De lavador de pratos ao título europeu e à chancela de melhor zagueiro do mundo. Foto: Gettyimages/via UOL

De lavador de pratos ao título europeu e à chancela de melhor zagueiro do mundo. Foto: Gettyimages/via UOL

No último final de semana, o mundo da bola contou com grandes emoções e pautas que renderão muito pano para manga durante os próximos dias. Eu poderia falar sobre a contratação do técnico português Jorge Jesus por parte do Flamengo. Também poderia tecer comentários sobre o Campeonato Brasileiro, que viu o novamente a consistência do líder Palmeiras na vitória sobre a Chape, Diego Souza se tornar o 3º maior artilheiro da era dos pontos corridos ao marcar o tento que deu a vitória ao Glorioso contra o Vasco, o Santos de Sampaoli se reencontrar com a vitória e o São Paulo ser salvo de mais uma derrota pelas mãos de Volpi.

Como não posso deixar de mencionar, este texto também poderia versar sobre a acusação de estupro que foi feita contra Neymar Jr. e sua atabalhoada decisão de expor em suas redes sociais as conversas que teve com a mulher em questão e suas fotos íntimas. Será que não há ninguém sensato na staff desse rapaz? Enfim, a investigação está sendo feita e ainda não é tempo para pré-julgamentos.

Posto isto, prefiro falar sobre futebol. No sábado, dia 01/06, houve a grande decisão da Liga dos Campeões da Europa, a qual colocou frente a frente os ingleses Tottenham e Liverpool, que duelaram em Madri no novo estádio do Atlético, o Wanda Metropolitano. O confronto prometia muito não só pelo fato da rivalidade regional entre as duas equipes, mas também pelo modo que ambas chancelaram seus lugares na grande final da competição continental.

O Spurs encarou na semifinal o jovem time do Ajax – grande sensação do certame e que havia deixado para trás gigantes do naipe de Real Madrid e Juventus – e foi derrotado na ida, em seu estádio, pelo placar de 1 a 0. Na volta, como todos sabemos, chegou a estar perdendo por 2 a 0 na Holanda, mas através dos pés de Lucas Moura, que meteu três gols, virou a partida em um dos jogos mais emocionantes da história da Champions e classificou-se à final pela primeira vez em 136 anos de história.

A classificação dos Reds à final não deixou a desejar em nada em termos de emoção e aspecto épico se comparada com a do time de Londres. O Liverpool perdeu o jogo da ida pelo placar de 3 a 0 para o Barcelona de Messi e na volta teria que operar um milagre para conseguir chegar à decisão. Felizmente para o time de Klopp, em Anfield milagres acontecem e o Liverpool conseguiu meter 4 a 0 no jogo de volta, em uma partida que já está eternizada no mural de grandes jogos e grandes viradas da Champions League.

Pois bem, a grande final da Liga dos Campeões deixou um pouco a desejar no quesito estética de jogo. O Liverpool abriu o placar muito cedo com Salah convertendo pênalti e abdicou um pouco de suas características para fazer um jogo mais pragmático e assegurar a sexta “orelhuda” de sua história. No segundo tempo, Origi ainda fez o 2 a 0. O Tottenham teve mais a bola durante toda a partida, porém, com pouca eficiência. Quando conseguiram chegar, os londrinos esbarraram numa atuação monstruosa do goleiro Alisson e na concretude do zaga do Liverpool, personificada na figura de Virgil van Dijk.

É exatamente sobre esse excelente zagueiro holandês que me ponho a falar agora. Virgil veio do Southampton para o Liverpool com o peso de ser o defensor mais caro da história do futebol. A equipe de Anfield Road desembolsou a quantia de 75 milhões de libras para adquirir o beque com a esperança de resolver o problema crônico que a defesa havia se tornado. Hoje em dia, ninguém duvida que a questão foi solucionada e de que é possível mencionar o nome de Virgil como um dos melhores zagueiros do mundo, senão o melhor.

