Falta de repertório escancara a mediocridade da equipe de Carille. Foto: Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians

Falta de repertório escancara a mediocridade da equipe de Carille. Foto: Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians

Na noite de ontem (25/09), o Sport Club Corinthians Paulista enfrentou o Independiente del Valle no Estádio Olímpico Atahualca, em Quito, no Equador. A partida começou às 21h30 e foi válida pelo jogo de volta da semifinal da Copa Sul-Americana. Na partida de ida, ocorrida em São Paulo, o Alvinegro havia sido derrotado por 2 a 0. A missão corintiana de reverter a desvantagem jogando fora, diante de um time muito bem treinado, era bastante complicada. Os 2.850 metros de altitude pareciam ser o principal empecilho no caminho do Timão. No entanto, a maior dificuldade dos paulistas foi a falta de ideias, de repertório ofensivo para construir um placar tal qual os oponentes haviam conseguido há uma semana.

Ninguém duvida de que o Corinthians foi a Quito pensando na vitória e na classificação, correto? Quem assistiu ao jogo, viu um desempenho melhor do que aquele apresentado há uma semana, quando o time de Carille tomou um vareio de bola do Del Valle de Miguel Ángel Ramírez em plena Arena. Contudo, as estatísticas da partida dão margem para contestações sobre o ímpeto corintiano pelo triunfo.

Atenção para os números do jogo, o qual o Corinthians precisava vencer por no mínimo 2 tentos de diferença: O Del Valle, que sustentava a vantagem construída em São Paulo, chutou 11 vezes. O Timão, apenas 8. Das 11 finalizações dos equatorianos, 4 foram em direção do gol. Das 8 finalizações brasileiras, 3 foram no alvo. Agora vamos aos dados mais chocantes. O Del Valle – ostentando a vantagem – ficou com a bola em 61% do tempo, ao passo que o Corinthians – precisando vencer – permaneceu com a redonda em apenas 39%.

Os equatorianos, treinados para terem a bola, para não rifarem, para construírem as jogadas através de toques rasteiros desde o campo de defesa, trocaram 441 passes, com um índice de acerto de 85%. Contrastando com a postura do Del Valle, o Corinthians, que não é treinado para ter a bola, que se apoia num jogo defensivo que tem falhado e que possui um meio de campo infértil, trocou apenas 284 passes, com um índice de acerto de 73%.

Interpretemos esses dados e questionemos: quem precisava da vitória? O Del Valle ou o Corinthians? Olhando os números, torna-se difícil de aceitar que um time que necessita vencer permita que seu adversário fique com a bola em 61% do tempo e troque 157 passes a mais. É uma questão quase lógica: se você precisa vencer, ficar com a pelota na maior parte do jogo aumenta suas chances consideravelmente, por motivos óbvios. Entretanto, o Corinthians de Carille não é capaz de ter a posse e propor o jogo. Por esta e outras razões, está eliminado. Desta vez, o futebol não premiou a mediocridade.

É claro que em dado momento da partida os mais de 30 milhões de corintianos acreditaram na classificação. A equipe de Carille entrou com uma postura diferente, apesar da passividade exacerbada ao deixar o oponente dominar as ações com a bola. O 4-4-2 com Ralf, Ramiro, Pedrinho pela direita, Sornoza pela esquerda e Love se aproximando de Boselli, como um segundo atacante, melhorou o desempenho do ataque alvinegro.

O grande problema foi a postura do time. Esperava-se, devido às circunstâncias, que o Timão ao menos tentasse tomar as ações. Não foi isso que ocorreu. O gol do 1 a 0 sai através de uma roubada de bola de Ralf (que jogou muito bem) no campo ofensivo. Pedrinho abre para Love, que cruza da esquerda e acha Boselli bem posicionado para anotar. Um gol reativo, assim como é o Corinthians.

O “x” da questão era que ser reativo claramente não bastaria no jogo em questão, pois a vantagem continuava sendo dos adversários, que, diante do estilo corintiano, souberam muito bem cuidar da bola, tocar de um lado para o outro e fazer os jogadores alvinegros correrem atrás da bola na altitude de Quito. Na segunda etapa, em um contra-ataque bem encaixado, Sánchez empatou a partida para o Del Valle.

O Timão chegou a recobrar as esperanças quando Avelar sofreu pênalti, já no final da segunda etapa, e Clayson converteu. Restavam alguns minutos para o Corinthians fazer pressão e buscar o terceiro tento, que o daria a classificação à final. Entretanto, para encurralar o oponente, é necessário ter a bola e saber o que fazer com ela. E o time de Carille não sabe o que fazer quando possui a redonda.

Tentativas desesperadas de ligações diretas burras faziam com que a pelota batesse na zaga do Del Valle e voltasse para uma região do campo onde os equatorianos estariam seguros. O Corinthians não foi capaz de colocar a bola no chão e articular jogadas, assim como não vem sendo desde o começo do ano. Nem sequer levar a bola para as laterais e explorar a jogada aérea de Gustavo através de cruzamentos. Em uma das rifadas da zaga alvinegra, os equatorianos recuperaram a bola e chegaram ao gol de empate, com Cabezas, consolidando a classificação à final.

Este é o resumo da ópera: avançou a equipe melhor treinada e que tem como proposta principal jogar futebol, tendo a bola e criando espaços para as finalizações. O pragmatismo, mais uma vez, foi superado pela coragem. Esta coragem, vinda em grande parte do técnico espanhol Miguel Ramírez, prova que uma ideia de trabalho bem executada pode fazer com que times tecnicamente inferiores superem adversários melhores. Que sirva de lição para uma gama de treinadores brasileiros, incluindo Carille, que se agarra a ideias de jogo arcaicas e a um resultadismo cretino. Parabéns, Independiente del Valle!

* Renan Riggo é jornalista esportivo (A Folha Esportiva) e assessor de imprensa da PPress Marketing e Comunicação

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