José Mourinho tem 63 anos.
E o Real Madrid é o décimo clube diferente de sua carreira. E é o clube para o qual ele agora volta pela segunda vez.
Esse detalhe explica por que esse retorno é tão diferente do primeiro.
Desde que deixou Madrid em 2013, Mourinho tem sido contratado e demitido várias vezes, sempre tentando recuperar o alto nível que alcançou uma década atrás.
Chelsea, pela segunda vez. Manchester United. Tottenham. Roma. Fenerbahçe. Benfica, também pela segunda vez.
Dez clubes no total.
Em 5 países, um treinador procurando recuperar a versão de si mesmo que um dia deixou o grande Barcelona desesperado.
Agora ele está de volta justamente ao clube onde nasceu aquela versão quase invencível de Mourinho.
O Real Madrid chegou a um ponto tão baixo que trocar o treinador já não era suficiente. O clube tem alguns dos jogadores mais caros e talentosos do futebol mundial, mas os problemas dentro do time ficaram impossíveis de ignorar.
Tensões e brigas entre jogadores. Dúvidas sobre liderança.
Nenhum grande título nas últimas 2 temporadas.
E o Barcelona ganhando o campeonato novamente, e novamente.
Florentino Pérez olhou para tudo isso e decidiu que a solução não poderia ser apenas tática. Precisava ser pessoal.
O caos perfeito para o homem perfeito: Mourinho.
Florentino Pérez não está apostando em um novo sistema ou em uma nova filosofia ao escolher Mourinho.
Ele está apostando na capacidade de um homem de entrar em um vestiário quebrado.
E desmontá-lo, arrancar tudo de dentro, antes de reconstruí-lo à sua maneira.
Vale lembrar o que Mourinho realmente construiu no Real Madrid entre 2010 e 2013.
Foram 178 partidas oficiais, 128 vitórias, um título de La Liga, uma Copa do Rei e uma Supercopa da Espanha.
Na temporada 2011-12, seu Real Madrid ganhou o campeonato com impressionantes 100 pontos.
E marcou 121 gols. Uma das campanhas mais extraordinárias da história da Liga e do clube, conquistada com títulos e vencendo o Barcelona de Guardiola.
Um time que, naquele momento, era considerado um dos maiores já montados.
O Real Madrid de Mourinho não apenas derrotou o Barcelona. Mudou o equilíbrio de forças na Espanha.
Mas é preciso dizer: aquela versão de Mourinho não existe mais completamente.
Desde 2013, sua carreira tem contado uma história muito diferente.
Sim, ele voltou a ganhar a Premier League com o Chelsea. Mas foi demitido no meio da temporada seguinte.
Ele também ganhou a Europa League com o Manchester United. Depois foi para o Tottenham, onde terminou sem nenhum título e foi demitido apenas 6 dias antes de uma final da Copa da Liga.
A Roma lhe deu um novo começo.
E Mourinho entregou ao clube seu primeiro troféu europeu em mais de uma década, a primeira Conference League da história. Com isso, tornou-se o primeiro treinador da história a ganhar uma grande competição europeia com 4 clubes diferentes.
Mas os resultados caíram na segunda temporada. E ele saiu de forma abrupta, antes do fim do contrato. Um escândalo.
O Fenerbahçe o contratou como a única solução para tentar acabar com o domínio absoluto do Galatasaray no futebol turco.
Ele chegou perto, terminou em segundo no campeonato e foi demitido em 2025 sem nenhum título.
Depois veio uma passagem rápida de 2 meses e meio pelo Benfica.
Também problemática, como sempre.
Somando tudo: 26 títulos em 25 anos como treinador.
Sim, mas apenas 1 deles nos últimos 8 anos.
Esse é o treinador que Pérez trouxe de volta agora.
Não é mais o gênio intocável de 2010. É um treinador de 63 anos que chega ao fim de uma década marcada mais por saídas do que por títulos.
Existe também um lado pessoal nessa história.
No final de sua primeira passagem por Madrid, a relação com muitos jogadores importantes havia se tornado tóxica.
Iker Casillas e Sergio Ramos estavam no centro dos conflitos, enquanto Mourinho travava inúmeras batalhas com a imprensa espanhola.
