Evento reunirá 48 seleções. Imagem/Reprodução

Evento reunirá 48 seleções. Imagem/Reprodução

Mundial se aproximando, e o batimento cardíaco também. E para quem nunca se satisfaz, um Mundial organizado em três países diferentes, pela primeira vez. Mas, a impressão que fica nestes dias, é de que parece que se trata do " Mundial dos EUA". A verdade é que talvez muitos não saibam, mas a FIFA entregou a sede do Mundial aos Estados Unidos ainda em 2018. Só aos Estados Unidos.

Porém, para satisfazer a vontade da FIFA de expandir o torneio de 32 para 48 seleções, os americanos então ofereceram ao Canadá e ao México uma fatia na participação. Dividir os custos, aumentar a renda, ver crescer a quantidade de patrocinadores.

Resultado: mais de 70% das partidas serão disputadas em solo americano, incluindo as semifinais e a grande final.
Canadá e México, claro, fazem parte da organização.

Mas, no que diz respeito à colaboração e à comunicação entre os dois países e os Estados Unidos, as coisas não parecem estar exatamente no "paraíso".

Nos Estados Unidos, uma enxurrada de problemas: infraestrutura defasada, desafios logísticos e, principalmente, questões financeiras, preços altíssimos. E segurança. E no México e no Canadá, como está a situação? Agora vamos descobrir.

O México faz história.

Em 11 de junho de 2026, no Estádio Azteca, na Cidade do México, a "Tri", como é carinhosamente chamada a seleção mexicana, dá o pontapé inicial do Mundial contra a África do Sul. E nenhum estádio no mundo já foi palco de três partidas de abertura de Copas do Mundo, como é o caso do Azteca!

Nenhum estádio no mundo recebeu tantas partidas de Copa como o Azteca: 19 no total, até hoje. E, claro, nenhum país no mundo jamais sediou três Mundiais masculinos. O México, sim: 1970, 1986 e, agora, 2026.

Mesmo assim, os meses que antecedem o torneio, no México, estão longe de ser tranquilos.

O Estádio Azteca receberá cinco partidas, incluindo a de abertura, como dissemos. São 87 mil lugares, duas finais de Copa já disputadas ali, o gol de mão de Maradona e o "Gol do Século". Um estádio que dispensa apresentações.

Em 19 de abril, neste último domingo, a poucos dias do início do Mundial, o próprio estádio Azteca recebeu um amistoso de lendas entre Brasil e México, com nomes como Ronaldinho, Kaká, Adriano, Rafa Márquez, Cuahtemoc Blanco e Andrés Guardado, entre outras estrelas dos dois países em campo. Vitória mexicana por 3 a 2 na festa, com gols do Brasil marcados pelo Imperador Adriano e por Kaká.

O evento também marcou a reabertura do estádio após reformas, com novo gramado, e a nova denominação: agora se chama Estádio Banorte, por conta de um patrocínio local.

Mas, ao redor do estádio, na cidade, os preços dispararam. Hotéis e restaurantes triplicaram seus valores. No bairro de Santa Úrsula Coapa, próximo ao Azteca, moradores se reúnem todo domingo em assembleia há mais de um ano para protestar contra novas construções ligadas ao Mundial, que, segundo eles, colocam em risco a qualidade da água da comunidade, já que o único poço em torno ao estádio está nas mãos da Televisa, a maior emissora de TV do México. São eles, a Televisa, também os donos do estádio, e o poço de água fica dentro do complexo.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, ainda não respondeu à carta enviada pelos moradores, pedindo uma solução para este problema urgente. Movimentos sociais já anunciaram manifestações para o dia da partida inaugural da Copa, não só pela questão da água, mas também para exigir justiça pelas milhares de pessoas desaparecidas no México.

Hoje, quase 90 mil pessoas estão oficialmente registradas como desaparecidas no país. Só em 2025, já são 14 mil novos casos reconhecidos.

A Anistia Internacional, em relatório publicado em março, alertou claramente: durante o Mundial, quem quiser protestar corre sério risco.

Mais de 120 mil policiais serão mobilizados ao redor dos estádios no México durante o torneio.

Mas vamos aos custos: os ingressos para as partidas da fase de grupos (a primeira fase) custam 700 dólares. Equivalente a cerca de um mês e meio de salário para um mexicano que trabalha, por exemplo, no setor bancário. Ou dois meses de salário para trabalhadores no comércio.

A presidente Claudia Sheinbaum, por sua vez, ergueu fisicamente a Taça do Mundial na Sala do Tesouro do Palácio Nacional em março, ao lado do ex-jogador brasileiro Bebeto, e declarou que não há qualquer risco para torcedores estrangeiros que venham ao México.

Criticada por não ter feito o gesto com um jogador mexicano, ela tenta acalmar os ânimos de todos. Com dificuldade.

Muita dificuldade. Porque ainda existe a sede de Guadalajara. E lá a situação é ainda mais grave.

No Estádio Akron, ou conhecido como estádio Jalisco, onde o Brasil começou o caminho em direção à conquista do Tricampeonato em 1970, nesta cidade, estão programadas quatro partidas da fase de grupos, incluindo a segunda do México contra a Coreia do Sul, Uruguai x Espanha e a estreia da Coreia do Sul.

