A homenageada da vez é a repórter-fotográfica Christina Rufatto, não por acaso, aniversariante desde 11 de abril

A homenageada da vez é a repórter-fotográfica Christina Rufatto, não por acaso, aniversariante desde 11 de abril

Esta semana fiz uma homenagem póstuma ao grande repórter Donizeti Costa num momento triste das memórias do saudoso DIÁRIO POPULAR. Hoje, permitam-me contar mais um capítulo daquilo que um dia ainda será um livro sobre os personagens e os bastidores que marcaram a história recente do velho DIPO, hoje Diário de S.Paulo. A homenageada da vez é a repórter-fotográfica Christina Rufatto, não por acaso, aniversariante desde 11 de abril. Lembrar uma de suas histórias no nosso front de batalhas cotidianas é a forma que encontrei de lhe dar meus parabéns.

Fim dos anos 80... Vivíamos todos ali, na rua Major Quedinho, o final dos tempos de glória, quase romântico, do jornalismo paulistano, quando ainda se engatinhava o processo industrial que passou a impor os rigores de uma linha de montagem a um produto que, até então, era feito com certo romantismo e estudada irresponsabilidade _ combinação que permitia, muitas das vezes, que o jornal fechasse quando desse, a que horas fosse... Algo inimaginável nos tempos presentes, desde o dia em que o “seo” Frias criou a máxima segundo a qual “jornal bom é o que chega primeiro nas bancas”.

Apesar da sensação de que a redação vivia sob o regime de um “caos organizado”, o DIÁRIO tinha virtudes que pouco se viam em outros veículos impressos, como uma forte cobertura de cidades, um premiado caderno de esportes e uma incomparável vocação para transformar a cobertura do Carnaval num evento extraclasse. Fosse no sambódromo, acompanhando os desfiles das escolas de samba, fosse nos clubes e boates da cidade, onde ainda resistiam os clássicos bailes de salão, o jornal era uma espécie de diário oficial da folia. E, para dar conta disso, uma grande estrutura era montada na redação para atender a demanda do reinado de Momo.

Da sexta-feira de carnaval à quarta-feira de Cinzas, as edições eram pontuadas basicamente pelas fotografias. Pouco texto e muita imagem, naquela época, era uma fórmula que antecipava esse estilo buzz feed de leitura rápida que seria consolidado pela internet nos sites, blogs e portais. Sorte que a equipe de fotografia do DIPO tinha um timaço comandado por um sujeito de sobrenome alemão que todo mundo conhecia por Peixe. Era no meio deles que Christina Rufatto transbordava talento para captar imagens que, muitas vezes, só se explicavam pelo seu afiado olhar de Capitu _ meio dissimulado, meio revelador, ora inquiridor, ora cativante...

Christina é daquelas profissionais que honram a função de repórter-fotográfico que está impressa no crachá. Jamais se refira a ela como fotógrafa simplesmente. Como a maioria daquele time, ela ia pra rua com uma missão jornalística e não votava pra redação se não tivesse cumprido a pauta. E olhe que naquele tempo não havia máquina digital e os fotógrafos saiam da redação com o número contado de “chapas” disponíveis. Dependendo da importância da pauta, era um filme de 12, de 24 ou de 36 poses... Era isso ou nada...ou tudo! Muitas vezes sendo obrigado a queimar o filme em condições adversas de luz, o que obrigava a truques salvadores no laboratório, como as revelações com 1200 ASA para filmes de 400 ASA _ recurso que, se granulava a imagem, em alguma medida compensava a falta de luminosidade e da proibição do uso do flash.

Sempre tive especial predileção pelo trabalho dos fotógrafos. Ao longo de décadas como editor busquei priorizar o valor da imagem sobre o peso do texto. Talvez tenha sido no DIARIO o editor que mais “abriu” foto nas capas, forçando que cada repórter-fotográfico se esmerasse em trazer o melhor trabalho, o fotograma definitivo. Christina Rufatto gostava de ser assim desafiada. E não foram poucas as vezes em que ela voltou pra redação, editou seu próprio material e montou guarda na mesa da chefia cobrando uma coluna a mais aqui, outra acolá, até se dar por convencida de que sua foto estava aberta no tamanho justo, condizente com sua relevância e com o trabalho que deu para ser captada.

Movida por esse ideal, na rua não havia obstáculos para ela. A maior prova disso é, justamente, uma das coberturas de Carnaval. Bonita, morena, alta, cabelos crespos volumosos, olhar arrebatador e cheia de charme, eis que ela foi escalada para cobrir um dos bailes noturnos do Palace, antiga casa de espetáculos de Moema cuja folia de carnaval parecia embalada, digamos assim, pelo capeta! Para atrair a maior quantidade possível de foliões, a casa contratava garotas de programa que não precisavam de muito esforço para fazer a temperatura subir nos camarotes instalados no mezanino. Em poucos minutos muitas delas estavam sem sutiã, o que causava um certo alvoroço lá embaixo, na pista, onde a maioria masculina se acomodava, sedenta, como uma alcateia de lobos maus à espreita.

Numa das noites mais quentes, Christina deu um primeiro rolê pelo salão para identificar possíveis personagens, testar ângulos mais favoráveis, medir a luz... Ao completar a volta, aproximou-se do repórter (cujo nome não estou autorizado a revelar) que a acompanhava e comentou que tinha sido assediada por um ou dois marmanjos no meio do salão. Cascuda para o ofício, profissional até o último click, não se deixou abalar e foi à luta atrás da “foto da capa”. De novo foi vítima de mãos bobas, gracejos impróprios e até uma aproximação por trás, mais desrespeitosa, que a fez perder a paciência, mas não a galhardia. Altiva, ignorou o galã dado à prática do frotteurismo e, aproximando-se do repórter e, quase num sussurro, disse-lhe ao pé do ouvido.

-Companheiro, vem atrás de mim e me abraça. Pelo menos eu vou ser encoxada por um piu-piu de quem eu conheço!
E segue o baile...

OBS 1: só conto essa história porque antes de fazê-lo pedi permissão a ela.
OBS2: a foto que ilustra esse post é dela, tirada naquela noite. Uma obra de arte concebida no meio de um inferno chamado Palace.

Imagem: Reprodução/Facebook

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