Em 2013, ele chamou aquela última temporada de “a pior da minha carreira”.
Não foi bonito. Muita gente não gostou.
É exatamente isso que torna esse retorno tão incomum.
O mesmo treinador que um dia se tornou parte de um vestiário quebrado do Real Madrid está agora sendo chamado de volta para consertar... outro vestiário quebrado.
“The Special One”, como ele próprio se chama, está mais velho agora e tem cada vez menos oportunidades para provar que o declínio que vive não é permanente. O Real Madrid está lhe dando uma porta de ouro para salvar seu nome e sua carreira.
Pérez já mostrou que confia em treinadores a ponto de trazê-los de volta para uma segunda oportunidade no comando do time.
Zidane e Ancelotti já voltaram ao Real Madrid para uma segunda passagem como treinadores.
Agora Mourinho entra nessa lista, mas sua relação com Pérez sempre teve um forte componente pessoal.
A recente eleição presidencial do clube tornou essa decisão ainda maior.
Enrique Riquelme concorreu contra Pérez prometendo um projeto esportivo diferente, incluindo a contratação de Erling Haaland.
Pérez respondeu colocando Mourinho no centro de sua campanha, aparecendo com ele em vídeos promocionais antes da votação.
No final, Pérez venceu com 21.741 votos, 65% do total.
E, rapaz, não foi barato.
O Real Madrid pagou €15 milhões ao Benfica pela liberação de Mourinho. O valor acabou ficando maior porque uma cláusula de saída mais barata já havia expirado quando a eleição terminou.
O Real Madrid assinou com Mourinho até junho de 2029, por cerca de €12 milhões brutos por ano.
O momento fica ainda mais forte quando lembramos do que aconteceu poucos meses antes.
Em fevereiro, o Benfica de Mourinho enfrentou o Real Madrid em Lisboa, na última partida da fase de liga da Champions League.
O Benfica chegou aos minutos finais precisando de mais um gol. Aos 98 minutos, o goleiro Trubin marcou de cabeça.
O Benfica venceu por 4 a 2, e Mourinho eliminou justamente o clube que agora dirige.
Para Pérez, aquela derrota foi difícil de esquecer.
É isso que Pérez quer agora, com um elenco reconstruído de acordo com as exigências de Mourinho: o espírito feroz que o Benfica tinha sob o comando do português.
O Real Madrid, agora sob o comando de Mourinho, liberou vários jogadores que estavam há muitos anos no clube. Eram as saídas que Mourinho precisava para limpar o ambiente.
Dani Carvajal, David Alaba e Dani Ceballos saíram como jogadores livres. Fran García e Mario Martín foram vendidos.
A maior saída foi a do jovem Gonzalo García, vendido ao Fulham por cerca de €34 milhões. O dinheiro ajudou a financiar a reconstrução do time de Mourinho.
Agora vamos às chegadas.
Mourinho recebeu 6 novos jogadores. Até agora.
Marc Cucurella chegou do Chelsea por £52 milhões, enquanto Denzel Dumfries veio da Inter de Milão. Os 2 foram contratados para resolver problemas nas laterais que incomodavam o time havia anos.
Yan Diomandé, da Costa do Marfim, jovem ponta do RB Leipzig, custou muito mais que todos os outros. Foram €135 milhões. A maior aposta do Real Madrid.
Bernardo Silva chegou do Manchester City como jogador livre, trazendo 16 títulos conquistados sob o comando de Pep Guardiola, justamente o treinador contra quem Mourinho passou uma década lutando.
Ibrahima Konaté também chegou do Liverpool sem custo de transferência.
E Carlos Espí, atacante de 21 anos do Levante, custou cerca de €25 milhões. Ele foi contratado como o tipo de jogador jovem e faminto que Mourinho precisa. Um atacante forte, para jogar ao lado das grandes estrelas do time.
Rodri, vencedor da Bola de Ouro e eleito o melhor jogador da Copa do Mundo de 2026, era a principal escolha pessoal de Mourinho para corrigir o meio-campo do Real Madrid.
Mourinho participou pessoalmente das negociações. Mas, com o avanço do verão, o grupo de Rodri abriu conversas com o Barcelona.
