A tensão da torcida corintiana no Pacaembu no duelo diante do Vasco, válido pela Libertadores de 2012. Foto: Reprodução/Globo

A tensão da torcida corintiana no Pacaembu no duelo diante do Vasco, válido pela Libertadores de 2012. Foto: Reprodução/Globo

- E aí, mano. Vai ao jogo amanhã?

- Claro! Já estou com o ingresso na mão. 

- Boa! Vai de arquibancada amarela, né?

- Que nada… Só consegui tobogã… 

- Porra, que merda…

O diálogo acima foi inventado por mim, é claro. Mas eu aposto que ele deve ter sido repetido inúmeras vezes por torcedores dos times paulistas nas últimas décadas. Principalmente pelos corintianos, já que o Pacaembu foi a casa Timão, mesmo que alugada, por quase 75 anos. 

Sim, o que quero dizer é que o tobogã era o setor menos cobiçado para se assistir um jogo no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. Acontece que as torcidas organizadas ficavam nas arquibancadas - principalmente na amarela -, e o setor localizado do outro lado do campo era considerado como o lugar do “torcedor fanfarrão”. Aquele que raramente ia ao estádio, que não sabia cantar as músicas entoadas e que insistia em gritar gol antes de a bola entrar - que raiva!

Por isso, quando começava a venda de ingressos para os jogos do Corinthians, você tinha que voar para comprar arquibancada. Se “moscasse”, só lhe restaria o tão desdenhado tobogã. 

E os ingressos para o tobogã também eram geralmente os que sobravam nas mãos dos cambistas horas antes do jogo. Então, se você chegasse na Praça Charles Miller pouco antes de a bola começar a rolar, só conseguiria comprar entradas para o setor em questão e desta maneira, digamos, irregular. Assim como irregular também era comprar uma cerveja de um ambulante na porta do estádio - e meter a boca na lata sem preocupação alguma de passar álcool para matar qualquer tipo de vírus ou bactéria presente no isopor carregado pelo trabalhador. Mas todo mundo fazia com a mesma inocência do Zeca Pagodinho descobrindo dias desses por uma repórter que o jogo do bicho é ilegal. 

Bem, e por ser um torcedor comum, sem nunca ter me envolvido com torcida organizada - que tinha privilégio na compra dos ingressos de arquibancada -, incontáveis vezes assisti ao meu Corinthians lá do pouco desejado tobogã. Ficava com um olho no campo e outro na arquibancada amarela, para ver a festa que a torcida estava fazendo e que eu estava perdendo do outro lado do campo, ao lado de uma família que a cada chegada do Timão começava a gritar “gol, gol, gol, gol…”. Sai, zica! 

E me lembro pelo menos de três jogos extremamente marcantes que assisti em tal setor do Pacaembu. Foi lá onde vi o Vasco da Gama vencer o Corinthians por 1 a 0, gol de Alan Kardec, em 2007, quando deixei o estádio com a certeza de que o Timão seria rebaixado. No tobogã também vi no ano seguinte o Alvinegro vencer o Ceará por 2 a 0, garantindo assim o retorno à Série A do Brasileirão. E foi onde também acompanhei outro duelo diante do Cruzmaltino, este em 2012, pelas quartas de final da Libertadores da América. O placar também foi de 1 a 0, mas dessa vez para a equipe paulista. Sem sombra de dúvidas, o jogo da minha vida. 

Neste 23 de maio de 2012, para não correr riscos, cheguei bem cedo ao tobogã e, sentado em um ponto em que eu sabia que não teria tantos problemas, acompanhei calado e sozinho - sim, pois meus amigos tinham comprado arquibancada amarela - a metamorfose do estádio. As arquibancadas lotando, as chegadas dos “VIPs" à numerada, o aquecimento dos goleiros, a movimentação das equipes de imprensa no gramado, a entrada da barulhenta torcida visitante… Foram duas horas, mas as lembranças desse pré-jogo são tão vivas que tenho a sensação até de que tudo aquilo durou um dia. 

E é claro que durante o jogo o nervosismo só aumentou. O Vasco tinha um time muito bom e foi o adversário mais duro do Timão na campanha vitoriosa da Libertadores 2012. Passei a partida inteira quieto, sem reação, com os punhos cerrados e nervoso como nunca estive. 

Até que, aos 42 minutos do segundo tempo, Paulinho marcou o gol que me fez desabar. Não sei o que me deu mas, assim que a bola estufou as redes de Fernando Prass, perdi as forças das pernas e caí no piso do tobogã como um saco de batatas. Com o setor extremamente lotado e com o empurra-empurra causado pelo tento anotado pelo volante, algumas pessoas caíram por cima de mim e outras acabaram, sem querer, me pisoteando. 

Mas, quando o desespero bateu de verdade, um grupo que claramente nunca tinha ido ao estádio - dava para perceber pelas vezes que me irritaram gritando “gol” antes de a bola entrar - interrompeu a sua comemoração para me ajudar a levantar. Quando os integrantes da tal comitiva perceberam que eu estava bem, me colocaram em seus ombros - tarefa ingrata, já que a "criança" aqui pesa 100 quilos - e deram sequência à comemoração, fazendo com que eu me sentisse como autor do gol. 

Eu nunca vou me esquecer daquele dia. Eu nunca vou me esquecer dos desesperadores segundos em que fui pisoteado. Eu nunca vou me esquecer daquela família que me salvou. Eu nunca vou me esquecer da sensação de comemorar o gol do Paulinho erguido por eles. E eu nunca vou me esquecer de você, querido tobogã do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. E mil desculpas se um dia desdenhei de você… 

Na foto em destaque, você confere o registro deste dia. Nela, você percebe a minha tensão durante o jogo, mas infelizmente a família que me ajudou estava mais à esquerda. 

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