Velloso hoje é comentarista do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Foto: Endy Fugihara/Baita Amigos/Via UOL

Velloso hoje é comentarista do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Foto: Endy Fugihara/Baita Amigos/Via UOL

Wagner Velloso é um sujeito cordial, de sorriso fácil, sempre pronto para um bom papo. Aos 50 anos, o ex-goleiro de Palmeiras, Santos e Atlético-MG é hoje um dos colegas de estúdio de Neto no "Donos da Bola", na Bandeirantes. Hoje sem as luvas, também participa do "Baita Amigos", com o mesmo apresentador que foi colega de gramados, de segunda e sexta, no BandSports.

Nas duas atrações, o campeão brasileiro de 1994 pelo Palmeiras comenta futebol sem a amarra de outros ex-jogadores. "Não faço questão de agradar", disse, em entrevista ao UOL antes da gravação do "Baita Amigos".

Velloso vê que os atletas de hoje estão blindados em excesso do contato com a imprensa. Comentarista por acaso, o ex-jogador tentou ser técnico e aceitou a TV como maneira de ficar ligado à paixão pelo futebol, emprego que lhe garantiu economicamente, mas custou o convívio com os filhos do primeiro casamento. Em pouco menos de uma hora de conversa, o ex-goleiro fez uma ponte sobre jogadores e imprensa, pedras e vidraças – e lembrou os tempos de Verdão e Galo, com carinho.

"Quando eu jogava, eu cansei de dar explicação, satisfação (…) hoje tem a saída por trás, o jogador vai embora, ninguém vê, ninguém sabe, aí no outro dia tem outro fato e muda o foco. Tá muito mais difícil do lado de cá (imprensa) e muito mais fácil do lado de lá."

Confira a entrevista abaixo:

Como você foi parar na TV? Era uma ideia dos tempos de jogador?
Quando eu parei, eu tinha uma ideia de continuar no meio. A ideia principal era me tornar treinador, começou a amadurecer depois dos 30 (parou aos 36 anos). Eu fiz até o segundo grau apenas. Tinha até a possibilidade de fazer um curso superior. Depois dos 30 eu comecei a conversar com os treinadores, sempre fui muito observador. A própria posição exige que eu tenha um conhecimento tático. Comecei a prestar mais atenção ainda nas orientações do treinador. Aí eu tive um problema no ombro, outro, e outro… e tive que parar. Aí fiz estágio com o Pintado, virei auxiliar do próprio Pintado. A gente tem uma visão muito errada da profissão de treinador enquanto atleta. A gente imagina que é muito mais fácil do que parece. A gente descobre quando passa para o outro lado: tudo o que o treinador tem, a responsabilidade de gerir a equipe, dar o treinamento. A gente imagina que é só dar o treinamento e ponto. E não é. Tem que montar o time, não é fácil.

[Como técnico, Velloso dirigiu Cene-MS, América-SP, Catanduvense, Mogi Mirim e Paraná Clube]

E como foi a experiência?
Peguei o Paraná muito mal na primeira divisão do Paranaense. Consegui recuperar, disputamos as finais ainda. O Paraná foi o clube que me deu as melhores condições de trabalho. Os times menores você não tem condição de trabalho e se engana quem pensa que a cobrança é menor. Você tem menos condições, mas a responsabilidade é a mesma: se não ganha você vai embora.

E aí você parou e foi pra TV.
Foi um convite do Neto. Eu estava começando na Rádio Estadão. Tive um convite do Weber Lima, estávamos eu, Zetti e William Capita (ex-Corinthians). E o Neto me ligou, disse que tinha um projeto do "Baita Amigos", um programa novo às segundas, e ele tinha pensado em mim. Eu gostei da ideia e aceitei de cara. Senti que era uma oportunidade legal de estar no meio de alguma forma. Já se vão seis anos.

Vocês são ídolos de clubes rivais. Como nasceu essa amizade?
Jogamos juntos em 1989, ele teve uma passagem muito rápida no Palmeiras, que montou um time muito forte, Dario Pereyra, Dida… o Neto foi a principal contratação. A gente treinava junto, depois do treino ele batia falta em mim, eu morava em Araras e ele em Campinas e me dava carona. Fomos para a Seleção juntos. Depois ele saiu e a gente ficou quase sem contato. E quando ele parou de jogar e já entrou pra TV, às vezes me chamava para a rádio, às vezes pro UOL, que ele tinha um programa, e a gente voltou a ter esse contato com ele como comentarista.

