A rotina deste colunista, em plena quarentena, sem jogos reais para narrar e muitas questões para responder

A rotina deste colunista, em plena quarentena, sem jogos reais para narrar e muitas questões para responder

O celular não despertou pelo terceiro dia; não era preciso. Abro os olhos e busco o telefone para ver a hora: são 8h40, quando olho o teto e penso no que fazer em mais um dia de isolamento. Ligo a TV e há uma enxurrada de informações sobre o coronavírus e seus perigos em todos os canais, inclusive os esportivos. Em meu WhatsApp, pipocam nos grupos de trabalho informações sobre torneios cancelados e adiados, o último foi o Turco, o que vinha narrando pela RedeTV!; a preocupação é geral - com a saúde, mas também com o futuro. Como falar sobre esportes se eles não estão acontecendo? Como ser ÚTIL? Pergunta que chega a provocar dor, embora empurre à reflexão.

Tomo café, pego um livro de crônicas e leio João do Rio, num texto primoroso - escrito em 1910 - sobre o "Homem Superior", uma espécie de visão futurista do cidadão moderno e sua vida frenética com menos tempo e mais cobiça por poder e dinheiro. Fruto do empuxo tecnológico dos anos… 1920! Vale muito para os dias atuais. Uma oração, pedindo que tudo isso passe rápido e força a todos nós que perderemos algo com tudo isso…. Pego o celular e vasculho os feeds das redes sociais, anestésico que faz o tempo passar, comentários, disputas políticas, Big Brother Brasil, coronavirus… desisto. Como serei ÚTIL, Deus meu? Até quando as mensagens de otimismo e as brincadeiras virtuais vão manter a minha sanidade mental? Como ficar meses sem fazer aquilo que mais amo: narrar esportes?

Poderia ficar narrando minhas atividades - poucas, é verdade - para extrair um sorriso, como fez um talentoso locutor argentino que viralizou nas redes. Talvez postar stories estéreis com meu ambiente familiar, gritar gols antigos frente a câmera, inventar partidas, ligo o PS4 e escolher entre o eFootball PES 2020 e FIFA20 qual diverte mais e sair falando. Em algum momento farei essas coisas, mas hoje quero PARAR e refletir sobre o que o OUTRO precisa. Abro o aplicativo de mensagens; chamo meus chefes e pergunto se precisam de algo. Todos gerenciando demandas de suas casas, tocando a vida.

Almoço, volto para casa e para os remédios. É preciso ficar bom depressa e seguir pensando em como auxiliar as pessoas nesta fase tão difícil. Desesperança, aflição e preocupação estão disponíveis no atacado e no varejo; não precisam da produção deste locutor. Daqui então vou construir a mensagem que faz de nós, narradores esportivos, porta-vozes da alegria, da emoção vibrante, das grandes histórias de vida que o esporte conta, mesmo que não haja exemplos vivos e reais, por enquanto.

Hora do colírio, aquele de seis em seis horas (o de três em três eu já pinguei? Não me lembro). Depois, compressa com 40 pares de gases até o final do dia. É preciso seguir em quarentena até semana que vem, se Deus quiser.

Bendita conjuntivite!

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