Lembranças dos tempos áureos do jogo de botão contrastam com a complexidade dos sistemas e movimentações do novo futebol; culpa dos videogames. Foto: arquivo pessoal

Lembranças dos tempos áureos do jogo de botão contrastam com a complexidade dos sistemas e movimentações do novo futebol; culpa dos videogames. Foto: arquivo pessoal

Da janela do apartamento, sorvo um gole do meu chá de gengibre com quatro bolachas água e sal (regime, sabe como é) enquanto olho as poucas árvores que sobraram na rua de paralelepípedos; ainda é possível, às 7 da manhã, ouvir poucos passarinhos dando o ar da graça por aqui. Cenário perfeito para reflexão e pensamentos sobre o ontem e o hoje, sobre as resenhas e análises que tentam decifrar os caminhos do futebol atual e suas muitas tendências. Aqui, adianto, não vai crítica ou dicotomia sobre terços do campo, falso 9 ou coisas do gênero; pelo contrário, louvo e aprendo diariamente com quem tem visão e capacidade analítica para entender flechas e funções nos gramados do mundo. Apenas uma verve saudosista que me ataca de forma repentina.

Embora seja entusiasta dos games e seus simuladores malucos de futebol, hoje eu parei pensando como era nos tempos áureos do futebol de botão. Tinha mais de 100 times numa caixa de papelão lá no Capão Redondo, zona sul de São Paulo; agremiações de todas as divisões e estados do Brasil (não tínhamos distintivos do exterior no meu tempo, há 30 anos). Com um bom caderno dos grandes à mão, tabelas anotadas com canetas Bic (olha o merchan, Milton Neves!), vinhetas da Rádio Globo gravadas numa fita cassete num “Três em um” com toca-fitas igual aos de carro com o ponto marcado na tecla “pause”. Enquanto aplicava a tabelas e regulamentos criados por mim, brincava de treinador, jogador e narrador - tudo ao mesmo tempo. 

Os dois times espalhados no “estrelão” (nome que dávamos ao nosso campo de jogo” com os esquemas táticos que via na revista Placar daquela semana. Porém, é curioso lembrar que as formações dos times não eram manchete nos jornais até a Copa de 1990, para fazer um recorte histórico. Lateral era defensor, havia o zagueiro da bola e o da sobra, volante era basicamente marcador, o meia era o craque do time, os dribles ficavam a cargo do ponta e os gols com o artilheiro, dono da camisa 9. Os talentos eram medidos em situações muito definidas do jogo, com análises mais individuais do que coletivas pelos comentaristas; mesmo as críticas ou elogios coletivos eram feitos com o olhar generalista e sensação de torcedor. A partir do Milan de Arrigo Sacchi e sua versão mal imitada do Brasil de Lazaroni, no Mundial da Itália, os três zagueiros, o líbero e os laterais “liberadores” introduziram a estratégia do jogo com mais minúcias na cobertura esportiva.

Hoje o futebol de mesa (até o velho botão mudou de nome) ganhou sua versão 2.0 nos simuladores de futebol, que te colocam como jogador dinâmico num estádio virtual, e nos oferecem a responsabilidade de dirigir um clube em todos os seus departamentos. A televisão ganhou novos recursos gráficos e de análise de dados pelos computadores deu novas diretrizes e informações que mudaram o jogo. Se antes bastava dizer que fulano está bem ou mal, agora é preciso uma multidisciplinaridade cruel com o torcedor. O Zé do bar não tem uma ferramenta de “scout” (dados numéricos de passes, assistências, mapa de calor etc) para avaliar todas as valências do seu craque preferido. Tampouco o “Espiga”, quando vai à Arena Corinthians, consegue entender o que é um volante com passe capaz de “quebrar linhas”. Para estes, que são o pilar do espetáculo, torcer uma operação simples de duas tarefas: enquanto ele pula e grita, os jogadores correm e dão carrinhos pelo seu clube do coração. 

Perdoem-e o saudosismo gratuito de uma terça-feira de futebol, já ofereço as costas às chibatas dos defensores do atual modelo, ponderando novamente que não é crítica a nenhum dos grandes companheiros (muitos, meus amigos) que militam nesta forma de ver o jogo. Apenas considero que, se para mim, que vivo da emoção do jogo, já é difícil processar tantas informações e leituras de jogo, fico imaginando como é para você, leitor, que apenas paga - e não recebe - para torcer pela vitória do seu time. Não deve ser fácil. Assim, deixo minha pílula saudosa de um passado já um pouco distante. 

Ah…terminei de baixar a demo do Fifa 2020. Vou jogar um pouquinho. Até a semana que vem.

Legenda: Estádio Passo D`Areia, em Porto Alegre, casa do São José, que chegou às quartas-de-final da Série C.

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