E agora, é melhor ser jogador ou comentarista?
Agora é mais fácil (risos). É mais fácil ser pedra que vidraça. Eu imagino que a gente tem um pouco mais de cautela, a gente tem a vivencia pra saber por que e como o cara errou. Eu, como já estive lá, sou mais cauteloso para falar, por que tem a família, né… sabe como a família reage. O jogador aguenta a crítica, sabe, já está calejado. Mas a família sofre muito, minha mãe, meu pai. Meus filhos não, porque eram pequenininhos. Mas tem aquilo, a escola e tal. Por outro lado, quem tá do lado de lá, às vezes pode levar isso para um lado bom. Ele pode pensar, "ele tá falando, eu preciso corrigir isso", principalmente quando eu falo de um goleiro: eu vivi 30 anos ali. Pode ser um conselho, depende de como o cara vai perceber. Muitas vezes dá para o cara reconhecer, "ele tem razão". Se ele parar pra pensar, a gente tá falando com propriedade.

Já foi cobrado por algum comentário seu?
Direto, não. Assessor já, liga, conversa. Teve uma vez com o Ramon Menezes (ex-Atlético-MG), eu contei uma história dele com o Levir (Culpi, hoje técnico no mesmo Galo). Ele me ligou, disse que não gostou, eu expliquei, ele não entendeu e ficou por isso mesmo. Na época ele teve um problema em que foi expulso de um treino. Eu contei porque estava num contexto de outro jogador, porque às vezes o jogador toma uma decisão precipitada. Eu lembrei e citei como exemplo. Uma vez o Ramon brigou com o Levir e foi embora do treino. E nesse dia o Ramon não sabia, mas o Levir disse que ele começar o treino no time de baixo, mas depois ele seria titular e ia jogar. Mas ele se precipitou, brigou com o Levir e nessa o Levir barrou ele do jogo, acabou não acontecendo. Às vezes o cara não sabe o que está acontecendo na cabeça do treinador. E eu contei essa história, o Ramon não gostou e me ligou, mas ficou por isso mesmo.

O goleiro Velloso teve problemas com a imprensa?
Como jogador, tive uma briga pública com o Dudu (ex-jogador e técnico do Palmeiras, tio do treinador Dorival Júnior), eu era muito jovem, 22 anos, e isso um erro, não foi legal, me prejudicou bastante no Palmeiras. Foi por jornal, TV, eu agi mal, dei munição. Resolvi deixar público o problema que eu tive com o Dudu e que eu tava errado, hoje eu sei disso. Ele tinha me tirado do time num momento em que eu sai para renovar contrato. E ele disse que nenhum jogador que estaria renovando contrato seria prejudicado. E eu fiquei um jogo fora para renovar e no jogo seguinte eu fiquei fora. E aí eu fiquei bravo (risos). Aí eu falei na imprensa… mas eu passei do tom, exagerei, ficou ruim para mim no clube, o torcedor e a imprensa passaram me olhar de uma forma diferente. Tive que sair do clube, depois voltei.

E o que é pior? Ser cornetado como jogador ou como técnico?
O treinador é muito mais cobrado. Eu tomei muito pau como treinador. Logo no meu primeiro clube, no Cene, uma atitude que eu tomei e que repercutiu mal, mas era por mau costume deles. Eu hoje tomaria a mesma decisão. Quando eu dirigi o Cene, tinha um rapaz que cobria o time, da rádio local. E ele viajava junto dentro do ônibus. E eu não permiti mais. E aí deu problema, porque era um costume deles, eles não tinham verba para viajar. Mas eu disse, "sinto muito, mas no ônibus não é lugar para viajar com o time". Aí passou, a partir dali começaram a fazer desta forma. Não dá, qualquer coisa que precisasse falar, o cara estava dentro do espaço.

Dizem que o jogador de futebol morre duas vezes…
É verdade, e é doído. Eu sinto muita falta de jogar futebol, da rotina de viagens, de concentrar… eu gostava de tudo. Pessoal fala que não gostava de concentrar, eu não reclamava. Eu ia lá para me preparar melhor. Só que naquela época o pessoal tinha menos estudo, não ministrava treinos como hoje. Eu hoje tenho várias sequelas por treinamento repetitivo, e hoje o atleta consegue prolongar a vida. O atleta não é preciso ser levado ao extremo todo dia. Eu tive três cirurgias de ombro, três de braço, músculo que rompeu e que não recupera mais. Essa geração aqui, além de jogar até mais tarde, vai ter muito menos sequelas que na nossa época.

Hoje, do lado de cá, como você vê essa relação?
Eu acho que hoje a imprensa é muito cerceada, não tem espaço nenhum. Não tem acesso, informação, um distanciamento muito grande. Hoje tá muito fácil para o atleta, não precisa falar com o torcedor, dar uma explicação. O time perde um título, o jogador erra, o outro falha e aí o assessor é quem fala, ou outro fala, e quem a gente quer ouvir, quem principalmente o torcedor quer ouvir, não fala. Pro lado de cá, o que mudou é isso. Quando eu jogava, eu cansei de dar explicação, satisfação. Quando nós perdemos a Copa do Brasil, que eu errei, eu fiquei quase até 2 da manhã dando explicação. E não tinha muito o que explicar, eu falhei e nós perdemos. Mas não tinha para onde fugir, tinha que passar ali onde tava a imprensa. Hoje tem a saída por trás, o jogador vai embora, ninguém vê, ninguém sabe, aí no outro dia tem outro fato e muda o foco. Tá muito mais difícil do lado de cá e muito mais fácil do lado de lá.

