Há uma evidente má vontade e uma virulência descabida contra jogador

Há uma evidente má vontade e uma virulência descabida contra jogador

Por Airton Gontow
De Olho na Copa – direto de Gontowsky

Só a Rede pode salvar Neymar das Redes.

Só chutes certeiros podem furar a rigidez com que as Redes Sociais (ou Anti-Sociais) julgam o craque brasileiro na Copa.

Além dos gols, os dribles, desde que aliados à conquista do título, têm o poder de comprovar o óbvio: a arte maior do camisa dez da Seleção está muito longe de ser a da interpretação.

É um grande artista do futebol!

Há uma evidente má vontade e uma virulência descabida contra jogador.

Nas últimas duas rodadas, talvez devido ao estúpido cartão amarelo recebido precocemente - o que também aconteceu na Copa de 2014 - Neymar teve um comportamento exemplar. Jogou calado, não discutiu com os companheiros, não se jogou no chão, se levantou rapidamente após as faltas sofridas e não reclamou nem dos juízes nem dos adversários, apesar de ser o jogador mais caçado em campo.

Contra o México, foi duas vezes agredido sem a bola. Na segunda delas, ao receber um pisão fora do gramado, provavelmente exagerou na dor. Mas poucos jogadores não abusariam do contorcionismo para deixar claro que foram agredidos.

As Redes Anti-Sociais não ficaram indignadas com a agressão. Poucos protestaram contra o juiz, que nem amarelo deu ao agressor. O ex-goleiro dinamarquês Peter Schmeichel, pai do atual goleiro Kasper, chegou ao disparate de pedir que a Fifa punisse o agredido. A tirania do politicamente correto deixa as visões entorpecidas. Opiniões semelhantes foram ouvidas de jornalistas em diversos países.

A luta vencendo o futebol!

A arte derrotada pela violência!

– É muito irritante de assistir. A maneira com que ele tenta forçar cartões nos adversários. Parecia que ele estava morrendo. Pensei que ele seria colocado numa maca, então numa ambulância, e nunca mais o veríamos de novo – afirmou o ex-arqueiro.

Realmente Peter não viu Neymar sair de maca nesta competição. Mas assistiu na Copa passada, quando o jovem Neymar foi afastado da semifinal ao sofrer uma joelhada do colombiano Zuñiga. Viu Neymar na cama. Viu Neymar na ambulância. E por pouco deixou de vê-lo para sempre, já que os exames atestaram que poucos centímetros salvaram Neymar de estar inutilizado para o futebol.

Após ser alijado da Copa anterior, Neymar viu-se ameaçado de ficar fora também da Rússia. Contundiu-o que estava voando no PSG. Ficou três e meio afastando, treinando e levando o treinamento a sério e voltou, evidentemente longe do auge técnico e tático.

Exagerou sim nas quedas nas primeiras duas partidas, mas mudou de postura nas seguintes. Mas mudaram os adversários que continuaram a caçá-lo em campo. Mas não mudou a passividade dos árbitros, econômicos nos cartões. Mas não mudou a cumplicidade de treinadores. O técnico do México, Juan Carlos Osório, chegou a dizer, diante do pisão, no tornozelo machucado, fora de campo, com Neymar no chão, que “futebol deve ser um jogo viril, de homens, de contato, e não com palhaçadas”.

Vou repetir aqui, mas atualizados, os números que usei antes da terceira partida de Portugal quando Cristiano Ronaldo tinha quatro gols em dois jogos e havia tanto baba-ovo para o craque português. O notável gajo fez sua quarta Copa do Mundo. Tem 17 jogos. E sete gols marcados. Menos de 0,5 por partida (0,41). Dois desses gols foram de pênalti. E um em um frango memorável do goleiro. Em 2006, fez um gol em seis jogos. Em 2010, um em quatro partidas. Em 2014, mais um, em três jogos. E em 2018 quatro. Não fez nenhum gol, nas quatro edições do principal torneio do mundo, nas fases de mata-mata. Em 17 jogos, Cristiano Ronaldo deu uma assistência para gol. Uma!

Outro “gigante”, Leonel Messi, tem desempenho ainda mais tímido. São 19 jogos e apenas seis gols. Média que gira em torno dos 0,3% gols por jogo (0,31). Assim como Cristiano, não marcou um único gol em fases de mata-mata. Conhecido também por seus passes mágicos, La Pulga ao menos supera CR7 neste quesito. Deus deu três assistências para gols em quatro copas disputadas. Messi fez um gol em três partidas da Copa em 2006, nenhum em cinco jogos em 2010, quatro na Copa do Mundo do Brasil (quando foi eleito o melhor jogador, injustamente, já que o melhor da competição foi o holandês Robben e o melhor argentino, Mascherano) e unzinho – golaço - na Rússia.

