Mesmo com o espetáculo do Santos em campo contra o Goiás, houve quem escolheu ofender a comemorar. Foto: UOL

Mesmo com o espetáculo do Santos em campo contra o Goiás, houve quem escolheu ofender a comemorar. Foto: UOL

Ir a um jogo de futebol domingo de manhã é programa dos mais agradáveis, menos pelo horário em que se acorda (e pelos 17 graus de um rigoroso inverno) do que pelo prazer de ter uma tarde inteira para curtir as horas e os amores. Assim foi ontem na Vila Belmiro para mais de 13 mil torcedores e também para nós, que mais cedo acordamos para transmitir Santos 6 x 1 Goiás: show de futebol que encantou os olhos de todos no templo sagrado de Pelé e Coutinho. Confesso que acordar 6h para o traslado não é tão empolgante, porém o esforço valeu a pena e foi recompensado com um grande jogo, daqueles que viram assunto por dias e salpicam com confetes e serpentinas dias pesados de noticiário, untados com agressões, ameaças e discussões até entre nós jornalistas, que deveríamos dar exemplo.

O estádio Urbano Caldeira virou um jardim florido durante mais de uma hora e meia de um verdadeiro show dos comandados de Jorge Sampaoli; o time funciona tal qual caleidoscópio: Felipe Jonatan é lateral que vira ponta, Victor Ferraz joga como armador, Dérlis González volta para marcar na própria linha, Diego Pituca desfila enquanto lê o jogo, Soteldo é pimenta malagueta que chacoalha defesas. Recital de repertório variado que deixou, em 17 minutos, o Goiás nas cordas e seu treinador - Claudinei Oliveira - numa cara de conteúdo de dar dó em alemão. Em 48 minutos, foram 11 finalizações e três gols, e era apenas o primeiro tempo. A etapa final reservou menos emoções, já que o Peixe mudou peças, esquema tático e desmontou a concentração alvinegra; ainda assim fez mais três, deu um de lambuja aos goianos e encerrou a festa com ola e olé nas arquibancadas. Todos felizes, certo? Errado.

Expoente importante da nossa cultura, o ambiente da bola diz muito sobre nosso inconsciente coletivo; poderia passar dias exemplificando dirigentes que fogem à cortesia, jogadores que esquecem a partida e ludibriam a arbitragem, companheiros de pena e microfone que deixam a frieza à baila para "lacrar" nas redes. São um retrato da sociedade doente em processo acelerado de choque anafilático, infelizmente. Você, amigo (a), acredita que mesmo com a partida ganha e almoço farto, houve quem saísse da Vila Belmiro preferindo agredir a celebrar? Pois sim. Poucos, é verdade; três ou quatro elementos voltaram-se à cabine do Sportv na Vila Belmiro e dispararam impropérios impublicáveis para Vágner Vilaron e Jota Júnior, que estavam a trabalho registrando a luxúria do líder. Cena das mais deprimentes era aquele cidadão de jaqueta de couro preta com as duas mãos à boca projetando forte sua voz vociferando terminologia das mais rasteiras. Mais ainda quando pensei: se ele conhecesse Jota Júnior, se amigo fosse de Vilarón, ficaria envergonhado em plasmar pensamentos de tamanha voracidade.

O narrador do Sportv é dos mais queridos na nossa profissão, comportamento de Lorde, coração afável e sorriso fácil, que leva a vida e o futebol com a temperatura que deve ter, como capítulo frugal da existência de acertos e erros de todos nós. De fã nos tempos de TV Bandeirantes a colega nos tempos atuais, não me lembro de ouvir nada negativo de sua comunicação, pois Jota não tem rudez nas palavras, é cuidadoso com a mensagem e usa para o bem sempre. Gente de qualidade ímpar. Vilaron, da mesma forma, não ataca pessoalmente qualquer ator do futebol em seus comentários; discorde-se ou não do conteúdo de suas análises, não merece jamais ser chamado tendencioso ou radical, a não ser pelo olhar míope daqueles preocupados apenas em encontrar motivos e dar vazão ao ódio próprio. Os agressores verbais não os conhecem pessoalmente, claro, mas deveriam observar a situação e criar uma imagem de si mesmos nesta cena ridícula, em que se ataca gratuitamente dois seres humanos, pais, filhos, irmãos. Para que? Por que? Não há mais motivo; a doença social que vivemos hoje é maior que tudo, que a razão, que a emoção. Aquelas três pessoas perderam minutos preciosos de festa e alegria com os seus para direcionar suas energia para estranhos pelo prazer simples de insultar.

Depois de rápida e triste digressão, voltei-me ao todo da Vila Belmiro de hoje e das tantas oportunidades que tive de estar ali transmitindo grandes jogos do gigante Santos Futebol Clube, aquele que joga com dignidade e com fervor, seja qual for a sua sorte - de vencido ou vencedor. Com técnica e disciplina, dando o sangue com amor, o Peixe hoje lembrou seus melhores momentos, quando um certo camisa 10 e seus súditos derrubavam qualquer esquadrão em seu território, goleando clubes grandes, médios e agudos oponentes de forma impiedosa. O jogo de hoje entrará para o meu cantinho da Saudade, criado por Fiori Gigliotti, como o gol Puskas de Neymar, em 2011, como o pênalti de Léo contra o Vélez, no ano seguinte, como em 2006, numa virada sobre o Juventus (da Mooca) por 2 a 1 num Pacaembu chuvoso - gols do falecido Cléber Santana e de Reinaldo, o primeiro grande jogo que narrei na minha carreira de 15 anos completos na semana passada. Não sou santista de nascimento, nem peixeiro de criação; no entanto, desde que virei narrador esportivo, o Santos vive no meu coração.

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