E você mantém contato com os jogadores de hoje?
Eu não faço questão, não procuro essa proximidade não. Hoje estou do lado de cá e dar minha opinião faz parte do meu trabalho. Eles gostando ou não, é meu trabalho e uma proximidade não é legal. É muito mais difícil criticar um amigo.

E a discussão entre comentaristas ex-atletas e jornalistas. Como você vê essa disputa, ainda tem muita resistência?
Ainda tem. Diminuiu, mas ainda tem. A gente percebe uns que torcem o nariz. Faz parte, tem bons comentaristas ex-atletas, tem maus também, que acabam perdendo espaço. E do outro lado também, tem bons comentaristas que tem um diploma, bons e ruins, e os ruins perdem espaço. Só que não dá para generalizar, achar que todo mundo é ruim de um lado e que os bons estão para outro lado. Isso funciona pros dois lados. Tem que ter sempre o respeito.

Já pensou em cursar comunicação?
Eu já pensei, ainda penso. Mas não sei como iria conciliar. Não sei nem se ainda estaria aqui (risos).

E quem trabalha mais? O Velloso comentarista ou nos seus tempos de jogador e treinador?
Ah, o jogador. Eu tive uma carreira longa, sabia o que tinha o que fazer e isso me consumia muito. Tinha muita responsabilidade, era enorme, botar uma camisa do Palmeiras, do Atlético-MG, do Santos… é pesado. Como treinador, se eu trabalhasse numa equipe como essas, e no Paraná deu pra sentir um pouco isso, eu trabalharia muito mais. O dia do treinador é sempre dobrado. Você tem que ver jogos, preparar treinos, ministrar o treino… o treinador trabalha muito mais, mas eu não tinha essa percepção e nem essa exigência. Não me consumiu tanto como deveria e como tem que ser. Das três, quem mais trabalha é o treinador.

Aí você sai de uma carreira em que tem que trabalhar todo final de semana e entra em outra igual? E a família?
Já acostumou. Eu tô nessa vida desde os 14, sem final de semana, sem feriado, nada. As pessoas que trabalham em outra rotina sempre falam, "ah!, hoje é feriado", e eu nem sei. Hoje eu tenho muito mais tempo em casa, fui pai recentemente e tenho curtido mais. O futebol te consome muito. Concentra um dia antes, tem que viajar… Como comentarista eu posso estar atualizado, mas eu posso ver o jogo em casa, eu tenho que trabalhar em casa. Eu posso dar um pause no jogo e continuar depois, dá para administrar bem.

Você está no segundo casamento, isso?
Sim. Hoje eu tenho mais tempo. Estou casado há seis anos e agora nasceu o Antônio. A rotina é completamente diferente. Meus outros filhos (do primeiro casamento), como eu jogava muito, eu não tive esse contato que eu tenho com o Antônio. Eu tinha que jogar, me dedicar, conseguir uma forma de dar conforto pra eles, essa era a minha preocupação.

O coração é mais Palmeiras ou mais Galo?
Eu sempre fui palmeirense, nasci numa família palmeirense, meu pai, irmão, irmã… minha mãe não tinha time, mas torcia para mim, sempre. E depois que eu conheci o Atlético (Mineiro), a torcida me encantou muito. Hoje eu gosto muito do Atlético, tenho uma ligação forte com o time. Fui campeão mineiro e vice do Brasileiro, há muito que o clube não chegava, não ia para a Libertadores. Eu participei da reconstrução do clube e até hoje eles me respeitam muito lá. Foram 16 anos de Palmeiras e mais cinco de Atlético. Hoje eu gosto dos dois, claro que a identificação com o Palmeiras é muito forte, mas eu tenho um carinho muito forte pelo Atlético.

E os rivais, como te recebem?
Bem, bem. Por causa do programa, a gente brinca um pouco e tal, mas hoje o torcedor comum na rua, muitos, os corintianos pedem pra tirar foto, dizem "gosto do que você fala, acho legal"… talvez com o uniformizado, sei lá, mais radical… mas não tem problema, o pessoal me respeita. E na época de jogador então, 100%, eles sabiam que era meu trabalho.

Quando você se olha no espelho, você vê qual Velloso?
O jogador. Vai ser assim a minha vida toda. Eu não tinha me programado para ser comentarista, televisão… acho que a vida me trouxe pra cá, mas eu não me programei para isso. Se eu estou aqui é por conta da minha vida como atleta. E é uma responsabilidade hoje, falar em nome da Bandeirantes, uma empresa que sempre foi o Canal do Esporte, o canal do futebol, e por isso você tem que estar preparado para colocar sua opinião. Mas eu acho que sempre vou ser visto como o atleta, o goleiro do Palmeiras. Pode ser que a garotada mais nova me veja como comentarista, mas quem me viu jogar, sempre será o goleiro.

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