Parceria quase sobrenatural em campo e coincidência trágica de mortes próximas. A união de Assis e Washington. Foto: Ricardo Ramos/AGIF - retirada do UOL

Parceria quase sobrenatural em campo e coincidência trágica de mortes próximas. A união de Assis e Washington. Foto: Ricardo Ramos/AGIF - retirada do UOL

BRUNO FREITAS E VANDERLEI LIMA
DO UOL, EM SÃO PAULO

A dupla Bebeto e Romário é certamente mais famosa, enquanto a parceria de Pelé com Coutinho é inigualável para quem viu. Mas, no futebol brasileiro, a ligação entre Assis e Washington talvez seja a mais especial. Estes jogadores viveram uma sintonia intensa por dois times diferentes e lideraram os que provavelmente sejam os anos mais felizes do Fluminense. Não se conta a história de um sem o outro.

Mas a compatibilidade transcendeu o esporte, já que ambos cultivaram uma amizade independentemente da bola. Por capricho do destino, a conexão também se vez evidente na morte, com a curiosa e trágica proximidade nas datas de falecimento.

O ex-atacante Washington morreu em 2014 após travar uma longa batalha contra uma doença degenerativa. O antigo meia Assis sentiu o baque da partida do amigo já em suas últimas semanas de vida, vítima de problemas renais.

Para além da vida, Assis e Washington seguem no imaginário do torcedor do Flu, que exalta até hoje a parceria dos anos 80, batizada de Casal 20. Desassociar um do outro é difícil. No auge no futebol e no fim da vida, a dupla esteve conectada.

Apenas 42 dias

Washington César Santos foi encontrado morto na manhã de 25 de maio de 2014, em sua casa, em Curitiba. O ex-atacante lutava contra uma esclerose lateral amiotrófica. Abalado, Benedito de Assis da Silva esteve presente no enterro do amigo. O ex-meia do Flu foi internado dias depois, com problemas renais, e acabou falecendo em 6 de julho do mesmo ano – 42 dias após a morte do ex-parceiro de ataque.

Martírio final de Assis

"Me desculpe, me desculpe, hoje não dá. Outro dia eu falo, mas hoje não consigo"

Essa foi a reação de Assis ao ser abordado por jornalistas durante o enterro de Washington em Curitiba. No entanto, o mais velho integrante da dupla conhecida como Casal 20 jamais se pronunciaria a respeito da morte do amigo. Assis faleceu pouco tempo depois em um hospital da capital paranaense, onde estava internado havia algumas semanas, na batalha final contra problemas renais. O antigo meia tinha 61 anos.

Quarenta e dois dias antes, Assis soube da morte de Washington no Rio de Janeiro, na companhia de seu filho, Gustavo Stella. "Meu pai ficou muito aéreo. Não sabia como proceder, com quem tinha que falar primeiro, onde tinha que ir", relatou. Os dois voltaram para Curitiba para comparecer ao velório.

Dias depois, Assis esteve na sede do Fluminense para uma cerimônia que celebrava os 30 anos da conquista do Brasileiro de 1984. Mas a cabeça do ex-jogador parecia não estar ali. Era sua última aparição pública como ídolo. A organização do evento notou o desconforto do convidado e associou a reação à morte de Washington.

"Ele estava bastante abatido. Até pelos próprios problemas de saúde. Mas naquele evento estava muito abatido. O pessoal vinha me perguntar se estava tudo bem", contou o filho de Assis.

Washington encarou doença rara

Foto: Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Entre dois botijões de oxigênio, enfermeiros e uma parafernália médica, o ex-goleador passou seus anos finais de vida, em Curitiba. No leito, esparramava-se o gigante Washington, de 1,90 m, que três décadas antes encantara a torcida do Fluminense com gols e um sorriso constante. O ídolo morreu com 54 anos.

O drama de Washington começara anos antes, quando sentiu dores nas costas ao jogar bola numa praça. O incômodo insistente levou o ex-atacante a uma série de médicos até que a esclerose lateral amiotrófica fosse diagnosticada. A partir daí o ídolo foi definhando diante da doença degenerativa sem cura, que atinge células do sistema nervoso central e prejudica os movimentos, a fala e o sistema respiratório.

