Rogério Ceni no primeiro jogo oficial no comando do São Paulo em 2017, contra a Ponte Preta

Rogério Ceni no primeiro jogo oficial no comando do São Paulo em 2017, contra a Ponte Preta

Bruno Grossi
Do UOL, em Fortaleza

Rogério Ceni chegou apressado a seu escritório no CT Ribamar Bezerra, em Maracanaú, região metropolitana de Fortaleza. Pediu desculpas pelo atraso, esperou alguns ajustes técnicos da reportagem do UOL Esporte e precisou responder: como foi a preparação para um jogo que nunca se imaginou que iria acontecer?

A resposta saiu entre um sorriso amarelo, sem jeito, e uma breve hesitação de quem já havia cansado de pensar sobre o assunto. Quem o conhece de perto sabe que os últimos dias foram de ansiedade. Um turbilhão de sentimentos. Uma vontade insana de mostrar serviço. Mas, no discurso, Ceni jura que só pensou no São Paulo a partir da última sexta-feira, quando acordou classificado para a final da Copa do Nordeste.

Hoje, às 19h, a Arena Castelão será palco de um dia histórico. Rogério Ceni, quem diria, rival do São Paulo. Vai berrar e lamentar se o time do coração fizer um gol. Vai vibrar, de seu modo sempre intenso, se os são-paulinos estiverem cabisbaixos por um gol de seu Fortaleza. O Leão do Pici é sua vida, agora.

No São Paulo, Rogério Ceni deixou títulos, gols, 26 anos de vida e muitos amigos. Entregou o que podia entregar. Recebeu quase tudo o que julgava merecer. Mas sabe que um dia essa ressalva poderá ser desfeita. Depois de 2020, ele deixa bem claro. E não importa se for necessário mais de uma década de espera.

Aqui, o UOL Esporte registra parte do encontro com o ex-goleiro, que conduz o Fortaleza a momentos de glória. Os efeitos desse fenômeno chamado Rogério Ceni no futebol e na vida dos cearenses serão apresentados em breve. Hoje, o dia é de misturar passado, presente e futuro.

Como foi se preparar para um jogo que nunca ninguém imaginou que aconteceria?
Pois é (suspira). Mas faz parte da vida, né? Da profissão de quem escolhe ser treinador e se coloca no mercado. São tantos jogos que aconteceram no mesmo dia. Tive que pesar como chegar com o time minimamente em condições de enfrentar o São Paulo. Não de igual para igual, mas para ter alguma chance. Foi um planejamento muito grande, mas com pouco tempo para pensar. Foram só dois dias para dissecar o São Paulo.

É um jogo especial. O São Paulo é o lugar onde cresci e fui formado como atleta e como homem. Tenho um carinho pela instituição, pelos amigos que lá estão, que trabalham em todas as áreas do clube. Alguns jogadores que foram, saíram, mas jogaram comigo, como Hernanes. Outros que estiveram quando fui treinador, como Jucilei. O Brenner, que eu subi da base e ainda se encontra por lá, já que o resto conseguiram vender tudo. O Araruna é um desses. E hoje está aqui comigo. Subiu da base comigo e hoje está ajudando bastante a gente aqui.

O carinho pelo clube, pelos diretores, pelas pessoas que conviveram comigo e sei que são de bem, que me mandam mensagens de parabéns, de boa sorte... Eu valorizo muito esse aspecto, essa história. O clube não se reflete em uma pessoa, mas sim no todo. Para mim, é um prazer muito grande enfrentar o São Paulo. É também um desafio muito grande, uma emoção muito grande.

Mas Fortaleza e a torcida têm sido excepcionais comigo. Esse vínculo, essa proximidade criada pelo título da Série B, o título do Cearense com duas vitórias sobre o Ceará, deixou todo mundo eufórico. Então, eu fico feliz de ter o respeito da torcida do outro lado, mas também a torcida, de fato, pela vitória do Fortaleza.

A volta ao São Paulo está em seus planos para o futuro?
Claro, se um dia aparecer a oportunidade. Sempre falo que, quando jogava no São Paulo, na década de 1990, eu era reserva do Zetti e fomos campeões da Libertadores e do Mundial em 1993. Estive inserido no processo e ali criei um sonho de ganhar tudo aquilo como goleiro titular do São Paulo. E foi preciso esperar 12 anos para que eu realizasse esse sonho. Quem sabe demore mais uma década, mais 12 anos, mas que eu também possa realizar esse sonho (de voltar como técnico).

Hoje estou muito feliz aqui. Tenho contrato até o fim deste ano. E sei que, no ano que vem, para o São Paulo não vamos voltar. Mas, no futuro, após 2020 (quando termina o mandato do presidente Carlos Augusto de Barros e Silva), quem sabe para frente, poderemos nos reencontrar. Se eu estiver bem e o clube estiver precisando de um profissional, me achar indicado, não vejo nenhum motivo para que não haja esse reencontro. Mas eu pretendo, no dia em que ele existir, que a gente tenha um time competitivo e eu esteja preparado para levar o São Paulo aos lugares que levei como atleta.

Você acredita que sua saída foi ou se tornou algo pessoal para algumas pessoas no clube?
No futebol, nunca nada deveria ser pessoal, e sim sempre muito profissional. Dentro do São Paulo, tenho quase todas as pessoas que gosto muito. Se eu for na cozinha, tenho certeza que serei abraçado e vou abraçar todos. Na segurança, como foi nas poucas vezes em que fomos treinar no CT (da Barra Funda), também. Assim como os jogadores que trabalharam comigo, os funcionários de todos os departamentos. Tenho carinho e amizade por todos.

Até por diretores das mais variadas épocas. Desde a época do (José Eduardo Mesquita) Pimenta, até o último mandato do doutor Juvenal (Juvêncio). Diretores que me contrataram e que ainda hoje mandam mensagem a cada vitória, quem viajam para Fortaleza para ver um jogo, que não perdem as partidas do Fortaleza pela TV, que estão indecisos por quem torcer.

Tenho um relacionamento muito bom com o São Paulo, preservo isso. E tento preservar sempre porque a gente não pode, por uma pessoa, por uma decisão, levar isso para a instituição. O clube é maior do que qualquer coisa. A torcida é maior, o estádio, as noites de Libertadores. Isso é memorável. Para sempre. O carinho não vai se apagar nunca. Mesmo durante os 90 minutos ele vai continuar. Mas vou precisar dar meu melhor pelo Fortaleza.

Você vai comemorar em caso de gol ou vitória do Fortaleza?
Se o torcedor são-paulino me conhece, sabe que fui um cara que vivi aquilo intensamente durante 26 anos. E acho que o maior orgulho que ele tem sobre o goleiro que jogou lá é que ele vivia tudo aquilo de forma intensa. Não era um trabalho, não era um emprego. Era minha vida. E hoje o Fortaleza se tornou a minha vida. Então, nada mais justo, se eu tiver essa possibilidade, que não é fácil, que eu fique muito feliz se o Fortaleza vencer o jogo.

O respeito pelo São Paulo será eterno. Não é por esse jogo, por esses 90 minutos. Se outrora enfrentar o São Paulo novamente, o respeito sempre existirá. E o maior respeito que eu posso ter com o clube onde trabalhei por 26 anos é fazer o melhor, é continuar fazendo meu melhor no outro lugar onde trabalho. Hoje vivo o Fortaleza. O São Paulo é eterno em minha história. Assim como também o Fortaleza será para sempre. São 18 meses contra 26 anos. Histórias e períodos diferentes, mas com muita intensidade.

Foto: Marcello Zambrana/AGIF (via UOL)

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