, conforme o tempo mostrou. Mas, se por um lado, contra a França, pelas quartas-de-final do mundial, o Quadrado Mágico estava desfeito, por outro, em 10 de junho de 2006, na estreia contra a Croácia, Dida, Cafu, Lucio, Juan e Roberto Carlos; Emerson, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho Gaúcho; Adriano e Ronaldo entraram para a história como o time montado para dar espetáculo. 
Indiscutivelmente, o objetivo da Seleção Nacional do Brasil, com uma postura composta por dois centroavantes e dois meias altamente ofensivos ? Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo - era um claro sinal de que o time chegaria na Europa com a pretensão de resgatar o futebol arte. Entretanto, a falta de sintonia entre as peças influenciariam diretamente no resultado final da obra. O que se pôde observar através do quadrado formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano, indiscutivelmente, foi o fracasso do esquema, por mais que os jogadores e a comissão-técnica brasileira insistissem, durante a competição, em dizer que a seleção jogava para vencer e não para dar show. Todavia, se o resultado, sem outras ambições, era exclusivamente o que estava em jogo, o técnico Carlos Alberto Parreira se mostrava no mínimo confuso, para não dizer incoerente.
Antes do início da Copa do Mundo, o jornalista Flavio Prado, em seus comentários diários ao Jornal de Esportes da Jovem Pan, deixou claro sua opinião sobre o falso 4-4-2, cuja prática transformou a teoria em 4-2-4: "A chance do Brasil ganhar a Copa com 4 atacantes é remotíssima. É sonho. Se o Brasil quiser vencer terá que adotar uma outra postura tática. Não tenho dúvidas de que com qualquer esquema a Seleção passará da primeira fase. No entanto, à partir das oitavas-de-final, a Copa muda de figura?.
O esquema era contestado por dois motivos em especial: O Brasil ficava exposto aos contra-ataques adversários e sofreria para manter a pose de bola no meio-de-campo, fatores que colocavam em xeque o sucesso brasileiro dentro do mundial. A postura tática do Brasil era o primeiro adversário enfrentado por Ronaldinho Gaúcho, como se pôde compreender, entrelinhas, durante a participação de Carlos Alberto Parreira no Bem Amigos do Sportv: "O Ronaldinho está no mesmo nível de Zidane, Maradona, Zico, Cruyff. No Barcelona, ele tem uma responsabilidade basicamente ofensiva, o que diminui o seu desgaste. Acho que se houver cansaço, ele vai se superar na Copa do Mundo. Ele terá que voltar pelo menos até o meio-de-campo. Não dá para, em uma Copa do Mundo, termos quatro jogadores na frente que não ajudam na marcação?, afirmou o técnico brasileiro.
Dizer que Ronaldinho Gaúcho e Kaká atuavam na mesma função desempenhada em seus clubes era uma grande besteira. No Milan, Kaká não tinha a responsabilidade de marcação. Cabia ao meio-campista única e exclusivamente a tarefa de construção de jogadas, cujo talento tornava-se o opulento do clube milanês. Da mesma forma, na Cataluña, Ronaldinho Gaúcho não se preocupava com o sistema defensivo. No Barcelona, o jogador, como ressaltara Parreira, ganhara seus títulos e chegara a ser considerado o melhor atleta do mundo pela FIFA com apenas um homem a sua frente, o atacante Eto?o. Na Seleção Brasileira, além de ajudar aos companheiros Emerson e Zé Roberto, ainda teria que driblar Adriano e Ronaldo para chegar na cara do gol. Tanto Ronaldinho Gaúcho quanto Kaká estavam mal posicionados dentro de campo.
Em entrevista concedida à Rádio Jovem Pan, Edmilson, companheiro de Ronaldinho Gaúcho no Barcelona, se mostrou contra a construção do Quadrado: "Com o Adriano e o Ronaldo na frente, o espaço do Ronaldinho acaba ficando muito reduzido. E ele sabe que, se ocupar o espaço que ocupa no Barcelona, vai acabar prejudicando o esquema?, contou o volante, enquanto se recuperava da lesão que o tirou da Copa do Mundo da Alemanha.
Doze anos antes, durante a campanha do tetracampeonato de 1994, com uma equipe de poucos suspiros, Carlos Alberto Parreira montou um time que jogava em função de Romário, repleto de regalias, entre as quais se destacavam as seções de namoro, conforme declarações do próprio atacante. Na Alemanha, entretanto, o treinador abdicou-se de estruturar um time com Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Um luxo que outros técnicos não cometeram, como ocorreu no caso da Alemanha de Ballack, Inglaterra de Beckham, Portugal de Deco, Argentina de Sorin e França de Zinedine Zidane. O Brasil tinha Ronaldinho Gaúcho e Kaká em excelente fase. Contudo, foram utilizados de forma errada.
Uma única mudança modificaria tudo. Para os acéticos, o técnico Carlos Alberto Parreira deveria sacar um de seus atacantes, Ronaldo, fora do peso, ou Adriano, em má fase, e colocar no time o meia Juninho Pernambucano, considerado o mais titular entre os reservas. Se isso ocorresse, como de fato aconteceu contra a França, a Seleção Brasileira ganharia a proteção necessária a frente de sua zaga e passaria a ter um homem a mais no meio de campo, o que proporcionaria um maior grau de liberdade a Kaká e Ronaldinho Gaúcho, fazendo com que os dois jogadores atuassem na mesma posição em que estavam acostumados a jogar em seus respectivos clubes.
O Quadrado Mágico, com Ronaldinho Gaúcho e Kaká, "improvisados? no meio campo, e com Ronaldo e Adriano no ataque, nitidamente abaixo de suas condições técnicas, prejudicava tanto o sistema ofensivo quanto o setor defensivo da equipe. O esquema deu sinais de que não funcionaria antes mesmo do início do mundial, sustentando posteriormente a tese de que o Quadrado Imperfeito de Parreira era muito mais Trágico do que propriamente Mágico. Infelizmente, para o futebol brasileiro, demorou a ser desfeito. Contra a França, nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006, a falta de entrosamento não ajudou em nada a escalação de Juninho Pernambucano. De qualquer forma, não deixou de ser uma tentativa de Carlos Alberto Parreira de resgatar a arte do futebol brasileiro.
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