Contudo, a história vencedora do defensor holandês, que teve seu ápice no último sábado com a conquista da Champions, contou com capítulos de muitos percalços. Em meados 2009, ainda atuando pelas categorias de base do Willem II, Virgil complementava sua renda lavando pratos em um restaurante da cidade de Tilburg duas vezes por semana, normalmente nas quartas e domingos. Na época, o gigante da zaga do Liverpool tinha apenas 17 anos.

No ano seguinte, em 2010, o jovem zagueiro se transferiu ao Groningen sob o respaldo de Martin Koeman, lenda do time. Em 2011, assumiu o posto de titular na equipe e realizou grandes atuações, como a da vitória por 5 a 1 contra o Den Haag, ocasião na qual Virgil meteu dois gols. Quando tudo parecia estar se encaminhando, veio o grande susto: com fortes dores estomacais, o zagueiro foi diagnosticado com peritonite e ficou internado por suas semanas em estado grave até ser operado.

O jovem Virgil chegou até a assinar um testamento no qual deixava todos os seus bens para a sua mãe, se caso viesse a falecer. Para o bem do futebol, o holandês se recuperou e voltou a campo depois de dois meses de tratamento. Deu sequência à grande temporada que vinha fazendo no Groningen e despertou o interesse do Celtic, da Escócia, que o adquiriu pelo preço de 3 milhões de euros.

No Celtic, que nada de braçadas no campeonato nacional, Virgil virou titular absoluto e o seu jogo evoluiu de forma meteórica. Em sua primeira temporada em Glasgow, foi campeão nacional e anotou 5 gols, um bom número para um zagueiro. Na temporada seguinte, venceu novamente a liga nacional, meteu 10 gols e foi eleito o melhor zagueiro da competição.

Em 2015, se transferiu para o Southampton para jogar a liga nacional mais competitiva e difícil do planeta: a Premier League. Se ainda restavam dúvidas quanto à qualidade do zagueiro, elas foram dizimadas com a rápida adaptação ao futebol inglês e as grandes atuações pela nova equipe. Em 2017, foi comprado pelo Liverpool e resolveu o problema da defesa dos Reds que já durava muitos anos e havia comprometido boas campanhas que poderiam ter resultado em títulos.

Em seu primeiro ano de Liverpool, alcançou a final da Champions e acabou ficando com a medalha de prata ao ver seu time batido pelo Real Madrid. No ano seguinte, fez junto aos seus companheiros de Liverpool uma campanha absurda na Premier League, a qual não resultou no caneco e na quebra do tabu de quase 30 anos sem vencer o título da liga por causa da também absurda performance do City de Guardiola. Mas o melhor estava por vir: o Liverpool de Virgil van Dijk bateu o Tottenham em Madri e se sagrou hexacampeão europeu. Além do título europeu, Virgil foi o eleito o melhor jogador da temporada 2018/19 da Premier League por seus próprios colegas de trabalho, feito raro para um defensor.

Virgil gravou seu nome na história de um dos maiores e mais populares clubes do mundo e elevou o seu status ao nível máximo do futebol mundial. Com apenas 27 anos e vivendo o seu auge, não é loucura afirmar que atualmente o beque do Liverpool é um dos melhores zagueiros do mundo o continuará sendo por pelo menos mais umas 5 ou 6 temporadas. A defesa, que um dia foi motivo de desespero para o torcedor dos Reds, hoje é um dos principais pilares da equipe de Klopp e não é exagero nenhum afirmar que o responsável por isso chama-se Virgil van Dijk. O menino que lavava pratos para complementar a renda, que quase morreu por um problema de saúde e que não teve espaço nos grandes times de seu país provou o seu valor, ao melhor estilo Liverpool, jamais desistiu de seus sonhos e hoje é campeão da Europa. Virgil, “you´ll never walk alone!”

* Renan Riggo é jornalista esportivo (A Folha Esportiva) e assessor de imprensa da PPress Marketing e Comunicação

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