Ele foi `Chuteira de Ouro´por três vezes seguidas no futebol nipônico e sofreu com o terremoto de Kobe, em 1995

Ele foi `Chuteira de Ouro´por três vezes seguidas no futebol nipônico e sofreu com o terremoto de Kobe, em 1995

Dorival Carlos Esteves, o Kalé, hoje com 67 anos, foi o primeiro negro a jogar futebol profissionalmente no Japão, entre 1968 e 1973, após ter começado na Ferroviária de Botucatu e atuado no Juventus, da Mooca.

No Japão, Kalé, que era conhecido como Carlos Sam (senhor, em japonês), jogou pelo Yanmar Diesel de Osaka, hoje Cerezo Osaka, destacando-se como lateral-direito, conquistando por três vezes a "Chuteira de Ouro", (em 1970, 1971 e 1972).

Kalé esteve na redação do Portal Terceiro Tempo em duas ocasiões neste mês e concedeu uma bela entrevista, falando de sua carreira e de preconceito racial, dando sua opinião sobre o episódio do goleiro santista Aranha.

Kalé disse que não sofreu nenhum tipo de preconceito no Japão, pelo contrário, foi muitíssimo bem recebido pela comunidade nipônica. No Brasil, segundo ele, passou por "algumas coisas bobas" mas ele enfrentou sem problemas.

Após encerrar sua carreira, Kalé trabalhou no Japão ensinando o esporte para garotos, contratado por uma empresa, fazendo clínicas de futebol. Ele estava em Kobe quando a cidade foi abalada por um fortísimo terremoto em 1995. Atualmente ele mora em Americana, interior de São Paulo, e trabalha em uma empresa de transportes.

ABAIXO, A ENTREVISTA COMPLETA DE KALÉ A MARCOS JÚNIOR:

Como você começou sua carreira? Teve influência de alguém?

Tinha o meu irmão que jogava futebol, mas eu vinha me destacando nos infantis e juvenis da Ferroviária de Botucatu. Quando o "Super Zé", o Zé Maria, que era um grande jogador e ótimo amigo foi vendido para a Portuguesa de Desportos, eu tive minha chance no time, que nessa época estava na 1ª Divisão do Campeonato Paulista, o equivalente à Série B hoje. Antes era Especial e 1ª Divisão.

Mas você não ficou muito tempo em Botucatu? Onde jogou depois?

Eu fui para o Juventus. Um olheiro gostou do meu futebol e me levou para a Mooca, onde joguei ao lado de Milton Buzzeto, Pando, Cabeção, Mão de Onça, Ferreirinha, Virgílio, Nenê, Tanezi, Jair Francisco, Chiquinho, Cosme, Toninho Minhoca, Valdir e Bira (que foi para o México). Eu peguei experiência principalmente nos aspirantes e fiz alguns jogos com os profissionais, inclusive uma partida contra o São Paulo, que tinha o Paraná.

Qual foi o ponta-esquerda mais habilidoso que você viu jogar?

Eu não enfrentei o Edu (do Santos), mas ele saia para os dois lados, então era muito complicado marcá-lo. O Nei (do Palmeiras) também era diferenciado. Eu enfrentei outro que também era muito habilidoso, o Kaneco (do Santos). Também joguei contra o Piau, bom ponta-esquerda. Mas uma vez eu joguei improvisado na lateral-esquerda, contra o Edu Bala (à época na Portuguesa), exatamente em um jogo em que um olheiro do futebol japonês foi para me observar, na rua Javari. O Moacir Figueiredo (já falecido) me avisou desse olheiro depois do jogo. O Edu Bala corria uma barbaridade, mas eu tive uma atuação muito boa, me antecipei na maior parte das jogadas. O Edu ganhou uma ou outra jogada, mas eu dei conta do recado. Mas, no segundo tempo, o Edu foi lançado em profundidade e eu me estiquei todo para evitar que ele saísse na cara do gol. Eu consegui, mas sofri minha primeira distensão muscular e acabei substituído. Parecia uma agulha que tinha entrado na minha coxa. Mas isso não atrapalhou a minha negociação com o time japonês, no caso o Yanmar Diesel, de Osaka.

E como foi o contato com o clube japonês?

Um representante do Yanmar me procurou, o Sr. Vicente Hayashida. Ele era brasileiro mas fazia o trabalho para o time japonês. Isso foi em 1968, eu estava com 19 anos, havia acabado de fazer Tiro de Guerra, no Exército. Toda a documentação foi feita e fiz minha primeira viagem de avião. Foram 28 horas de voo. Eu fiquei meio receoso, mas correu tudo bem, foi um voo da Varig.

Foi um bom contrato, mais vantajoso em relação ao que você tinha no Juventus?

