Neymar celebra classificação do PSG sem os torcedores; qual a graça? Foto: Divulgação / redes sociais PSG

Neymar celebra classificação do PSG sem os torcedores; qual a graça? Foto: Divulgação / redes sociais PSG

Quarta-feira, nove da noite; nos arredores do estádio apenas concreto, armado com medo; entre postes e calçada, um sopro de vento levanta do chão um folheto do programa da partida, que levita aberto com o rosto do personagem do jogo. Bilheterias vazias, sem vendedores; não há ingressos, mas há jogo. Faltam 30 minutos e o vazio já é rotineiro num mundo em que asfalto e cimento convivem em total harmonia – e silêncio.

Lá dentro, nos vestiários, o som é seco, do bater de travas das chuteiras dos jogadores que se vestem para o cotejo. O risco do palito de fósforo que ascende o altar de Nossa Senhora se confunde com as palmas do preparador físico que agita o grupo para o aquecimento. “Vamos lá, rapaziada. Temos 15 minutos!”. O goleiro e o lateral direito cochicham à beira da escada que leva ao gramado, enquanto o treinador se cala no canto com a prancheta na mão, pensando o jogo – em silêncio.

Batida forte do solado espinhoso dos “pisantes” soa profundo nos degraus da escadaria. Todos olham para baixo, receosos de uma torção inesperada – todo cuidado é pouco. Aos poucos, a claridade toma espaço junto ao breu dos vestários. O capitão conduz a turma e levanta a cabeça em direção ao gramado, que recebe lívido a irrigação pré-jogo. Os termômetros marcam 29 graus, tempo abafado e quente. Clima frio nas arquibancadas – é silêncio que ecoa.

Apitos repetidos reverberam no estádio vazio, som que se ouve a quilômetros de ruas e vielas sem buzinas, nem passos. O vazio urbano se conecta ao do campo de jogo, onde se ouve o falar tagarela dos repórteres dando destaques sobre a partida. É preciso falar baixo, uma vez que todos se escutam com clareza. Uma crítica bate fundo ao ouvido do camisa 10, que sequer pode rebater, já que tudo é registrado pelos microfones da transmissão da TV – silêncio que denuncia.

A bola vai rolar e a fotografia animada dos times espalhados no retângulo verde contrasta com a arquibancada vazia. Perto e longe dali, milhões assistem a tudo paradas a frente do monitor, com o locutor que se esforça para garimpar entusiasmo em meio ao vazio. O estranho ambiente sonoro cala fundo ao torcedor na sala, defronte a imagem. Ele olha ao redor e nota que está sozinho, pois a esposa está no quarto das visitas, lendo Gabriel Garcia Marquez, o filho mais velho em seu aposento, trocando mensagens ao celular, e o mais novo jogando The Last of Us – silêncio que machuca.

Por um instante, aquele fã de futebol pensou estar em um cenário pós-apocalíptico, como se um micro-organismo nocivo tivesse sofrido uma mutação e forçado o planeta a se isolar dentro da própria casa. Como no game me que seu filho mergulha naquele momento em seu quarto. The Last of Us, o último de nós. Ele pega o celular para ler as notícias e cai na realidade, era verdade batendo duro em sua face. As pessoas não saíam mais às ruas, não iam mais aos estádios; se necessário, no mínimo a dois metros de distância do outro. Jogos sem torcida – melhor que viver sem futebol, pensou. O ano é 2020, quando o esporte não terminou – silêncio que apavora.

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