Uma homenagem a um velho e querido amigo

Uma homenagem a um velho e querido amigo

Por Thiago Tufano Silva

Em 1996, quando eu tinha de sete para oito anos, minha mãe passou a trabalhar fora, em período integral. Por isso, após as aulas, eu não ia para a minha casa, mas sim para o apartamento da minha avó Maria, que ficava bem perto do colégio.

Como muitos dos antigos prédios da Vila Carrão, a esmagadora maioria dos moradores do condomínio em que minha vó vivia era formada por pessoas da terceira idade. Por isso, claro, não havia preocupação em reservar espaços para as brincadeiras da garotada. E eu não faço ideia de quantas ensolaradas tardes de puro tédio passei olhando para o nada na área comum do edifício.

Mas a criança, sempre com a imaginação muito fértil, acaba improvisando e dando um jeito de criar passatempos. O problema é que quase tudo que eu inventava não era bem visto pelos conservadores moradores do prédio. Sendo assim, sempre que descia para brincar, tinha um ou outro funcionário me marcando, vendo o que eu poderia quebrar ou quem eu iria incomodar naquela vez.

Mas os funcionários não eram ranzinzas como grande parte dos moradores, e acabavam fazendo vista grossa para o que eu aprontava dentro do condomínio. Mas um deles, o seo Cristóvão, porteiro do período da tarde e com anos de prédio, ia além disso.

Mesmo tento os seus 65 anos, o fanático torcedor do Corinthians ia para o trabalho todo dia com sua bicicleta, uma Caloi básica com os freios bem comprometidos – às vezes era preciso frear com a sola do sapato ou tênis - e os pneus quase carecas. E de quantas tardes vazias aquela “magrela” me salvou... Era ele chegar, às 14h, para eu descer voando do apartamento da minha avó. “Seo Cristóvão, posso andar?”. “Vai lá, moleque!”. Eram “milhares” de voltas no circuito imaginário que criei no estacionamento. Ele nunca reclamou. Nem nas inúmeras vezes em que quebrei alguma peça ou furei um pneu de seu meio de transporte.

E seo Cristóvão também morria de tédio na portaria do condomínio. Ficar oito horas trancado na guarita de um prédio com pouco movimento deveria ser realmente um porre. A única companhia era um radinho bem surrado, geralmente ligado na Rádio Globo. Por isso, o bom porteiro vivia se envolvendo nas brincadeiras da molecada. Chegava a jogar sinuca com a gente – e era um craque -, com um olho na mesa e outro no portão.

Mas, e quando algum morador percebia e reclamava? Aí, seo Cristóvão, dono de um raro poder de persuasão, inventava cada história... Teve um dia que disse para a síndica que se viu obrigado a mostrar suas habilidades no bilhar para entreter as crianças, que estavam colocando a segurança do prédio em risco com as brincadeiras próximas ao portão. E sempre colava!

Certa vez, levou para o prédio umas bolas de tênis. Disse que tinha conseguido com o Guga no aeroporto de Guarulhos. Sim, às vezes ele inventava umas historinhas como essa. Eu, apesar de não acreditar, também não cortava o barato dele. Ora, quem não conta uma mentirinha de vez em quando?

E, quando percebi, lá estava o seo Cristóvão arrastando o banco de madeira da entrada do prédio para o meio da área comum. “Moleque, essa é a rede e, como não temos raquete, vai com a mão mesmo. Fica daquele lado que daqui eu consigo ver se aparece alguma `véia´ no portão”. A linha da “quadra” era imaginária. E, sempre que existia alguma dúvida, ele acabava cedendo o ponto para mim ou para algum outro garoto envolvido na brincadeira.

Mas a festa mesmo era no dia em que recebia o seu suado pagamento, que não era muito. “Moleque, veja bem, aqui tem R$ 4,00. Compre dois maços de Derby azul, uma Skol para mim e uma Coca para você”. Acredite, naquele tempo se comprava tudo isso com essa quantia. E sim, ele costumava beber uma cervejinha de vez em quando – bem de vez em quando – na guarita.

