O mundo inteiro acompanhou pela televisão aquele show de abertura, bem bonito, cheio de fogos de artifício coloridos e helicópteros carregando a bandeira nacional mexicana

O mundo inteiro acompanhou pela televisão aquele show de abertura, bem bonito, cheio de fogos de artifício coloridos e helicópteros carregando a bandeira nacional mexicana

Caminhar pelas ruas da Cidade do México nas últimas horas me fez lembrar o motivo exato pelo qual eu escolhi o jornalismo como profissão.

Muito antes de a bola rolar no gramado do Estádio Azteca, que agora se chama Estádio Cidade do México, o ambiente local já havia me conquistado o coração e a mente, por completo.

O mundo inteiro acompanhou pela televisão aquele show de abertura, bem bonito, cheio de fogos de artifício coloridos e helicópteros carregando a bandeira nacional mexicana.

Tudo aquilo foi muito interessante de assistir, mais que um privilégio poder estar entre as poucas pessoas que entraram nesse mítico estádio onde comecei minha carreira como jornalista esportivo em 1986… E hoje completando 11 copas do mundo .

Mas o meu objetivo hoje não é debater o preço dos ingressos ou os problemas com as obras da FIFA.

O que me moveu a escrever este relato é algo muito mais profundo, que é a transformação real que uma Copa do Mundo faz no dia a dia de um país.

Eu não sei se consigo encontrar em outro lugar do mundo, depois das minhas andanças em mais de 100 países, e tantas copas do mundo, em que exista algo que seja minimamente parecido com a intensidade com a qual os mexicanos vivem o futebol.

Eles transpiram futebol! Só pensam nisso: cerveja amigos alegria família… São só acompanhamentos para qualquer coisa que tem a ver com a equipe nacional.

Podemos lembrar que na Turquia, o futebol deixa as pessoas malucas, assim como na Grécia, na Sérvia e até na Suíça, existem sérios problemas de violência por essa paixão pelo futebol.

Na Espanha existe até a cultura das associações de torcedores que promovem encontros com ex-jogadores e mantêm atividades o ano inteiro. paixão pura, que vai de pai para filho: lá o futebol faz parte da cultura diária.

Aliás só na Espanha, o único país do mundo, existem jornais nas duas grandes cidades do país, que são clara e literalmente clubistas.

Em Madrid o Diário As e o Marca são totalmente focados e enviesados para o Real Madrid. Enquanto que em Barcelona, o Diário Sport e o Mundo Deportivo, obviamente seguem mais de perto o Barcelona e não gostam nem um pouco do Real Madrid.

Coisa única, apaixonante, e que só existe na Espanha

Também não precisamos falar da loucura que é a Argentina quando o assunto é futebol.

Ou a verdadeira religião que o futebol representa no Brasil, um país que teve gritos nas varandas dos prédios e fogos de artifícios quando Neymar foi convocado para a seleção.

O diferencial aqui, é que nesses países mencionados, o envolvimento fica concentrado nos torcedores. Nos grupos organizados, nas torcidas, nos fãs e nos apaixonados pelo futebol.

Enquanto o resto da população, participa bem menos.

Talvez a Colômbia seja o único lugar que realmente se aproxime desse fenômeno social que estou testemunhando de perto nestes dias de Mundial aqui no México.

É quase impossível caminhar pelas avenidas locais e cruzar com alguém que não esteja vestindo a camisa verde ou branca ou negra com dourado ou qualquer outra versão da "La Tri", como é carinhosamente chamada a Seleção mexicana.

E não estou falando apenas de torcedores que se arrumam para ir ao estádio apoiar o time na hora do jogo.

Durante uma caminhada de quinze minutos entre o meu hotel e o ônibus que me levou ao estádio, cruzei com ao menos cinco pessoas passeando com seus cães: óbvio...vestidos com a camisa oficial do México.

Essa dedicação absoluta me surpreendeu ainda mais quando notei o movimento do comércio local logo cedo de manhã.

Os bares e restaurantes abriram as portas muito cedo e decoraram cada espaço com balões e bandeiras coloridas.

O detalhe que mais chamou a minha atenção foi ver que todos os garçons e garçonetes trabalhavam uniformizados com a camisa do México.

O ambiente era de pura expectativa, com música típica mexicana em alto volume saindo das caixas de som para atrair os clientes, telas de TV gigantes preparadas, tudo pronto para a festa.

As pessoas buscavam bebidas, ambientes e menus especiais, famílias, grupo de mulheres, jovens… Todos preparados para o grande dia da estreia da seleção.

No entorno da arena que ontem fez história ao receber três aberturas de Copas do Mundo em épocas diferentes, a festa atingiu um nível impressionante.

Vai ser difícil chamar o glorioso estádio Azteca de "Cidade do México", como querem os organizadores. Ali mesmo, onde o Brasil fez história em 1970 com o tricampeonato de Pelé e seus companheiros.

Onde Maradona escreveu capítulos inesquecíveis do futebol em 1986("La mano Dios", aconteceu ali!), não consegue ser chamado de outro nome do que Azteca.

As filas enormes de torcedores nas redondezas do estádio começaram a se formar ainda de madrugada : uma loucura já por volta de uma hora da manhã.

As informações locais apontavam que cerca de meio milhão de pessoas se concentraram nos arredores do estádio, durante as horas que antecederam o início da partida, apenas para curtir o ambiente.

Um jornalista de um diário local, o Juan Carlos, que não conseguiu credencial para entrar no estádio, me explicou que aquela aglomeração era para "o povo se sentir perto da seleção.Trazer apoio, amor e emoción".

