Depois de encantar o mundo na Copa de 2026, os Tubarões Azuis transformaram o futebol em orgulho, identidade e paixão pelas ruas de Cabo Verde

Depois de encantar o mundo na Copa de 2026, os Tubarões Azuis transformaram o futebol em orgulho, identidade e paixão pelas ruas de Cabo Verde

Estou há 4 dias em Praia.

Sim: existe uma capital no mundo que se chama Praia.

Fica na Ilha de Santiago, a principal ilha do arquipélago que forma um país chamado Cabo Verde.

E existe uma coisa que ainda não consegui tirar da cabeça.

Aqui, o futebol parece existir 24 horas ao dia.

O futebol não está apenas nos estádios, nos bares ou nas conversas entre torcedores.

Ele pulsa dentro das pessoas, nas ruas, nas lojas, nas areias das praias e, de forma arrebatadora, na maneira como Cabo Verde passou a se enxergar a si próprio depois de sacudir o planeta na Copa do Mundo de 2026.

Aqui, a camisa da seleção virou uma espécie de manto sagrado, um uniforme nacional informal. Como um jeito bacana de se vestir.

Está na roupa dos homens e nas camisetas curtinhas das mulheres, nas senhoras que vendem frutas e verduras no mercado de Sucupira no centro, e também são usadas pelas crianças que brincam nas ruas, por toda parte, com bolas de todos os jeitos e cores.

Idosos também parecem gostar do azul da camisa da Seleção, porque jogam dominó na praça Alexandre Albuquerque no centro da cidade.

O que me deixou bem impressionado foi ver muitos, mas muitos mesmo, funcionários de bancos, de lojas, e até do museu da música que visitei, ali, tranquilinhos, usando a camisa da seleção de Cabo Verde.

Vi aqui muito mais gente usando a camisa da SEleção, qe na Espanha, que foi campeã do Mundo....

A camisa se usa, sim, de verdade, por quem carrega o sustento pelas ruas, por motoristas de ônibus e até pelos salva-vidas que vigiam as praias do Oceano Atlântico aqui na cidade.

É uma cena que se repete tanto que, depois de um tempo, parece natural.

Mas não é.

Tem um rapaz que trabalha numa vendinha de celulares perto do meu hotel e ele aparece todos os dias com uma camisa diferente.

Um dia é um clube europeu, no outro uma seleção africana. Ontem finalmente ele usou a camisa de Cabo Verde. Mas não era a azul: era a do uniforme de número 3....cor de vinho, simplesmente linda!

Aqui, futebol é roupa, é pele, é identidade.

E por falar em identidade, vale a pena lembrar de onde vem o apelido mais famoso do país.

Os jogadores da Seleção de Cabo Verde são chamados de "Tubarões Azuis".

E isso porque as águas profundas e cristalinas que cercam estas ilhas sempre foram o território natural do elegante e temido tubarão-azul.

O que começou como uma homenagem à força da fauna marinha atlântica acabou virando o codinome oficial de um bando de "predadores da bola" que decidiram assustar os gigantes do planeta.

Que o diga a Argentina....que viu Messi e o técnico Scaloni em lágrimas, chorando depois do alívio de ter conseguido vencer Cabo Verde na Copa,....somente na prorrogação!

E talvez seja exatamente assim que a gente começa a entender o furacão que atingiu este arquipélago.

Eu saí do Brasil em 4 de junho para cobrir a Copa e, depois de mais de dois meses na estrada, antes de finalmente voltar para casa em São Paulo, eu precisava pisar, sentir, ver em Cabo Verde.

Mas não acho que consigo compreender Cabo Verde e seu futebol.

Eu queria sentir de perto este pedaço de terra no meio do oceano, espalhado por dez ilhas e 8 delas habitadas, para entender como meio milhão de habitantes parou o planeta e fez o mundo inteiro olhar fascinado para este pontinho no meio do Oceano Atlântico.

E a resposta, a quase todas as perguntas que eu tinha, está estampada em cada esquina da capital.

Eu vi os registros da recepção nada menos apoteótica aos "Tubarões Azuis", quando voltaram da Copa.

Mesmo morando fora do país, todos voltaram a Cabo Verde para dançar com seu povo.

Ao contrário de nossa Seleção que deixou o avião vazio voltar ao Brasil, somente com um atleta retornando ao país, os Cabo Verdianos fizeram questão de cantar e passar a noite celebrando a participação deles na Copa.

Mais de 200.000 pessoas tomaram as ruas da capital, em uma festa que se fundiu com a própria alma da independência nacional.