"Ele foi um paciente que, apesar de saber que estava tendo uma deterioração degenerativa lenta, tinha uma expectativa de se manter vivo, porque essa doença em si não causava nenhuma perda de função mental. Ele tinha uma preocupação de ver o filho dele ter o desenvolvimento na vida. Então tinha essa vontade de se manter vivo", relatou Aluísio Mentor Melo Júnior, médico que acompanhou Washington.

Flu promoveu Washington Day

Washington viveu seu último grande momento no Maracanã em 2009. De cadeira de rodas, o atacante reencontrou o palco de seus melhores jogos para uma homenagem antes da partida entre Fluminense e Atlético-PR, quando uma campanha arrecadou doações para o tratamento do ex-jogador. O ídolo se emocionou bastante com os gritos de "tricampeão", em referência aos títulos cariocas seguidos entre 1983 e 1985.

Assis hesitou em entrar no quarto

Foto: Léo Corrêa/Agência O Dia/Estadão Conteúdo - retirada do UOL

LÉO CORRÊA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Desde que Washington descobriu sofrer de esclerose lateral amiotrófica, Assis esteve com o amigo em algumas oportunidades em sua casa, no bairro de Capão da Imbuia, em Curitiba. Mas, na primeira visita, o ex-meia quase travou na sala de estar. O antigo camisa 10 precisou respirar fundo antes de entrar no quarto para se deparar com o amigo já em situação debilitada.

Mas, no fim das contas, o encontro foi mais agradável do que Assis imaginava.

"Ele ficou chocado, mas depois que o Washington começou a conversar já se sentiu em casa", contou Mariliz de Fátima Grande, viúva de Washington.

"Ele (Assis) também não estava bem de saúde, já não estava saindo muito de casa. Reclamava muito para o Washington e dizia para animar ele: `cara, você está melhor que eu, olha como eu tô´", acrescentou Mariliz.

Uma parceira fiel

Foto: Arquivo pessoal

Mariliz de Fátima Grande foi uma valente companheira durante a doença de Washington. Segunda esposa do ex-atacante do Fluminense, a paranaense enfrentou as dificuldades do tratamento junto com o marido.

"Foi muito difícil. Imagina você ver uma pessoa que vai se degenerando aos poucos. Hoje perde os movimentos das pernas, noutro dia perde os movimentos dos braços, aí você não pode mais falar, não pode mais piscar, fica deitado numa cama sem movimento nenhum, mas você sabe e percebe tudo o que está acontecendo. É muito difícil", descreveu a ex-esposa.

Foram 15 anos de parceria até a morte de Washington em 2014. Mas a vida continuou para Mariliz, que, entre os bens, ficou apenas com um carro do casal. Ela recomeçou voltando a morar com a mãe e trabalhando como vendedora.

Morte após descuido do enfermeiro

Washington morreu em circunstâncias dramáticas numa madrugada de sábado para domingo. Em um estágio mais avançado da esclerose lateral amiotrófica, o ex-jogador já não falava e precisava apertar um botão para chamar a atenção dos enfermeiros que o acompanhavam – o ídolo morreu com este botão apertado.

Posteriormente a família de Washington entrou com uma ação contra a empresa responsável pelos cuidados médicos do ex-jogador, alegando erro de conduta. Em primeira instância, a Justiça classificou a situação como um acidente. Mas os advogados que representam a viúva recorreram.

"O enfermeiro dormiu no plantão, aí o Washington pediu por ele, porque tinha escapado o respirador. O Washington chamou, e ele não escutou porque estava dormindo (...) houve, sim, imprudência. Alguém vai ter que pagar por isso
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Mariliz de Fátima Grande, viúva de Washington

Washington sofreu em público. Assis guardou segredo

Foto: Bruno Haddad/Fluminense FC

BRUNO HADDAD/FLUMINENSE F.C.

A imprensa, a torcida do Fluminense e os demais fãs do futebol acompanharam o drama de Washington desde o princípio. Por isso, a batalha contra a doença degenerativa era entendida como um embate de forças desiguais. A notícia da morte foi doída, mas de certa forma esperada. Quarenta e dois dias depois, no entanto, Assis pegou todo mundo de surpresa.

