Nelson Nunes conta deliciosas histórias do Diário Popular

Nelson Nunes conta deliciosas histórias do Diário Popular

Mesmo que não seja do meio, você já deve ter ouvido falar nos tempos românticos do jornalismo. Não falo daquele estereótipo fake do cinema, onde se reproduzem cenas nem sempre próximas da realidade, com repórteres atarantados na apuração dos fatos, fotógrafos com mais pose do que closes e entrevistados dissimulados _ ora atenciosos, ora arrogantes. Na vida real das redações, a era do jornalismo romântico remete a um tempo de mais agruras e menos glamour, pois que a vida dentro das oficinas de jornal nunca foi lá essas coisas de dar inveja. Mas, sempre teve seus encantos. Ah, isso é fato! Ser jornalista na era pré-internet, sem o G-1, o G-2, o G-3, o G-4... para atualizar as notícias do dia e sem o Google para reconstruir o passado, era uma aventura diária. E dela eclodiam personagens reais que bem poderiam estar nos filmes surrealistas do espanhol Luis Buñuel ou nos folhetins do realismo mágico do mestre colombiano Gabriel Garcia Marquez. Gente de carne e osso, iguais a nós, mas revestidos de tantos predicados que os faziam parecer diferentes. Gente diferenciada na multidão de operários da notícia.

Bons exemplos dessa casta de talentos privilegiados bateram ponto, numa determinada fase dos anos 80/90, na redação do velho DIÁRIO POPULAR, especialmente a partir da reconstrução do jornal sob o comando de Jorge Miranda Jordão, que havia vindo do Rio com a experiência de ter feito de O DIA um forte concorrente ao poderoso O GLOBO com uma fórmula simples, mas eficiente, de vender notícias. No arcabouço editorial de Miranda, o jornal devia ter apenas quatro grandes segmentos: o primeiro caderno parrudo em notícias locais, um caderno de esportes, outro de variedades e, fechando o pacote, um jornalismo policial de primeira qualidade. Longe do mundo-cão e cada vez mais perto das mazelas nossas de cada dia. Do drama do vizinho do mané que roubava um tênis pra comprar uma pedra de crack ao medo de quem passava a conviver com o nascimento da facção criminosa que viria a dominar os presídios de São Paulo e exercer um poder marginal ao Estado, ainda que os governos resistissem a admitir a existência do que hoje se conhece como PCC.

A editoria de Polícia do Diário chegou a ter mais de 20 pessoas. Dois editores, dois chefes de reportagem/pauteiros, redatores, diagramadores e um time de repórteres que virou referência na cidade. Embora não houvesse uma competição declarada, cada usava suas armas para se destacar. Josmar Jozino, o Caveirinha, era o maior expoente da equipe, mal comparando seria assim uma espécie de Neymar na seleção brasileira. Repórter na melhor acepção da palavra, deu voz ao PCC correndo risco de vida por mergulhar nas entranhas do partido do crime atrás de informação. Por sua importância, vai merecer um capítulo à parte futuramente. Hoje, em homenagem a todos os outros repórteres policias com quem convivi, vou me fixar em dois outros mitos da profissão.

Primeiro, as damas! Christina Cristiano, sempre no fulgor de seus 28 anos (ela comemora 28 anos há décadas!!!), tinha no poder da lábia, e na teatralização, seu trunfo para conseguir reportagens exclusivas. Uma artista! Consta que no velório do Coronel Ubiratan, cuja morte fora atribuída à namorada, Christina precisou chegar no limite de sua técnica dramática para furar o bloqueio dos seguranças e se aproximar do caixão para colher depoimentos das pessoas mais próximas ao homem que comandou o massacre de 111 presos no Carandiru. Ela sabia que o coronel, nas horas vagas, atacava de Don Juan e, como tal, colecionava alguns namoricos fora do relacionamento oficial. As saliências do coronel não eram desconhecidas por pessoas mais chegadas a ele. Ao chegar ao funeral e se deparar com a fila de seguranças, Christina assumiu a personagem de uma das amantes do morto e, aos prantos, foi furando as barreiras, dividindo sua dor com os presentes até que se colocou na cabeceira do caixão, ao lado das outras viúvas. Dividiu com elas as alegrias e os dissabores de um falso relacionamento que, naquelas circunstâncias, parecia real. Foi confortada por gente que nunca vira antes e saiu de lá com uma das mais saborosas histórias do velório do coronel, digamos, matador...

