Testes revelaram algumas dúvidas mas também algumas certezas. Foto: Divulgação

Testes revelaram algumas dúvidas mas também algumas certezas. Foto: Divulgação

Podem me chamar de impostor...

Digo isso pelo pretensioso título da crônica, que pode induzir os apaixonados pelo carteado de que eu sou um expert no assunto, um habituée da prática ...

Na verdade, neste quesito, sou carta fora do baralho.

Até brinquei um pouco de "Cacheta" e "Buraco", jogos que meu saudoso e querido pai me ensinou, aproveitando tardes em Praia Grande, nas férias, sempre que a chuva era implacável e me impedia daquilo que eu mais queria fazer, jogar futebol na "Praça das Cabeças", no campinho onde hoje está a Câmara Municipal ou na areia da praia do Boqueirão.

Lá no Edifício Araújo, na "Praça das Cabeças", cujo nome verdadeiro é Praça da Paz, nosso primeiro apartamento de veraneio, tinha uma turma bacana, vizinhos legais que todas as noites se reuniam em um espaço no térreo e jogavam um jogo de cartas chamado "Sueca". 

E, apesar do nome, parece que é um jogo mais popular em Lisboa do que em Estocolmo.

Eu não entendia nada, mas às vezes ficava ao lado do meu pai, torcendo por ele e aquele com quem ele estivesse formando dupla, normalmente o "Seu Zé do 3".

A gente o chamava assim porque seu nome era José, português legítimo dono de uma padaria, pai do Luiz (Espigão) e do Ricardo, e proprietário do apartamento 3, no térreo. Ele tinha um Opala azul quatro portas com câmbio na coluna de direção e antena elétrica, um luxo naquela época. O nosso apartamento era o 34, no terceiro andar.

Meu pai, durante os anos de Araújo, teve dois carros: um Corcel LDO vermelho jambo 74 e um Corcel LDO areia casablanca 77, ambos tirados "zerinho" na Lemar, concessionária Ford do Jabaquara.

Lembro de vários moradores.

Outro português, seu Adérito e a dona Maria tinham um filho, o Mário. A dona Maria guardava os pãezinhos que sobravam da "Peg-Pão" na geladeira. Depois esquentava no forno, dizia que ficavam tão bons como se tivessem acabado de sair da padaria. Os pãezinhos da "Peg-Pão" foram os melhores que eu comi na minha vida.

O síndico, durante muitos anos, foi o seu Casemiro, um espanhol que era parecido com o Vicente Matheus, fisionomicamente e no jeito de falar. Sua mulher tinha um nome horroroso, Onorina. Eles, donos do apartamento 12 e de um Opala verde com teto de vinil branco (lindo demais), jogavam "Buraco" e sempre em dupla. Meu pai desconfiava que eles trapaceavam, e um dia vi ela passando uma carta para ele por debaixo da mesa. Claro, contei para o meu pai.

Falando em espanhol, tinha um que era muito amigo do meu pai, o Paco. O Paco foi, pra mim, durante um bom tempo, o cara mais importante do prédio depois do meu pai.

Isso porque a filha dele, a Lucy, era a menina mais linda que eu tinha visto na vida, entre meus 9 e 11 anos de idade...

Loira de cabelos cacheados e olhos verdes como os meus.

Se eu pudesse, teria casado com ela. Aos 12 anos...

A figura mais legal do Araújo era o "Seu" Luiz, o zelador, aquele tipo de pessoa que resolvia qualquer problema, hidráulico ou elétrico e muito bom de conversa.

Eu era o caçula da garotada e me divertia com os mais velhos, que sacaneavam o Seu Luiz. Ele só fumava cigarros de palha e costumava deixá-los em cima dos bancos, no térreo, para fumar depois de resolver qualquer pendenga no apartamento de algum morador.

Aí, quebrávamos cabeças de palitos de fósforo e colocávamos dentro dos seus cigarros de palha. Quando ele acendia era uma labareda das boas. Ele, ao invés de brigar, gargalhava com a gente.

O filho do Seu Luiz, o Nonô, era o melhor jogador de futebol que eu tinha visto de perto na minha vida. Ele chegou a fazer teste no Santos e não sei porque não "vingou".

Acho que sei. Ele era meio indisciplinado e fumava demais, uma pena. Mas, em frente ao nosso prédio, no campinho onde hoje está a "Praça das Cabeças", ele "arrepiava", jogava fácil demais, carregava o time nas costas.