Sim, foi um contrato bom. Eu tinha boa moradia, alimentação (café, almoço e jantar) e eu fui o primeiro jogador de futebol negro e estrangeiro a atuar no Japão. Havia um negro jogando beisebol, e eles queriam um negro para o futebol e eu tive a sorte de ser o primeiro deles, se bem que havia o Nelson Yoshimura, mas ele era nissei, então eu fui o primeiro estrangeiro mesmo.

Deu para fazer um "pé de meia"?

Melhorei de vida sim. Fiz aquilo que era possível e também ganhei muitos amigos, não tenho nenhum arrependimento.

E a recepção do clube e da torcida? Você sofreu algum preconceito quando chegou ao Japão?

Eu fui muitíssimo bem recebido. Não sofri nenhum preconceito racial. Eles tinham curiosidade em ver um negro, principalmente no esporte. Chegavam perto de mim e me achavam bonito (risos). O Nelson Yoshimura traduzia pra mim aquilo que eles me diziam.

E as torcidas adversárias? Houve algum episódio de ofensa?

Não, eles só pediam para me marcar, porque achavam que eu era um bom jogador, aliás eu ganhei a "Chuteira de Ouro" por três anos consecutivos, como melhor lateral-direito do futebol japonês (1970/71/72). Todo jogador brasileiro tem aquela ginga, aquela arte, e isso impressiona.

E como era feita essa eleição da "Chuteira de Ouro"?

Eram os jornalistas esportivos que participavam da votação. Uma vez, o Fiori Giglioti e o Alexandre Santos fizeram uma reportagem para a Rádio Bandeirantes sobre a minha experiência no futebol japonês e esses prêmios que eu recebi. Foi uma entrevista muito bacana.

E a cultura e a tecnologia do Japão, foi um impacto muito grande para você?

A cultura japonesa é muito diferente da nossa. São 2.000 dialetos e três línguas. E o Japão estava crescendo e passando todos na frente, após a 2ª Guerra Mundial. A maneira do povo tratar você é maravilhosa. Em termos de tecnologia o Shinkansen (Trem Bala) me impressionou. Também viajávamos bastante de avião, algo que não fazíamos no Brasil. Minha casa tinha um bom sistema de aquecimento. Neva muito no Japão, não é fácil no inverno.

E os terremotos, você teve algum problema mais sério?

Após eu parar de jogar eu comecei a dar aulas de futebol, fazendo clínicas em uma empresa. Estava no terremoto de Kobe (em 17 de janeiro de 1995). Começou às 5h45. A gente se acostuma com terremoto. Ele começa lento e depois para. Mas aquele foi diferente. Ele começou lento mas foi aumentando e eu me protegi embaixo da mesa do apartamento. Tudo voava. Foi a primeira vez que eu fiquei branco na vida (risos). O tremor foi de 7,2 (Escala Richter). Perdi amigos. Meus vizinhos me chamavam de Carlos Sam (senhor) e me observaram da varanda. Depois que eu desci nós fomos até um espaço largo, perto, muita gente, os japoneses em pânico, eu via crateras se abrindo, postes caindo, parecia um filme, explosões de gás, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Depois que aliviou eu voltei ao apartamento para pegar meus documentos. Os degraus balançavam e estava tudo destruído. Desci com uma mala, com os objetos mais importantes para mim e fui a pé até a cidade de Omeda. Não havia telefone funcionando, um caos. Depois eu consegui falar com os meus familiares, que estavam muito preocupados.

E as coisas que você perdeu, você foi restituído?

Recebi reembolso até por um trem que atrasou, logo após o terremoto. Depois, eu já estava de volta ao Brasil, o governo japonês depositou cerca de 10 mil dólares na minha conta corrente. Eles tem uma grande estrutura para atender as pessoas nesses casos.

Voltando à questão do racismo. Você disse que não sofreu nenhum problema no Japão. E no tempo em que atuou no Brasil?

Existe no Brasil, mas eu particularmente vivenciei apenas"coisas bobas", eu nunca "dei bola". No interior eu era conhecido, então, graças a Deus, eu não sofri esse tipo de problema.

Você acompanhou o caso do goleiro Aranha, do Santos, que foi chamado de "macaco" por alguns torcedores do Grêmio. Qual sua opinião sobre o caso?

Quem sou eu para dizer sobre uma questão tão pessoal. Eu não tenho a mínima condição para dizer qual medida ele deveria tomar, ou chamar algum diretor ou o próprio juiz, aquilo que seria mais correto para aquele momento.

O que você faria, se tivesse passado pelo que o goleiro Aranha passou?

Os jogadores são agredidos de toda maneira. Xingados e ofendidos. Juízes e bandeirinhas também. Se eu fosse vítima disso eu comunicaria às autoridades, mas eu tentaria continuar jogando normalmente.

Que recado você daria para qualquer torcedor que tem uma atitude preconceituosa em um campo de futebol?

Deveria se botar um basta nisso. É uma covardia dizer certas coisas em um país como o Brasil, com tanta miscigenação. Somos todos iguais.