Mas, a poucos meses do início do torneio, as obras na cidade ainda não foram concluídas. Nem parecem estar próximas disso. O sistema de transporte público que deve ligar o aeroporto ao estádio estava com apenas 65% de avanço em fevereiro, com prazo final marcado pela FIFA para 26 de abril. Mas, com grandes dificuldades, isso deve acontecer, talvez, em finais de Maio.

A revitalização da região de La Minerva, um dos principais pontos de encontro da cidade, teve um mês de atraso e custou 70 milhões de pesos (20,5 milhões de Reais), em vez dos 46 milhões previstos (13,5 milhões de Reais).

Nenhuma nova rodovia foi construída na cidade ou ao seu redor, para o Mundial, e engenheiros alertam que o trânsito nos horários de pico, hoje já bem complicados, se tornará um problema sério. Ao mesmo tempo, as autoridades estaduais gastaram mais de 3,55 bilhões de pesos (1,1, Bilhões de Reais) em obras de infraestrutura.

Por tudo isso, o governador local, Pablo Lemus, afirmou que "tudo estará pronto até abril", já que a FIFA não quer canteiros de obras próximos aos estádios durante o torneio. Agora, fala-se em fim de maio. E, o Mundial,.... começa na segunda semana de junho.

Aí veio o dia 22 de fevereiro de 2026. E o mundo parou de falar em obras viárias e gramados de estádios no México. O Exército mexicano matou El Mencho, líder do Cartel de drogas Jalisco Nueva Generación, em um bairro de Guadalajara. A resposta do cartel foi cruel e imediata: centenas de carros incendiados, ruas bloqueadas e tiroteios em Guadalajara. E violência em 20 estados mexicanos. Na cidade sede do Mundial, postos de gasolina foram incendiados, tiros que fecharam o aeroporto, e as imagens onde viam-se aviões em chamas, chocaram o mundo. O mesmo aeroporto que milhões de torcedores e delegações usarão para o Mundial: fechado por três dias devido à violência!

Pelo menos 170 mortos na cidade em poucos dias, e famílias inteiras sem sair de casa.

Comércios e escolas fechados.

Campeonato de futebol paralisado.

Voos cancelados.

Familiares que buscavam parentes desaparecidos tiveram que interromper suas buscas. Sem a proteção do Exército, ocupado em conter a violência nas ruas da cidade, essas famílias não podiam entrar nas áreas controladas pelos cartéis de drogas, onde se encontram valas clandestinas.

Por quatro dias seguidos, Guadalajara virou uma cidade fantasma: sem trânsito, sem pessoas nas ruas, com escritórios fechados.

O governo mexicano não sabe direito o que fazer para evitar o caos durante o Mundial.

A FIFA afirma que está monitorando a situação de muito perto. O cartel pode ter a última palavra quando bem entender.
Já na terceira sede mexicana, Monterrey, a história é diferente.

O Estádio BBVA, apelidado de "El Gigante de Acero" ("O Gigante de Aço"), é um dos estádios mais bonitos do México, projetado pelo mesmo escritório que construiu o Emirates Stadium e o Tottenham Hotspur Stadium, ambos em Londres.

De um lado das arquibancadas, avista-se o Cerro de la Silla, a montanha símbolo da cidade.

Quatro partidas acontecerão ali, incluindo uma oitava de final. E é lá que o Japão entra em campo, em 21 de junho, contra a Tunísia.
Torcedores japoneses chegarão aos milhares para encontrar a cidade mais rica e segura do México hoje.

Durante os 39 dias do torneio, o Fan Fest oficial será realizado no Parque Fundidora, um local turístico e charmoso, que deve receber mais de dois milhões de pessoas durante o período da Copa.
Monterrey é a cidade mexicana mais próxima dos EUA, com voos diretos de Dallas, Houston, Atlanta e Los Angeles.

Os preços dos hotéis dispararam: de 200 para 800 dólares a diária. Obras concluídas, e a cidade mais rica do país, espera afzer uma grande festa bem mexicana, para o Mundial.

No Canadá, a situação é também, completamente diferente.
Sem obras inacabadas, sem violência. Mas problemas, claro, também existem.
Toronto recebe seis partidas no BMO Field, estádio com capacidade para 45.500 pessoas, no coração da cidade.
Toronto é uma das cidades mais multiculturais do mundo, e o entusiasmo pelo Mundial é grande.

O primeiro-ministro Mark Carney participou, ao lado da presidente mexicana Sheinbaum e de Infantino, do sorteio dos grupos em Washington, buscando transmitir uma imagem de cooperação entre os três países.

Mas, em abril de 2026, estourou uma polêmica feia: o Fan Fest no Fort York, em Toronto, que a cidade havia prometido ser gratuito já em maio de 2025, corria o risco de se tornar pago: 10 dólares para entrada comum e 300 dólares para o VIP.

O contrato assinado em 2018 com a FIFA, porém, deixava claro: o festival deveria ter acesso livre.
O político local Brad Bradford declarou publicamente: "Para uma família de cinco pessoas, são 50 dólares antes mesmo de comprar algo para comer. Para muitas famílias, é a diferença entre ir ao Fan Fest ou ficar em casa."