O ex-meia vinha atuando como uma espécie de embaixador do Fluminense, presente em ações especiais com torcedores, dentro e fora do Rio de Janeiro. Mas nem os interlocutores mais comuns no clube conheciam a situação clínica de Assis. Sua morte semanas depois do adeus de Washington foi um choque.

Assis fazia diálise em casa e, assim, não podia se afastar muitos dias de Curitiba. Mas mesmo assim mantinha uma vida praticamente normal. Apenas após a morte de Washington sua situação acabou se deteriorando rapidamente.

"Foi uma escolha dele (de manter a discrição sobre a doença). Meu pai era diabético há uns bons anos, mas era um nível de diabetes tranquilo, controlado. E ele conseguia ter a vida normal dele
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Gustavo Stella, filho do ex-jogador Assis

"Foi um baque para muitas pessoas. Meu pai era uma pessoa muito reservada. Ele sabia separar bem o público do pessoal. Foi uma decisão dele. Nós, família e amigos mais próximos, respeitamos
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Gustavo Stella, filho do ex-jogador Assis

Os herdeiros

Foto: Bruno Haddad/Fluminense FC

Washington Jr. não deu certo na bola

Um dos sonhos de Washington era ver o filho seguindo seus passos no futebol. Júnior até tentou, com passagens por clubes como Atlético-PR e Ferroviária, além de países da Ásia. No entanto, o centroavante não conseguiu ir longe e acabou decidindo trocar os campos pelo trabalho com vendas para sustentar a família.

"Era o sonho dele, sempre me acompanhou. Quando teve os empecilhos com o Mário Celso Petraglia (ex-dirigente do Atlético-PR), tiveram uma discussão. Meu pai queria me ver jogar profissionalmente, tinha outros clubes em vista e começou aquela briga. Comecei a jogar em clubes pequenos, depois veio o diagnóstico da doença, e aí ele não pôde acompanhar mais", afirmou Júnior.

"Ele (Washington) tinha uma preocupação muito grande com o Juninho, para se dedicar aos treinos, não ganhar muito peso, dar sequência na vida como atleta de futebol. Um tempo atrás eu tentei encaixar o Juninho em vários clubes, mas ele vinha de um tempo parado, parece que dois anos, aí ficou difícil de encaixar
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Vica, ex-jogador do Fluminense, amigo de Washington e técnico de futebol

Assis, o filme

Foto: Reprodução

Reprodução

Gustavo Stella acompanhou o pai pelo país durante os anos finais da vida de Assis. Ao registrar bastidores de eventos com sua câmera, aos poucos o jovem foi moldando um documentário sobre o ídolo – que acabaria não finalizado em razão de uma perda de arquivos de computador.

De filho para pai

O encontro em Curitiba

Foto: Reprodução

Reprodução

Assis começou sua trajetória profissional no Juventus da Mooca e perambulou por uma série de clubes do país em busca de uma grande chance. Depois de uma passagem pelo São Paulo, o meia conheceu Washington em 1981, quando ambos estavam no Inter. Na época, o centroavante fazia testes no time de Porto Alegre, mas não chegou a ser aproveitado. O encontro definitivo, então, viria no ano seguinte.

Em 1982, a dupla começou a jogar junta pelo Atlético-PR, onde conquistaram o Campeonato Paranaense duas vezes seguidas e ganharam o apelido de Casal 20 – em menção a um famoso seriado americano exibido na TV Globo.

A grande campanha do Atlético-PR no Campeonato Brasileiro de 1983 chamou a atenção do país para a parceria. Naquela edição do torneio, o time de Curitiba eliminou o São Paulo e só parou na semifinal contra o poderoso Flamengo de Zico (com vitória em uma das partidas). Era o passaporte para voos maiores.

Sobre a idolatria tricolor

Foto: Matheus Andrade/Photocamera - retirada do UOL

Festa no aeroporto evitou fim da dupla

Foto: Bruno Haddad/Fluminense FC

BRUNO HADDAD/FLUMINENSE F.C.

Uma festa da torcida no Galeão em 1983 acabou mudando a história do Fluminense. Um grupo de tricolores partiu para o aeroporto ao saber que o Casal 20 que brilhara no Atlético-PR estava chegando ao Rio para fechar com o clube – na verdade, a intenção inicial era contratar Washington, Assis vinha junto apenas para uma conversa de sondagem.

