Ex-piloto, ele organiza o "Mazda Road to Indy" no Brasil". Foto: Thiago Tufano Silva/Portal TT

Ex-piloto, ele organiza o "Mazda Road to Indy" no Brasil". Foto: Thiago Tufano Silva/Portal TT

O ex-piloto Paulo Carcasci, atualmente trabalhando como coach de diversos pilotos nos Estados Unidos e na Europa, falou com exclusividade ao Bella Macchina do Portal Terceiro Tempo, abordando importantes temas do automobilismo, como a formação de novos talentos, as dificuldades para que o Brasil tenha um novo piloto no grid da F1 e o futuro de Felipe Massa.

Paulo Carcasci é o responsável por organizar no Brasil o "Mazda Road to Indy", evento que reunirá kartistas de 15 a 24 anos no dia 27 de agosto no Kartódromo de Interlagos, que levará o vencedor a participar de uma seletiva mundial em dezembro deste ano em Laguna Seca (EUA) , em que o melhor deles terá como prêmio 200 mil dólares, quantia que o bancará por uma temporada completa na USF2000, categoria-escola para futuros pilotos da Fórmula Indy.

Como piloto, Carcasci conquistou sete títulos brasileiros de kart, foi campeão europeu de Fórmula Ford, campeão da F-3 japonesa e também venceu a Gold Cup na F-3000.

Foto: Marcos Júnior

SOBRE O "MAZDA ROAD TO INDY"

Paulo Carcasci: A ideia do "Mazda Road to Indy" é selecionar os melhores pilotos do mundo no caminho para a Fórmula Indy, então essa premiação para levar o piloto desenvolver a carreira dele junto à Fórmula Indy já existe há alguns anos e neste ano de 2016 é o primeiro em que eles abriram o franchising para o mundo inteiro, com seletivas na Inglaterra, França, Alemanha, Nova Zelândia, acho que já estão em 18 países fazendo parte desta seleção, em que mandam os pilotos vitoriosos para a Califórnia, em Laguna Seca nos dias 6 e 7 de dezembro deste ano e ali tem o shoot out com o USF2000 que é o carro fórmula que é a categoria de base deles. O vencedor deste evento ganha 200 mil dólares para correr no ano seguinte na Fórmula USF2000.

 

EVENTO CLASSIFICATÓRIO EM SÃO PAULO

Paulo Carcasci: Uma das coisas importantes, que eu já escrevi do regulamento, é que teremos uma tomada de tempo e duas eliminatórias, tudo em um único dia, 27 de agosto. E nós utilizaremos a pista normal do Kartódromo de Interlagos, os 1.150 metros, porque eu quero que daqui até agosto qualquer piloto que tenha interesse em participar terá essa pista de 1.150 metros aberta para treino, então qualquer um que quiser treinar durante este período terá essa possibilidade, o kartódromo estará aberto todos os dias.

DINÂMICA DA CLASSIFICAÇÃO

Paulo Carcasci: Será uma tomada de tempo que conta ponto, duas eliminatórias que contam pontos e uma final que também conta ponto. Porque uma coisa que não se valoriza tanto é a tomada de tempo. Hoje você vê as corridas de todas as categorias do automobilismo e normalmente quem largou na frente é a quele que ganha. A corrida de carro hoje em dia é definida em 90% das vezes na largada, então quem largou na frente e fez a primeira volta em primeiro normalmente esse é o resultado. Tanto no kart ou nos fórmulas é raro que haja alguma mudança, salvo algum problema, então eu acho que a tomada de tempo tem que ser valorizada já no início, para que o piloto jovem, que está começando no automobilismo, entenda que a tomada de tempo é, sim, muito importante. Não adianta ele esperar chegar na corrida para mudar o resultado, porque não muda muito mais.

QUEM PODERÁ PARTICIPAR

Paulo Carcasci: É aberto para pilotos graduados de 15 a 24 anos, então eu acho que se tiver uns 15, 16, 17 pilotos vai estar muito bom. Qualquer piloto que tenha carteira de piloto graduado da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo). A inscrição poderá ser feita junto à organização, que é da Granja Viana, que vai fazer a prova, com diretor de prova e tudo mais.