Diante das fortes críticas, a cidade recuou de sua polêmica decisão. O custo total do festival subiu, então, para 25 milhões de dólares. Toronto está gastando, no total, 580 milhões de dólares canadenses para sediar o torneio. O que gera grande debate público, já que o número de sem-teto e a pobreza na cidade mais importante do país, so crescem nos últimos anos.

A federação de futebol local, a Canada Soccer, porém, fez algo muito bonito. Depois que a Itália perdeu a vaga para a Bósnia e Herzegovina, a federação canadense organizou um evento no bairro, Little Italy, na cidade de Toronto, em frente ao Café Diplomatic, na College Street, uma rgião bem central e boêmia. A campanha se chama "Our Game Now": "Traga sua camisa azul, receba uma camisa da Seleção canadense".

Mais de 1000 pessoas fizeram fila nas primeiras horas. No final, ninguém precisou deixar sua camisa italiana: a Canada Soccer as distribuiu de presente, sem pedir nada em troca. Algumas pessoas na fila choraram ao descobrir que o lote de camisas havia terminado. Nem todas as reações online, porém, foram positivas: diversos usuários nas redes sociais classificaram a campanha como "desrespeitosa" para com os sentimentos dos italianos.
Paul Senra, da Canada Soccer, respondeu dizendo que "não se tratava de tirar uma camisa, mas de vestir outra por cima". Mais de 4.000 camisetas da Seleção já foram distribuídas. E o entusiasmo só cresce em Toronto.
Vancouver, a outra sede no Canadá, recebe sete partidas no BC Place, com capacidade para 54.500 pessoas, um sensacional teto retrátil e vista para as montanhas. O Canadá joga duas partidas ali. O Fan Fest será no Hastings Park, com entrada gratuita para cerca de 2.600 pessoas por partida. Mas Vancouver também tem seus problemas. A FIFA impôs uma zona de "embelezamento" de dois quilômetros ao redor do BC Place, que inclui o Downtown Eastside, um dos bairros com maior número de pessoas em situação de rua em toda a cidade. Um morador da região, chamado Boucher, disse a jornalistas do maior jornal local, o Globe and Mail:

"Disseram que precisamos ficar a pelo menos dois quilômetros do estádio. Estão criando uma zona proibida para quem não tem teto."
Três hotéis populares na Granville Street fecharão suas portas durante o torneio, deixando cerca de 300 pessoas sem abrigo. Um deles em já no início de junho, poucos dias antes do início do Mundial. Eles ficam bem próximos ao estádio.

O prefeito de Chilliwack, cidade mais vizinha a Vancouver, já declarou publicamente: "Se o plano é limpar´ Vancouver, Chilliwack já está lotada. Não temos mais espaço para pessoas em situação de rua."

Os vereadores de Vancouver votaram por medidas concretas, mas o plano de direitos humanos aprovado pela cidade ainda não tem objetivos claros ou formas de medir resultados.

Mas há algo que se ouve com frequência, tanto no México quanto no Canadá, entre torcedores e jornalistas: tudo parece girar em torno dos Estados Unidos.

A final será disputada no MetLife Stadium, em Nova Jersey. As semifinais, em Atlanta e Dallas. Os EUA têm 11 sedes entre as 16 totais. Canadá e México têm, respectivamente, 2 e 3 cidades-sede.

Há tensões geopolíticas e pressão nas fronteiras, para turistas, que tornam mais complicadas as viagens e a organização entre os três países. O risco ambiental ligado a incêndios e à qualidade do ar, nesta época do ano, é um problema grave. E que só pode piorar com tanta gente chegando a esses países.

O Canadá e o México tem a"simpatia" de grande parte da torcida mundial. Os EUA, vem sendo muito criticados, e os dois países podem sair ganhando deste turismo futebolístico. O ex-presidente da FIFA, Sepp Blatter, declarou, há poucos dias, publicamente, que torcedores deveriam ficar longe dos EUA e preferir ver a Copa no Canadá e no México. Na Alemanha, alguns parlamentares cogitam aretirada da seleção nacional. No Reino Unido, o político Simon Hoare pediu que Inglaterra, Escócia e País de Gales não participassem, como forma de pressionar Trump.

O site BoycottUSA2026.org, que claramente pede um boicote ao Mundial nos EUA, acumula cada vez mais assinaturas.

No México, muitos ativistas alertam que o Mundial corre o risco de virar uma ferramenta para fazer as cidades parecerem mais limpas do que realmente são, sem resolver os problemas de fundo.

No Canadá, torcedores se perguntam por que uma festa anunciada como gratuita está se transformando em outra coisa.

Os países-sede estão tirando a leveza do que deveria ser o Mundial da celebração global.

O torneio vai acontecer, mas sem aquela sensação de tranquilidade que normalmente acompanha um evento desse porte.

A competição começa em 11 de junho, com nada menos que 104 partidas. As perguntas permanecem em aberto, tanto nos EUA, em um pouco menos no Canadá e no México

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