No entanto, a algazarra da torcida no Galeão influenciou na direção de outro desfecho. Ao pisarem no saguão de desembarque, Washington e Assis foram festejados e ambos tiveram que vestir a camisa do Fluminense e posar para fotos. Os tricolores queriam os dois e não que o Casal 20 fosse separado.

Na oportunidade, um diretor do Fluminense confidenciou aos torcedores envolvidos que a situação deixou a diretoria sem saída: "tivemos que comprar os dois".

Curtindo o Rio com o amigo "Maneca"

Nos anos de auge no Fluminense, Assis e Washington também mantinham uma relação fora de campo, com amizade entre as famílias. Os dois ídolos tricolores moravam próximos no bairro do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Neste momento, entre chopes, jantares e passeios, Assis virou Maneca. Era assim que Washington se referia ao célebre parceiro de ataque.

"Maneca vem do manequim, porque o Assis gostava de se vestir, ele se vestia muito bem. Ele usava muita roupa social, era um cara elegante para a nossa época do futebol. Nós usávamos mais roupas simples, jeans, tênis, essas coisas todas. O Assis andava muito na estica, como se dizia na época", contou Vica, ex-zagueiro do Flu.

"Eles eram engraçados, muito simpáticos, gostavam de pagode, gostavam de músicas. Era um casal perfeito, se entendiam muito bem dentro e fora de campo também. Sempre estavam juntos, tomando chope, conversando ali no (Shopping) Rio Sul, jantando juntos. O Washington parecia uma criança, era o menos sério. O Assis era mais sério
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Romerito, jogador do Fluminense nos anos 80

Emoção dos companheiros

Reprodução

A foto acima mostra o famoso time do Fluminense da primeira metade da década de 80, com nomes como o goleiro Paulo Victor, o zagueiro Ricardo Gomes e o lateral Branco. Washington e Assis também estão nessa, lado a lado, entre os jogadores agachados. A imagem ainda traz dois companheiros que guardam memórias especiais dos amigos: o zagueiro Vica (de pé, o terceiro esquerda para direita) e o meia Romerito (agachado, o primeiro da esquerda para a direita).

Essa geração conquistou o Brasileiro de 1984, com vitória sobre o Vasco na final, além do tri carioca, entre 1983 e 1985. No primeiro deles, com um histórico gol de Assis sobre o Flamengo, no último minuto da decisão. Aliás, a repetição de gols em clássicos contra os rubro-negros valeu ao camisa 10 o apelido de "Carrasco".

"O Washington cansou de fazer gols no Flamengo e o Assis era o carrasco nas finais contra eles. Eles sempre falavam comigo: `vamos deixar o Vasco para o Romerito e nós (Casal 20) vamos ajeitar contra o Flamengo´ 
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Romerito, ex-jogador do Fluminense, sobre a mística do Casal 20 contra o Flamengo

"O Washington estava consciente até o fim da vida. Eu me lembro quando cheguei com a minha família lá, ele se emocionou. Quando eu falo do Washington a tristeza bate, era uma pessoa de um coração muito grande
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Vica, ex-jogador do Fluminense nos anos 80, sobre a morte do amigo Washington

Dois bustos nas Laranjeiras

Foto: Divulgação

Divulgação

Os ídolos dos anos 80 foram eternizados na sede do clube em 2015, graças a um trabalho minucioso de Heitor D´Alincourt, Dhaniel Cohen e Carlos Santoro, historiadores do clube, que batalham pela memória tricolor. Através de um crowdfunding (vaquinha virtual), a torcida viabilizou a produção de um livro sobre o Casal 20, além de medalhas comemorativas e bustos para os jogadores.

A torcida tricolor comprou a ideia e conseguiu levantar o valor total de R$ 197.572. A cifra foi suficiente para arcar com o livro, que conta com quase 600 fotos da dupla, além de textos e documentos especiais. A campanha também viabilizou os bustos, feitos em bronze e localizados atualmente na sede das Laranjeiras.

Consultoria histórica: Dhaniel Cohen e Heitor D´Alincourt (Fluminense FC); Edição: Bruno Freitas; Edição de vídeo: Marcio Komesu; Reportagem: Bruno Freitas e Vanderlei Lima.

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