EQUIPAMENTOS

Paulo Carcasci: Os motores serão sorteados, eu vou usar os motores do Sérgio Jimenez, da Italsistem, e o piloto poderá trocar, se ele tiver alguma dúvida. O chassi é livre, cada um tem o seu, desde que seja homologado pela CBA. Os pneus serão vendidos no dia do evento, com um único fornecedor e um único tipo de composto. Ainda sobre os motores, eu pedi ao Sérgio Jimenez que ele teste todos os motores na semana da prova, para que aqueles motores que serão sorteados, não precisam ser muitos, uns 25 serão suficientes apesar de mais de 60 disponíveis para que sejam abertos na frente de todos para garantir que são os mais iguais possíveis.

Os motores serão preparados por Sérgio Jimenez, da Italsistem. Foto: Marcos Júnior Micheletti/Portal TT

F1 MUITO CARA

Paulo Carcasci: Sem dúvida a porta dos Estados Unidos é a melhor opção, na verdade praticamente a única opção. Se você pegar as últimas tentativas de pilotos brasileiros para a Fórmula 1, veja só: o Nelsinho Piquet, o pai tricampeão de Fórmula 1, super entendor do assunto, com contatos, dinheiro e tudo mais para mandar o filho para a F1, mandou o filho para lá e ele não sobreviveu, precisou voltar para trás. Um menino que tinha realmente talento, andou bem de F3, GP2 e todos os pré requisitos para andar bem na F1 e acabou não ficando. O Lucas di Grssi, idem. O pai com dinheiro, com conhecimento, experiência internacional em outras áreas e potencial para mandar e manter o filho dele na F1 e não conseguiu fazer. O Razia `bateu na trave´, apesar de ter andado muito bem de GP2 por vários anos

POSSIBILIDADE NA INDY

Paulo Carcasci: Bom, saindo dos brasileiros, um exemplo é o Alex Rossi, que acabou de ganhar as 500 Milhas de Indianápolis e ficou cinco ou seis anos na Europa, quatro deles na GP2, andando bem, ganhando corrida, tendo os Estados Unidos `nas costas´, que tem muito mais possibilidades de patrocínios para a F1, é um desejo enorme do Bernie Ecclestone e da empresa que é dona da F1 fazer a categoria `vingar´nos Estados Unidos e nada melhor do que ter um norte-americano andando bem, fazendo sucesso, não conseguiram. Ele (Rossi) foi para a Fórmula Indy e imediatamente ganhou as 500 Milhas de Indianápolis, Tudo bem que foi um pouco de sorte, mas quanta sorte precisa o Felipe Nasr para ganhar um GP de F1 hoje? Aqueles 80 milhões de reais do Banco do Brasil, mais um ano na Sauber sem a menor esperança de chegar ao pódio, não estou nem falando que vá ganhar corrida, porque seria ainda mais loucura. Então por que um piloto brasileiro que saia daqui pode sonhar com a F1?

Alex Rossi saiu da F1 e venceu em sua primeira participação nas 500 Milhas de Indianápolis. Foto: IndyCar/Divulgação

UM CAMINHO PARA A F1

Paulo Carcasci: Um piloto brasleiro só vai chegar à F1 se fizer como o Sette Câmara, que foi correr de kart na Europa, fica morando lá, corre os campeonatos fortes lá e aí sim, uma Red Bull, como foi o caso dele, pegue e o coloque no seu projeto de pilotos. Ou a McLaren, como fez com o Hamilton, a Ferrari que coloque no programa deles, a Renault, os caras tem mais piloto do que espaço para colocar.  A McLaren tinha o Magnussen que é um piloto fantástico, eles ainda tem sob contrato o Vandoorne, que está correndo no Japão, já mostrou que tem competência, então você imagina um menino saindo do kart e indo para lá, quando não só o talento, mas um monte de dinheiro é preciso para entrar na F1, visto quanto paga o Felipe Nasr com o Banco do Brasil. Na Fórmula Indy, além dos valores serem muito menores, qualquer equipe que tenha lá, claro há um domínio maior da Penske e da Chip Ganassi, mas o Brian Herta, com um estreante, o Alex Rossi, foi lá e venceu as 500 Milhas de Indianápolis. Foram circunstâncias, verdade, mas não interessa, eles economizaram combustível e no final chegaram em primeiro, vencendo a grande corrida do ano.