Esse era o tipo do jornalismo que se fazia, quase que diariamente, nos tempos românticos das redações. Tempos em que o repórter ia para a rua com uma pauta e voltava com um folhetim. E um especialista nesta arte chama-se Renato Savarese, caricatura bem acabada e estereótipo perfeito do repórter policial, que acaba criando um personagem dele mesmo. Savá, no auge da reportagem policial do DIÁRIO, era assim. Falava usando a linguagem dos policiais e dos malas, dependendo da ocasião e de seu interesse. Vivia empenhado 24 horas na apuração das coisas, ora metido em bares, inferninhos e quebradas da noite paulistana. Orgulhava-se de ter trabalhado no Rio na mesa ao lado de João Saldanha, de quem herdou o heterodoxo hábito de bebericar uma caipiroska em plena redação, enquanto redigia seu texto. De longe, os copinhos de plástico pareciam conter café. Mas levavam vodka, limão e gelo _ não necessariamente nessa ordem. Varava madrugadas produzindo reportagens e molhando as palavras. Não foram poucas as vezes em que perdeu o horário de voltar para casa e dormiu na redação, juntando três ou quatro mesas de fórmicas que tinham uma traquitana na tampa que, uma vez recolhida, “engolia” a máquina de escrever e deixava o tampo liso de novo. Tempos românticos em que a redação era mesmo uma extensão da casa da gente, a ponto de ali, sem sacrilégio e culpa, ser permitido transgredir a norma do comportamento humano com a mesma naturalidade que se ignorava o rigor dos horários de fechamentos... E assim a gente escrevia, bebia, fumava, jogava truco...

Seis, papudo! Nove, mentiroso!

Mas voltemos ao trabalho. O diferencial de mestre Savá era dar apelidos aos marginais presos. Não se tem notícia de algum personagem de suas crônicas que tenha desfilado nas páginas do DIARIO só com o nome de batismo. Caiu nas mãos de Savarese e o bandido estava condenado a ganhar uma alcunha, produto de seu inacreditável poder de observação, de seu sarcasmo, e de sua convivência com gênios como Saldanha. A galeria inclui anônimos como Jacaré, Arco e Flecha, Bicicleta, Canelinha, Penitência (um ladrão magricela), Touro Doido (um gordo do PCC), Toninho Rodela (um travesti que fazia programas para roubar os "parceiros") e gente famosa, como o cantor Lindomar Castilho, acusado de matar a mulher, a jornalista global Eliana de Grammont. Na crua crueldade das crônicas de Savá, o cantor passou a ser identificado como Lindomar Gatilho, por óbvios motivos.

É um clássico também a história de “Seo” Calhambeque, um velho estelionatário preso a bordo de um Landau 1969. Ao voltar para a redação, ainda sem ideia de como batizar o 171, Savá esperou as fotos tiradas pelo inseparável parceiro M. Lembro ficarem prontas no laboratório do jornal (na época pré-selfie os filmes eram revelados quimicamente e as fotos escolhidas a partir de um contato, minúsculo, para só depois serem ampliadas para publicação). Com as fotos prontas, Savá olhou para a cara amarrotada do sujeito, olhou para o carro velho e enferrujado, e, comparando os dois, fez nascer ali o malandro estelionatário Calhambeque.