Bom, mas os dias em que seo Cristóvão testava realmente a paciência dos moradores era quando o Corinthians jogava. Principalmente aos domingos, às 16h. Ele ficava tão compenetrado nas partidas que vez ou outra não percebia a movimentação dos condôminos. Mas todo mundo acabava relevando. Era um funcionário muito querido.

E, como no apartamento da minha avó, onde apenas uma televisão era ligada na antena coletiva, o “Domingo Legal” era unanimidade, eu tinha que mais uma vez estorvar o veterano funcionário do prédio para acompanhar em seu surrado radinho as partidas do Timão.

E jamais me esquecerei do dia 23 de dezembro de 1998, quando o Corinthians venceu o seu segundo título brasileiro. Mais uma vez sem conseguir convencer a minha avó a assistir ao jogo na TV da sala, tive que descer até a guarita, onde o seo Cristóvão tinha arrumado até um daqueles pequenos aparelhos de TV de cinco polegadas, em que a imagem era em preto e branco e que também funcionava como rádio. Afinal, era uma data mais do que especial.

Mas a TV de pouco adiantou. Nervoso, seo Cristóvão não conseguiu assistir ao primeiro tempo. Ficou do lado de fora da guarita, emendando um cigarro no outro e andando para lá e para cá. Aí, no segundo tempo, Edilson abriu o placar. Para minha surpresa, seo Cristóvão não comemorou. “Sei lá, moleque, ainda tá perigoso isso aí”, comentou.

Mas, aos 36 minutos da etapa final, quando Dinei cruzou para Marcelinho que, de cabeça, marcou o segundo tento alvinegro, ele parecia estar no quintal de casa. Gritava, pulava, xingava, corria, chorava...

Foi quando, do jardim que ficava na entrada do prédio, ele olhou para mim e começou a gritar. “Moleque, cadê o rojão? Vamos, pega o rojão para mim. Está aí na guarita”. Por um momento, não acreditei que fosse sério. Mas, quando olhei para baixo de sua cadeira, não é que realmente tinha um foguete 12x3 a postos? Com a carcomida caixa de fósforos que sempre levava no bolso da camisa do uniforme, ele acendeu o foguete, que explodiu entre as janelas dos apartamentos do terceiro andar.

Mas o que mais me impressionou foi quando o jogo acabou. Seo Cristóvão ajoelhou naquele mesmo jardim, todo enlameado por conta da forte chuva que caiu naquela tarde em São Paulo - sujando de barro quase toda a calça do uniforme - e chorou copiosamente por mais ou menos uns 10 minutos. Tanto que eu tive que ficar responsável, nesse intervalo, por atender o interfone e abrir o portão do prédio para os moradores, que até achavam estranho, mas que depois se divertiam com a emoção da querida figura.

Depois de algum tempo – não consigo precisar -, seo Cristóvão teve uma parada cardíaca e precisou se afastar do trabalho. Fiquei um bom período sem encontrá-lo. A última vez que o vi foi na entrada do Compre Bem da Vila Carrão – que já nem existe mais -, em 21 de abril de 2006, curiosamente, o dia em que a minha avó Maria morreu.

Fui até lá para comprar pães e frios para o lanche de parte da família que tinha acabado de voltar do velório da dona Maria. Seo Cristóvão, que chegava ao mercado com a sua incansável Caloi, não sabia do acontecido. Quando me viu, logo perguntou sobre minha avó. Não consegui falar nada. Derramei no ombro dele todo o choro acumulado durante aquele dia tão cinza. Ele, que gostava muito da minha velha, também não segurou as lágrimas.

Desde então, não tive mais notícias dele. Mas, nos últimos títulos conquistados pelo Corinthians nesta década – e foram muitos -, quando a euforia passa, eu sempre me pergunto: por onde será que o seo Cristóvão está soltando fogos agora?

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