Neymar dos jogos fáceis, Neymar cai-cai, fez seis gols em nove jogos. No quinto, foi violentamente tirado da Copa de 2014, quando fez quatro gols. Talvez marcasse mais alguns, não tivesse sido alijado da competição. Está com média de 0,66 gols por partida. Mesmo com menos partidas tem o mesmo número de assistências de Messi: três. Ao contrário de Cristiano e Messi, Neymar já tem um gol marcado em mata-mata, na última partida, contra o México.

Tem que ter muita inveja ou não saber nada sobre futebol para resumir Neymar a um “cai-cai”. Se você é assim, não caia nessa.

Neymar é pipoqueiro? Não vai bem em jogos importantes?

Foi campeão paulista em 2010, 2011 e 2012! Em 2010, foi eleito o melhor jogador do torneio. Em 2012, foi artilheiro, com 20 gols em 16 partidas. Ainda em 2010, foi campeão da Copa do Brasil, eleito o craque do campeonato e o artilheiro da competição, com 12 gols em oito jogos. Fez gol na primeira partida da final, contra o Vitória.

Competições nacionais não importam?

Em 2012, Neymar tirou o Santos do longo jejum sem títulos da Libertadores. Foi eleito o melhor jogador do torneio. Foi também o artilheiro, com oito gols em 12 jogos, um deles na grande final, contra o Penharol.

Não daria certo na Europa?

Seria uma nova edição de Robinho e Denílson (ambos, aliás, ótimos jogadores)? Rapidamente se tornou ídolo do Barcelona. Foi importante nas conquistas do bi espanhol em 2014-15 e 2015-16; da Copa do Rei 2014-15, 2015-16 e 2016-17; do Mundial de Clubes em 2015. Na Liga dos Campeões de 2014, foi o artilheiro, em 10 gols em 12 partidas. Em 2017, mesmo sem conquistar o título, assombrou o mundo a liderar o Barcelona na grande virada contra o Paris Saint-Germain.

Pouco depois, foi contratado pelo time francês, na mais cara transação até hoje no futebol mundial.

Neymar não atua bem pela Seleção Brasileira?

Já é o quatro maior artilheiro da história da Seleção Brasileira: atrás de Pelé, Ronaldo e Zico. Foi eleito o melhor jogador da Copa das Confederações no Brasil, em 2013. Marcou, na final, contra a Espanha. Nos Jogos Olímpicos do Rio, Neymar liderou a Seleção Brasileira ao primeiro ouro da sua história. Na final, contra a Alemanha, fez o gol durante a partida, que terminou empatada em um gol e bateu o último e decisivo pênalti.

Apesar de tantos méritos e conquistas, a história de Neymar na Seleção Brasileira, ao menos durante os próximos quatro anos, dependerá muito do que acontecer no jogo de hoje e, o Brasil avançando, nas partidas seguintes desta Copa. Lembremos do gênio Diego Armando Maradona. Expulso em 82, na derrota de 3 a 1 para o Brasil, após violentíssima entrada no volante Batista! Duas finais em Copas do Mundo, ambas contra a Alemanha, e nenhum gol marcado (Pelé fez três em duas finais – dois contra a Suécia e um contra a Itália)! Perdeu um pênalti na decisão das quartas-de-final contra a Iugoslávia na Copa de 90, na Itália. A Argentina só não foi desclassificada devido à atuação exuberante de Goycochea, um dos maiores pegadores de penalidades da história da competição. Autor do famoso gol com a mão – La Mano de Díos - em 86, nas quartas-de-final, diante da seleção inglesa, que teria sido anulado pelo VAR se fosse nos dias de hoje. Afastado por dopping em 94! Mas Maradona é, com todos os méritos e justiça, lembrado pela conquista da Copa de 86, quando “sozinho” levou a Argentina ao título, especialmente pelas suas duas atuações monumentais, e veja que notável possibilidade de coincidência histórica, contra a Bélgica (adversária brasileira de hoje) e a Inglaterra, que pode ser a rival na decisão da Copa deste ano).

Se o Brasil não chegar ao título, Neymar será mais criticado que Jesus (o atacante, que fique claro). Se ganhar, será novo Rei do futebol mundial. Desde que o mundo é mundo, tudo é esquecido e perdoado para os vencedores. The winner takes it all!

Airton Gontow é jornalista, cronista e diretor do site de relacionamento Coroa Metade. Está cobrindo, com mix de papo sério e tentativa de bom humor, o Mundial direto da cidade Gontowsky, onde a situação está geralmente russa. A viajou a convite da Air Town.

Foto: CBF

 

 

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