O brasileiro Sérgio Sette Câmara, atualmente na F3 Europeia, integra o Red Bull Junior Team. Foto: F3 European/Divulgação

TRANSIÇÃO DO PILOTO, DA EUROPA PARA OS ESTADOS UNIDOS

Paulo Carcasci: O oval é simplesmente um aprendizado a mais daquilo que ele já sabe de guiar em termos de carro de corrida, e o oval hoje já não é uma predominância no campeonato da Fórmula Indy, é uma técnica diferente guiar no oval, não é simples, não é fácil, tem que prestar muita atenção, é outro acerto de carro, uma outra estratégia de corrida, então é uma matéria nova dentro do mesmo estudo que é guiar um fórmula.

Foto: Marcos Júnior

RENOVAÇÃO DE PILOTOS BRASILEIROS NA F1 E INDY

Paulo Carcasci: Para o Brasil é realmente um problema grave, se olharmos para este lado de querer ter um piloto brasileiro na Fórmula 1 e Indy, essa é uma matéria longa para discutir, para conversar, mas é inevitável, vai acontecer, porque a gente sabe que não tem nenhum piloto brasileiro batendo na porta da F1 de imediato, assim também na Indy. Acho que o Helinho e o Tony ainda duram um pouco mais de tempo, você vê o Montoya que é mais velho que os dois e brigou pelo campeonato no ano passado, continua andando rápido neste ano. Nesse aspecto, outro ponto importante do "Mazda Road do Indy" é que a seletiva para o piloto vai de 15 a 24 anos. Quando você conversa em termos de automobilismo europeu existe um pré-conceito gigantesco. Se você for falar com qualquer equipe de F1 lá e diz que tem um piloto `novo´de 24 anos eles nem querem conversar. E na Indy, a Mazda vai pagar ou patrocinar um cara que pode ter 24 anos e este pré- conceito nos Estados Unidos não existe em relação à idade do piloto, tanto que tivemos lá o Mario Andretti correndo até os seus 53 anos de idade, o Emerson até os 46, o Montoya com 42 andando na ponta e acho que isso é uma coisa boa também para o piloto brasileiro porque se tiver aquele piloto aqui que diz estar velho com 20 anos e acha que não dá mais para correr, não, dá sim para fazer sua carreira nos Estados Unidos.

SITUAÇÃO PIORANDO

Paulo Carcasci: Eu acho que foi um erro enorme da FIA permitir que um piloto corra com carro de corrida aos 15 anos, eles estão pagando esse preço hoje no automobilismo como um todo, ainda mais com o Verstappen (Max) ganhando corrida com 18 é um custo ainda maior para o automobilismo que eles vão pagar. O kart paga esse preço na Europa e no Brasil, e o automobilismo também, porque o garoto com 15 anos acha que deveria estar correndo e ganhando corrida de Fórmula 3 e com 18 anos acha que é muito velho para correr de carro, e esse piloto dos 15 aos 18 anos acha que está velho para correr de carro e  não corre de mais nada. O Ayrton (Senna) foi para a Europa correr de Fórmula Ford com 21 anos, e hoje o piloto com essa idade acha que é inadequado para começar a correr de fórmula. Eu acho que isso está errado, de permitirem os pilotos a começarem a correr de carro com 15 anos.

MASSA NA RENAULT? PODE SER UM BOM CAMINHO PARA O BRASILEIRO

Paulo Carcasci: Eu acho que o Massa pode apostar em qualquer coisa em que ele tenha oportunidade, porque ele não tem mais nada para perder. Eu acho que o que ele tinha para perder ele já perdeu. Ele está no final da carreira dele, com poucos anos pela frente e não vai faltar talento ele  ser campeão ou habilidade para guiar um carro de corrida. Vai faltar gente com dinheiro e poder para apostar nele, isso é o que vai faltar. Então, se a Renault der oportunidade para ele, apostar no futuro da Renault, vá, porque poucos outros irão apostar nele.

Na opinião de Carcasci, Felipe Massa deve apostar na Renault, caso tenha chance de guiar pela equipe francesa na F1. Foto: Marcos Júnior Micheletti/Portal TT


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