Morreu aos 78 anos Mário Coluna, o maestro da seleção de Oto Glória e tutor emocional do craque Eusébio

Morreu aos 78 anos Mário Coluna, o maestro da seleção de Oto Glória e tutor emocional do craque Eusébio

O empresário Laudo Natel, então vice-presidente do São Paulo F. C. e candidato a vice-governador do estado homônimo do clube do Morumbi, perguntou a um amigo, ao seu lado nas cadeiras do Pacaembu: “Este rapaz, por acaso, é brasileiro?”.

Era uma tarde de domingo, 6 de maio de 1962, e a seleção brasileira jogava contra Portugal num preparativo para a Copa do Chile, que o Brasil ganharia pela segunda vez a taça do mundo. Natel, por sua vez, também seria bi no governo paulista, entre 66 e 75.

O rapaz, motivo da curiosidade do político, não era o genial Eusébio, comandante do ataque luso e não raro comparado a Pelé naquela década. O craque que jogava com jeito e talento brasileiros era o capitão do time, o africano Mário Coluna.

Como jogava o líder da seleção portuguesa de então. Aquela exibição no Pacaembu lotado, apesar da derrota para o Brasil por 1 x 2, era um fato comum na carreira de Coluna, consagrada e popularizada somente em 1966, na Copa da Inglaterra.

Aquilo que o mundo viu em campos ingleses, quando a seleção de Portugal humilhou a seleção do Brasil e quase foi à final sufocando o time de Bobby Charlton e Bobby Moore, era corriqueiro nos jogos do Benfica nos estádios lusos e por toda a Europa.

Se bem que até aquela data, durante muitos anos, a alegria em campos portugueses tinha a cor verde, com uma série de títulos do Sporting impondo um tabu e prendendo o grito de campeão na garganta dos benfiquistas. E foi Mário Coluna quem mudou tudo.

Junto com ele, o time da Luz trouxe um brasileiro que faria história e mudaria o conceito de futebol na pátria de Camões: Oto Glória, o técnico que fez a Europa respeitar o Benfica como uma grande e temerosa equipe. A equipe do capitão Coluna.

Foi um dos maiores craques de meio-campo já vistos, um notável líder de grupo, habilidoso, potência de chute e, o mais incrível, um preparo físico e um sentido tático do século XXI em plena cadência e romantismo dos anos 1950 e 1960.

A energia descomunal do jogador foi armazenada com incursões amadoras no atletismo e no boxe, pelas ruas de Alto Mahé, o bairro moçambicano da sua infância e adolescência. Ele foi a espinha dorsal para Oto Glória elaborar o seu esquema vitorioso.

Com Mário Coluna no comando do meio-campo, o Benfica alcançou períodos gloriosos, sendo campeão da Europa por duas vezes, em 1961 e 1962, diante de equipes poderosas como o Barcelona de Kubala e o Real Madrid de Di Stefano.

Na final de 1961, em Berna, Suíça, uma multidão esperava ver um show do fabuloso ataque catalão, formado por Suarez, o mago espanhol, um craque brasileiro, Evaristo, e um trio de húngaros de assustar até almas penadas, Kocsis, Kubala e Czibor.

O espetáculo foi de Coluna. A bola veio do alto, como enviada pelos deuses, e encontrou o crioulo fora da grande área. Com a bola ainda no ar, o monstro vermelho acertou um chute preciso, que foi morrer no canto direito do goleiro. 3 x 2 Benfica.

Na outra final, em 1962, parecia impossível a algum clube do planeta superar uma máquina vencedora como o Real Madrid e seu ataque genial com Kopa, Di Stefano, Puskas e Gento. Mas havia Coluna servindo um garoto chamado Eusébio. 5 x 3 Benfica.

Entre 1960 e 1966, as dezenas de seleções com os melhores do ano da Europa, escalada por jornalistas de todo o continente, invariavelmente traziam no meio-campo a figura majestosa do capitão do Benfica e comandante-em-chefe de Portugal.

Quando o camisa 10 se aposentou, em dezembro de 1970, craques consagrados e outros que logo se consagrariam jogaram com ele na partida do adeus. Um jovem holandês chamado Cruijff fez questão de se juntar a Bobby Moore, Uwe Seller e Suarez.

Não à toa, Coluna virou uma das lendas do futebol luso, juntamente com Eusébio (seu afilhado), e ganhou dois apelidos que definem seu colossal futebol. O eterno capitão é lembrado como “O Didi português” ou, simplesmente, “O Monstro Sagrado”. (AM)

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Foto: Arquivo pessoal do colunista

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