Esse comportamento mostra como no México o futebol deixa de ser um negócio privado e se transforma em um orgulho patriótico nacional.

A identificação é tão grande que os apresentadores dos telejornais nos canais de TV locais, trabalharam vestindo a camisa da seleção mexicana.

Até os garis da limpeza das ruas aqui, ganharam uniformes que imitam os uniformes dos jogadores da seleção, com números nas costas.

Os vendedores ambulantes aproveitaram o momento para vender réplicas de camisas por valores muito baixos em cada esquina.

Eu mesmo não resisti e comprei a minha própria camisa de um ambulante por apenas cinquenta reais perto do hotel.

O negócio aqui é contagiante…

Esse cenário deixa claro que uma Copa do Mundo de verdade, com aquela atmosfera maravilhosa do passado, só vai acontecer aqui no México.

E é um contraste enorme com o que podemos esperar dos outros dois países que dividem a organização deste Mundial nos próximos 37 dias.

Nos Estados Unidos e no Canadá teremos uma competição muito bem estruturada e eficiente, mas que funcionará apenas como mais um evento.

No Canadá, por exemplo, o dia da estreia da sua própria seleção divide a atenção dos moradores de Toronto com um jogo importante de beisebol dos Blue Jays, a equipe forte local.

Coisa inimaginável e mais do que isso: inaceitável no México.

Nos Estados Unidos o torneio compete diretamente com as finais do basquete, na NBA, com a temporada de beisebol e com o feriado de 4 de julho, dia da independência americana .

Se eu pudesse desejar algo muito bom a cada um dos nossos leitores, eu gostaria muito que vocês e cada apaixonado por futebol, pudesse viver ao menos um dia de Copa do Mundo no México.

Para entender esse sentimento.Essa paixão e este ambiente.

A seleção mexicanajogou mal na estreia, mas a vitória por dois a zero contra a África do Sul bastou para incendiar o país.

Esse resultado foi o suficiente para unir o povo e fazer com que as dezenas de manifestações políticas na capital fossem praticamente esquecidas.

A Avenida Reforma, que é a principal da cidade e fica a menos de cem metros do meu hotel, permaneceu lotada de torcedores até alta madrugada.

Famílias inteiras com crianças, idosos, jovens e claro...cães uniformizados, dividiam o asfalto e as calçadas,em uma celebração barulhenta com cornetas, apitos e muita gritaria.

Eram eles festejando pra eles mesmos, sentindo-se unidos pela pátria, tudo graças ao futebol.

Enquanto isso acontecia, muita gente bêbada e muita gente sóbria, caminhavam juntamente, sem direção, motoristas de táxi aproveitavam o movimento e cobravam cem dólares por corridas curtas que não valiam mais do que cinco dólares, restaurante permaneciam abertos até altas horas e desde confete e spray de espuma branca, balões iluminados, milho quente, e tequila eram vendidos e compartidos na Avenida Reforma.

O aspecto mais impressionante e doloroso dessa história é que essa imensa festa aconteceu no mesmo espaço físico dos protestos políticos.

A mesma avenida que abrigou a euforia do povo ostenta também tendas de protestos de vários sindicatos que são contra a realização da Copa do Mundo.

No Brasil se dizia na época da Copa de 2014: " não vai ter copa ".

Aqui, a frase é: " a bola não vai rolar".

A poucos passos das cornetas e dos fogos de artifícios e da alegria, encontram-se os memoriais montados pelas chamadas "Mães Buscadoras".

Elas dedicam suas vidas a procurar seus parentes, que sumiram sem deixar vestígios.

E relembram a triste lista de 118.000 pessoas desaparecidas nos últimos 10 anos.

Esses sumiços acontecem seja em consequência da violência urbana, do tráfico de pessoas e da forte atuação dos cartéis de drogas que assustam o país.

Estas mulheres defendem que a Copa não deveria acontecer antes que seus filhos, irmãos e pais fossem finalmente encontrados.

Bem no centro da avenida Reforma, existe uma montagem redonda enorme, que exibe as fotografias de mais de 16.000 jovens e adultos desaparecidos. Homens e Mulheres que nunca mais foram vistos. De todas as idades.

Ver a comemoração barulhenta da vitória da seleção nacional, acontecer bem diante dessas imagens coladas provoca uma sensação marcante.

Inesquecível.

Tristeza pura, emoção pura, êxtase puro e paixão pura se misturam na mesma calçada de uma forma que mexe com qualquer um que caminhe por ali.

Enquanto nos Estados Unidos e no Canadá a Copa é tratada como um produto de entretenimento, como mais um evento, aqui a temperatura e a emoção só aumentam.

As emissoras de televisão, as rádios, os jornais e toda a publicidade só falam de uma coisa, que é a esperança de ver o México campeão.

A importância desse jogo é tão imensa que a presidente Claudia Sheinbaum decretou feriado nacional no dia em que a seleção entrou em campo, na abertura da Copa.

Essa decisão paralisou o país e confirmou o futebol como a única prioridade real da população mexicana.

Essa união entre as dores sociais e o amor pelo jogo constrói um ambiente impossível de ser copiado em estádios modernos em qualquer outro país do mundo, hoje.

O México prova que a essência da Copa não fica nos camarotes chiques, mas sim nas ruas, nos corações e na capacidade de mexer com um povo inteiro de forma absoluta.

Não era isso que queríamos, de verdade, numa Copa do Mundo?

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