A seleção desfilou em carro aberto sob um mar de bandeiras, com o som dos batuques locais, misturado aos gritos de orgulho de um povo inteiro.

A maior aglomeração que Cabo Verde já viu.

Para eles, os jogadores da Seleção.

E o mais bonito de tudo é que Cabo Verde não voltou para casa com nenhum troféu ou medalha.

Voltou eliminado pela Argentina.

Mas que eliminação histórica!

Na primeira Copa de sua história, os Tubarões Azuis saíram de um grupo com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita de cabeça erguida e vaga garantida para a seguinte fase.

No mata-mata, foram sensacionais.

Cruzaram com a Argentina e empurraram o até então campeão mundial até a exaustão da prorrogação.

Conseguiram marcar dois golaços no time de Messi, fizeram quase o gol da vitória e causaram um sofrimento indescritível aos argentinos.

Foram cento e vinte minutos de pura bravura.

Mas no fim, eles disseram adeus a um Mundial onde se transformaram na equipe preferida de todos, caindo apenas por um doloroso 3 a 2, em um jogo dramático.

Cabo Verde empatou duas vezes, marcou um dos gols mais antológicos do torneio e obrigou Messi e companhia a jogarem no limite absoluto da alma.

Não faltaram lágrimas naquele apito final.

Lágrimas cabo-verdianas pela glória que escapou por um triz, mas também lágrimas de tensão do lado argentino.

Messi deixou o gramado exausto, consciente de que aquela havia sido uma das noites mais sufocantes da sua trajetória em Mundiais. "Culpa" dos Tubarões Azuis!

Só que a história não acabou ali. Ela apenas ganhou asas.

Um dos maiores rostos dessa epopeia tem quarenta anos, a idade em que a carreira de um goleiro costuma ser uma lenda viva que deixa o futebol.

Vozinha, o incansável Josimar José Évora Dias, virou um dos maiores personagens de todo o torneio. Vozinha recebeu o nome dado pelo pai, em homenagem ao jogador brasileiro Josimar, destinado a virar herói de Cabo Verde. E de toda a África.

Antes da Copa, defendia o modesto Chaves, da segunda divisão portuguesa.

Depois daquele mundial inesquecível, foi contratado pelo Colo Colo, clube chileno, dos mais tradicionais da América do Sul.

E a história dele carrega uma poesia de cinema: o apelido nasceu na infância, quando os garotos mais velhos riam dele porque, após perder as peladas na rua, ele corria chorando para a casa dos avós.

O menino sensível que chorava no asfalto transformou-se no gigante que parou a Espanha com uma atuação monumental no 0 a 0 da fase de grupos.

Há outro detalhe magnético nessa atmosfera.

A febre pelas camisas dos Tubarões Azuis não nasceu do dia para a noite após o duelo contra os argentinos.

A onda começou a tomar as ruas antes mesmo de a bola rolar para a estreia histórica em Mundiais.

A Copa apenas elevou essa energia a uma potência indescritível.

Aqui, a bola dança no mesmo compasso da música. Está no ritmo das conversas, nas esquinas, no orgulho faiscante nos olhos de quem vê um estrangeiro reconhecer o nome do seu país.

Eu poderia ter vindo aqui apenas em busca de sol, de praias paradisíacas e da calmaria atlântica, e de um bom peixe.

Mas, depois de quatro dias imerso nesta vibração, percebi que estou testemunhando algo muito maior.

Estou vendo um país inteirinho descobrir uma maneira magnética e inconfundível de se apresentar à história.

Os Tubarões Azuis não ganharam a Copa, é verdade.

Mas conquistaram algo infinitamente mais raro: a certeza absoluta de que, durante semanas inesquecíveis, parecia que o planeta inteiro bateu no peito e vestiu a mesma camisa que Cabo Verde: o time africano tinha a torcida global ao seu lado!

Agora, com licença, que preciso correr.

Vou ali na praia da Gamboa assistir a um eletrizante duelo de futebol de areia entre o Juventude e o Prainha, uma molecada boa de bola.

Mais tarde conto o resto.

Vou contar da Cachupa, da Morabeza, de como estou cretcheu pela ilha, sentindo uma Sabura sensacional!

Porque, depois de quatro dias aqui, sinto que mal arranhei a superfície deste arquipélago fascinante.

Alguém ainda vai ter que me explicar o que transformou essa Seleção de desconhecidos em uma potência nessa Copa, que fez chorar Messi, e que saiu do nada e conquistou o mundo....

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