Um caso memorável mistura religião, sexo e inconfidências de alcova _ uma receita que tem todos os ingredientes para dar liga e render uma boa história policial. Um dia, Savá chega à redação e fica sabendo pelo plantonista da madrugada, Luís Lucindo, que havia na Delegacia de Ribeirão Pires, no ABC, um caso que, na linguagem deles, “era um sururu na casa de Noca”. Era, na verdade, o furto de um peru (a ave, claro). Parecia coisa simplória, mas durante as investigações os policiais descobriram na casa do acusado pelo furto um terreiro de macumba.

Os investigadores entraram no meio da sessão espírita, pararam o bate tambor e mandaram os presentes encostarem na parede, com os documentos em mãos. Conversa com um, conversa com outro, e os tiras descobriram que, além de comer peru (a ave), o pai de santo também gostava de transar com as "devotas". A artimanha do embusteiro para conquistar as mulheres era preparar um ebó, uma comida usada no ritual. O dia já clareando e os tiras encontram no bolso traseiro de um frequentador a tal receita do ebó. Surgiu então a informação de que o pai de santo também “traçava” o fulano, um sujeito gordo e mais branco que leite. Diante de tantas informações, Savá vai conversar com o chefe dos investigadores e o policial, tirando onda, lhe diz que o macumbeiro fazia “caridades” ao frequentador, se é que me entendem.... Na hora, como uma entidade em transe, Savá se concentra e batiza o religioso de Pai Caridoso.

No início da década de 90, a TV Manchete exibia uma série intitulada "As Aventuras do Seu Quequé", um caixeiro viajante que cantava todas as moças das regiões em que ia vender suas tralhas. Vai daí que, um dia, Savá encosta no 47º DP (Capão Redondo) para reportar a cana de um sujeito engomadinho acusado de vários estupros no Jardim Rosana. Mais que elegante, era um tipo estranho. Usava um paletozinho de brim e camisa tipo social, mas o detalhe cômico era o cabelo cheio de pasta gumex e o penteado com um risco no meio da cabeça. Savá de pronto lembrou-se do personagem da TV e o apelidou de Seu Quequé. Quando perguntou ao delegado o que iria acontecer com o Seu Quequé o majura quase se mijou de tanto rir.

Os apelidos tinham a força da perspicácia do repórter e do poder de penetração do jornal, na época autointitulado “O Rei das Bancas”, com mais de 200 mil exemplares de tiragem diária. A ponto de “pegarem” entre a própria bandidagem, que via nas crônicas de Savá uma espécie de notoriedade para o mundo do crime. Era como se eles tivessem ali sua própria coluna social! É o caso de reconhecimento da família do "Escorpião"...

Savá fazia uma reportagem sobre matadores de aluguel que agiam no Capão Redondo e, ao chegar ao 47º DP, deu de cara com dois agentes da matança, que tinham acabado de ser presos. Tinham dançado por causa da ação de comerciantes da área, que, cansados de ser roubados, decidiram contratar pés-de-pato (matadores de aluguel), para dar fim aos ladrões.

Ao narrar os fatos, Savá apelidou um deles de Escorpião. Dias depois, por uma dessas coincidências da pauta, voltou ao bairro para nova reportagem. Ao descer da viatura de reportagem, foi abordado por um morador, que disse tê-lo visto ali nas quebradas na jornada anterior. Com cara de poucos amigos, e naquele linguajar típico da malandragem, o rapaz colou no ouvido de Savá e contou que era irmão de um dos presos.

-- E aí, parceiro, tudo bem? Eu tô lembrado da sua fuça...

Preocupado com a abordagem inesperada, e meio indelicada para a circunstância, Savá tentou demonstrar naturalidade e não se furtou a um papo na mesma vibe.

-- Beleza, rapá! Você era irmão de qual dos presos?, perguntou Savá, certo de que tinha caído numa cilada.

-- Eu era irmão do Escorpião, mano! O nosso querido Escorpião dançou, parceiro!, disse o irmão do detento, cheio de intimidade com o repórter que dava vida, voz e nome a essa gente que para a sociedade é só uma estatística. Só faltaram se abraçar e chorarem, juntos, o choro dos oprimidos...

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