No apartamento 25, no segundo andar, tinha uma família muito legal. Lembro bem do Fernando e do Paulo, dois dos filhos do casal daquele apartamento, também de origem portuguesa. Eles eram metidos a inventores, sempre tinham alguma novidade nas suas bicicletas e brinquedos.

Um dia eu estava na parte da frente do prédio, havia uns bancos de cimento ali, e o Paulo chegou a pé, já era noite, com uma  mala e uma sacola na mão, vindo da rodoviária, que não ficava muito distante dali.

Na sacola estava sua bicicleta preta... Ele a trazia toda desmontada, mas rapidamente juntava as peças para andar em cima da mureta que cercava o prédio, junto à calçada, uma loucura que eu nunca tive coragem de fazer com minha "Monareta".

Um dos dias mais tristes da minha vida foi quando eu soube que meu pai tinha comprado outro apartamento na Praia Grande, maior, e deixaríamos o Araújo, nosso prediozinho querido de três andares e sem elevador para um outro, também de três andares e sem elevador, o Gianini, na rua Bahia.

O Gianini teve lá seus dias de glória pra mim, principalmente quando eu vi a Adriana pela primeira vez e, um dia, assistimos juntos e de mãos dadas um filme no Cine Yara. Eu tinha 13 anos.

Acho que nunca senti um frio na barriga como o daquela noite saborosa, sem um único beijo, apenas de mãos entrelaçadas.

Gastei estas linhas todas só pra falar de Fórmula 1...

Para dizer do embaralhamento danado das "cartas" que foi essa pré-temporada, em Barcelona.

Oito dias com a certeza de que a Ferrari tem o melhor carro e a Williams o pior.

Oito dias com a desconfiança, quase certeza, de que a Mercedes vai se aproximar da Ferrari nas classificações mas vai tomar um "pau" nas corridas. Pelo menos neste começo de campeonato.

A desconfiança de que Vettel e Leclerc podem dividir a Ferrari a ponto de que uma "terceira via", provavelmente a própria Mercedes, possa se beneficiar, a exemplo do que aconteceu com a McLaren em 2007, com Alonso e Hamilton se engalfinhando e o azarão Raikkönen lambendo os beiços pelas beiradas para ser campeão.

O alívio, porque admiro demais os japoneses, de que a Honda finalmente parece ter resolvido os problemas mais agudos de seu motor, o que anima a matriz Red Bull e sua filial Toro Rosso, embaralhando o meio do pelotão que deve ter bem pertinho a McLaren, a Renault e a Alfa Romeo.

A Racing Point (que nome horrível para quem já viu equipes batizadas de Ligier, Tyrrell, Jordan, Brabham e Minardi, entre outras, alinharem no grid da F1), deve beliscar alguns pontos de vez em quando, mas dificilmente Pérez ou Stroll subirão ao pódio, para alegria de alguns que acham que meninos não devem vestir rosa...

Em performance, talvez um degrau abaixo, quase o mesmo pode-se dizer da Haas, que para compensar tem um carro bem bonito.

Na Austrália, dia 17 de março, começa a temporada e, ao término das 58 voltas, saberemos se de fato as cartas estavam embaralhadas mesmo e se alguém tinha um "zap" na manga.

Não sei jogar "Truco", mas pelo que lembro do meu pai dizer, parece que o tal do "zap" é algo bom no meio daquela gritaria toda desse jogo em que um fica xingando o outro de ladrão, em pé, em cima da mesa.

Falei menos de carros do que das minhas lembranças praianas. No fundo, de fato, elas são bem mais importantes, claro.

Às vezes sinto uma saudade danada do Araújo e do Gianini, nossos prediozinhos.

E, claro, da Lucy e da Adriana.

E de uma outra, que conheci bem depois, cujo nome é a mistura dos dois dessas lindas meninas...

Deixa pra lá...

O Edifício Araújo, na "Praça das Cabeças", no bairro do Boqueirão, na Praia Grande. Foto: Reprodução/Google Maps

 

O Edifício Gianini, na rua Bahia, Praia Grande. Foto: Reprodução/Google Maps

 

 

O Cine Yara em Praia Grande, depois transformado em igreja evangélica. Foto: Reprodução/Google Maps

 

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