Foto: Ivan Storti/Santos FC

Foto: Ivan Storti/Santos FC

Década de 1990. Eu trabalhava na editoria de esportes do Diário Popular. Mirandinha, que jogou no Palmeiras, Corinthians, Portuguesa, Santos, e no Newcastle, da Inglaterra, voltava ao Brasil, após temporada no futebol japonês.

Fui entrevistá-lo.

O atacante não se limitava às declarações rotineiras.

Gostava de falar.

Já nos conhecíamos.

Pela Gazeta Esportiva, jornal em que trabalhei antes de ir para o Dipo, cobri o Corinthians durante muito tempo.

No Corinthians, Mirandinha era chamado de “fominha” pelos demais jogadores, principalmente por Neto, hoje apresentador da TV Bandeirantes, seu parceiro de ataque. Neto, que já era polêmico, reclamava que Mirandinha não lhe passava a bola.

Mirandinha, por sua vez, dizia que tinha de correr por ele e por Neto, a estrela da companhia.

E era verdade. E não era só Mirandinha que reclamava de Neto.

No elenco, o apelido de Neto era “o dono da sauna”.

“Ganha dinheiro com o suor dos outros”, diziam os colegas de Neto no Timão

Mas essa é outra história.

Na entrevista, perguntei a Mirandinha o motivo de ele ter saído do clube japonês Shimizu S-Pulse.

“Vim embora do Japão porque o Leão, que é o técnico do time, disse que só iria me escalar se eu desse dinheiro para ele. Eu não quis pagar para jogar e preferi voltar para o Brasil”, disse.

Eu falei que a acusação era grave. Perguntei se podia publicar.

“Pode publicar, sim. Eu confirmo”.

A entrevista foi publicada.

Rendeu uma página inteira no Dipo.

Repercuti a declaração de Mirandinha com vários técnicos em evidência na época.

Um deles foi direto.

Perguntou: “Você está gravando esta entrevista”?

“Não”, respondi.

“Se você publicar o que vou falar eu desminto e te processo”

“Todos os técnicos levam dinheiro na contratação de jogadores. E alguns levam também para escalar”, disse.

Insisti: “Todos?”. “Sim, todos, Wladimir”.

Essa história está no livro Esconderijos do futebol, que publiquei, à venda nas livrarias.

Lembrei-me deste episódio ao entrevistar recentemente Andrés Rueda, presidente do Santos. O dirigente disse que em sua gestão, que começou no início deste ano, a maneira de agir do clube nas contratações de jogadores será diferente.

“O Santos não vai contratar o jogador porque o técnico pediu. O jogador indicado pelo técnico, será avaliado pelo clube, que terá um grupo de pessoas capacitadas para analisar o jogador, em vários aspectos. Não será só o aspecto técnico que será analisado. A vida pessoal, o perfil psicológico, tudo passará pelo nosso controle de qualidade”, disse Andrés Rueda.

Cuca ainda era o treinador quando a entrevista foi feita. Então, percebi que Cuca, apesar da ótima campanha feita no Santos, levando o clube ao vie-campeonato da Libertadores da América, não iria continuar no Santos.

Não ficou.

E não se trata aqui de comparar a saída de Cuca do Santos, com a acusação feita por Mirandinha à Emerson Leão. Na época, procurei Leão para que ele se posicionasse a respeito do que Mirandinha havia dito.

O ex-goleiro não quis falar.

Lembrei da entrevista porque no mundo do futebol muitas são as histórias que envolvem o comportamento dos treinadores quando o assunto é a contratação de jogadores.

O caro leitor e a cara leitora certamente concordam que é muito difícil, para não dizer impossível, provar que este ou aquele técnico particiupou financeiramente da contratação de um jogador solicitado por ele.

O fato é que o Santos foi buscar Ariel Holan.

Profissional que dá muita importância à análise de desempenho, Ariel está no Santos desde 22 de fevereiro. Sob o seu comando, o time da Vila Belmiro mostra evolução tática em campo. Melhor: Ariel Holan não usa as entrevistas coletivas para pedir a contratação de reforços, como Sampaoli fazia constantemente.

Repete sempre que pode que veio para o Santos consciente da situação financeira do clube. Foi alertado por Andrés Rueda sobre a fase de penúria que assola a Vila Belmiro.

“Fui avisado pelo presidente de que o clube não pode contratar reforços”, diz.

Cuca, embora tenha trabalhado também com um grupo de jovens jogadores no Santos, também, assim como Sampaoli, não perdia a chance de reivindicar reforços.

Mesmo com o clube impedido pela Fifa de contratar, Cuca abriu as portas da Vila Belmiro para Elias, que depois foi para o Bahia e fracassou, e obrigou o Santos a contratar o zagueiro Láercio, que não agradou e foi para a Chapecoense.

Quando Andrés Rueda falou na entrevista que o técnico do Santos teria de se submeter às análises do clube na contratação dos reforços, argumentei que Cuca não tinha este perfil.

Rueda foi incisivo.

“O combinado não é caro. O Santos vai deixar bem claro que vai agir assim”, afirmou.

No Atlético Mineiro, Cuca pediu a contratação de Tchê Tchê, que estava no São Paulo. Foi atendido. Não é a primeira vez que Cuca leva Tchê Tchê com ele.

Foi assim no Palmeiras e no São Paulo.

No Santos, Cuca não teria estas regalias.

O Santos, além de não poder contratrar por causa da dívida que tem com o Huachipato, do Chile, dono dos direitos federativos de Soteldo, está muito mal financeiramente.

A ordem é prestigiar a garotada da base.

A iniciativa sempre deu ótimos resultados no clube. E tem sido um sucesso em mais um momento de em que as contas bancárias estão em frangalhos.

Ariel Holan, chamado na Argentina de “Professor”, dá sinais evidentes de que vai se adequar às necessidades do clube.

Andrés Rueda percebeu que não teria uma convivência tão tranquila assim com Cuca.

E anda feliz demais com a troca.

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