E a punição imposta ao Grêmio, que foi eliminado da Copa do Brasil? Foi pesada? Deveria ser apenas aos torcedores?

Acho que deveria ser mais suave com o clube, mas eu não entendo dos critérios das leis brasileiras nesse tipo de situação.

Você jogou no mesmo time que o Kunishige Kamamoto (na foto abaixo, com Kalé), considerado o Pelé japonês. Como era o estilo dele? Era bom mesmo?

Ele era um atacante muito bom. Tinha aquela força do César (Maluco) mas era mais habilidoso, como o Leivinha. Naquela época ele jogaria tranquilamente em qualquer clube brasileiro.

Durante a Copa de 70 você estava no Japão. Como foi a repercussão por lá? Você foi valorizado por conta da conquista brasileira?

Tem uma curiosidade nesse episódio. Eu não pude assistir o jogo final (contra a Itália) porque estávamos concentrados, tínhamos jogo no dia seguinte e o treinador não deixou a gente assistir. Isso acabou me valorizando também, porque a conquista do Brasil foi grande e nosso futebol já era referência. Hoje são menos jogadores que se destacam, tem o Neymar, mas foi uma pena aquilo que aconteceu em 1982. Que time maravilhoso aquele, com Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior... Pena que o Brasil quis ganhar de todo jeito, poderia ter empatado. Acho que o Telê orientou a prender mais a bola, mas os jogadores queriam ganhar o jogo mesmo. E tinham futebol para isso.

Você enfrentou Pelé?

Não, mas uma vez eu estava em uma preliminar, na Vila Belmiro (pelo Juventus, contra o Santos) e vi os titulares chegando. Eu estava me encaminhando para cobrar um escanteio e vi o Pelé, ele estava com uma camisa buclê cor-de-rosa. Eu fiquei admirando, era o Rei do Futebol, não é? Mas uma vez ele foi ao Japão, fazer alguns amistosos pelo Santos. Eu fui ousado, conhecia algumas pessoas no hotel em que o Santos estava hospedado e subi até o quarto dele. Ele abriu a porta cordialmente, eu me apresentei como jogador de futebol e pedi um autógrafo. Ele estava sozinho no quarto e me deu o autógrafo. Depois eu fui assistir o jogo do Santos no ônibus do próprio time, com os jogadores. Foi muito bacana, eles me trataram muito bem.

E o idioma? Quanto tempo você levou para conseguir falar?

O Nelson Yoshimura me ajudou muito no começo. Mas é o seguinte, quando você vai morar em outro país, você tem que assistir muita televisão, ouvir bastante. Em um ano eu conseguia conversar, sair sozinho e me virar sem problema.

E hoje? Você ainda consegue falar bem o japonês?

Sim, não esqueci! (Nesse instante, Kalé fala uma frase longa em japonês).

E a alimentação, você gostou?

Sim, até hoje como comida japonesa, sushi, sashimi, gosto bastante. Eles também comem muitas verduras e legumes, muito saudável. Senti minha saúde melhorar, principalmente porque usam pouco óleo na comida. O arroz, eles só usam água para cozinhar. Às vezes comíamos carne, mas pouco, era muito caro.

E sentia falta de alguma comida brasileira?

Ah, às vezes a gente recebia feijoada em lata, vinda do Brasil. Dava para matar a saudade...

Depois de Pelé, qual foi o melhor jogador que você viu jogar?

Tivemos grandes jogadores na época do Pelé, como Beckenbauer e Gerd Muller, entre outros. Mas quem me chamou mais atenção, e também dos japoneses, foi o Zico. Eles até observaram o Maradona, mas preferiram levar o Zico para jogar lá.

Se você fosse técnico e tivesse a possibilidade de contar com Maradona ou Zico para o seu time, em seus melhores momentos, quem você escolheria?

O Zico. Em primeiro lugar no futebol vem o valor homem, depois o jogador. O Zico é um grande homem, uma grande pessoa. Ficamos maravilhados com o que ele fez no Japão.

E o Neymar?

Se deixarem o Neymar jogar, não o que aconteceu na Copa, ele será aquele que mais vai se aproximar do Pelé.

E técnico da seleção brasileira? Você gostou da escolha por Dunga ou teria outra preferência?

É uma situação delicada. A grosso modo, respeitando o Dunga, pelo jogador que foi, técnico também, mas na minha opinião, com a idade que tenho (67 anos) vi grandes técnicos e acho que hoje a CBF teria opções boas, dentro do território nacional poderíamos chamar dois treinadores para trabalharem juntos: o Tite e o Muricy, um para ser técnico e outro para supervisor, sem preferência para quem seria o técnico e quem seria o supervisor.

Você foi um defensor. Quem gostaria de ter como goleiro em seu time, alguém que lhe transmitisse segurança?

Escolheria quatro goleiros, dois brasileiros (Gylmar dos Santos Neves e Marcos) e dois estrangeiros (Gordon Banks e Buffon).

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