Até agora, Rodri não assinou com nenhum clube. E continua sendo um dos exemplos mais claros de um jogador que Mourinho queria pessoalmente e que ainda pode não conseguir.
Essa decisão deixa a missão de Mourinho ainda mais clara.
Ele não pode resolver todos os problemas com mais uma contratação.
Ele precisa fazer os jogadores que já estão no elenco jogarem juntos, tenham sido escolhidos por ele ou não.
Mbappé e Jude Bellingham estão lá. Vinícius Júnior assinou e vai ficar.
Também existem jovens que precisam de minutos e estrelas já estabelecidas que esperam continuar como titulares.
Endrick é um dos exemplos mais claros.
O jovem brasileiro chegou a Madrid como um dos maiores talentos do futebol mundial, mas já parece que vai sair novamente por empréstimo, simplesmente para jogar com mais regularidade. Ao que tudo indica, não existe espaço para ele no Real Madrid de Mourinho.
E então existe Vinícius. Essa relação merece atenção especial.
Mourinho ainda era treinador do Benfica durante a polêmica da Champions League envolvendo Vinícius e o jogador do Benfica, Prestianni.
Vinícius acusou o argentino de uma ofensa racista, o que Prestianni negou.
Naquele momento, Mourinho, então treinador do Benfica, criticou a reação de Vinícius depois do próprio gol naquela partida.
E, depois do escândalo, Mourinho disse claramente que não gostaria de trabalhar com “esse tipo de jogador”.
Agora Mourinho é seu treinador.
O Real Madrid precisa de Vinícius, e Mourinho sabe disso.
O brasileiro renovou recentemente seu contrato até 2032 e continua no elenco.
O mesmo desafio vale para Mbappé, Bellingham e todos os outros grandes nomes do vestiário.
O Real Madrid não precisa de mais estrelas que acreditem ser o centro do projeto.
Precisa de jogadores que entendam exatamente qual é o projeto. E é aí que Mourinho acredita que ainda pode fazer a diferença, mesmo aos 63 anos, mesmo depois de uma década de relações problemáticas com os clubes.
Nos primeiros dias de volta ao seu antigo clube, ele já mostrou sua mão forte.
Mourinho criou regras mais rígidas para pontualidade, alimentação, recuperação física e refeições do time.
Tudo para tornar a rotina diária mais profissional e obrigar os jogadores a terem mais contato entre si.
Ele falou abertamente sobre construir uma cultura de trabalho, responsabilidade e ambição.
É uma mensagem muito diferente daquela do treinador que chegou em 2010 pronto para uma guerra contra o Barcelona.
Desta vez, a primeira batalha acontece dentro do vestiário do Real Madrid.
Outros nomes foram considerados para treinar o Madrid antes de Mourinho.
Jürgen Klopp, Deschamps, Emery, Lionel Scaloni e Mauricio Pochettino.
Pérez escolheu Mourinho mesmo assim, porque acredita que o problema exige mais do que conhecimento tático.
O Real Madrid precisa hoje de alguém capaz de estabelecer uma hierarquia, definir responsabilidades e fazer cada jogador entender que o status individual não pode estar acima do time.
E sim: Mourinho já provou que sabe ganhar em qualquer lugar. São 2 títulos da Champions League, campeonatos nacionais em 4 países diferentes e grandes troféus em Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha.
O que ele não provou, desde 2013, é que consegue vencer, levar paz para um clube e permanecer trabalhando tranquilamente por mais de 2 temporadas.
Essa é a verdadeira pergunta agora.
Um treinador que foi demitido de 5 dos seus últimos 6 trabalhos conseguirá controlar o problemático Real Madrid de hoje sem destruir justamente o vestiário que foi contratado para reconstruir?
Em 2010, Mourinho chegou a Madrid para lutar contra o Barcelona.
Em 2026, ele voltou para um trabalho muito mais complicado.
Um trabalho que tem tanto a ver com a própria história recente de Mourinho quanto com a história de qualquer outra pessoa.
O Real Madrid não precisa dele apenas para vencer os outros clubes.
Precisa dele para fazer seus próprios jogadores acreditarem novamente no mesmo time.
E José Mourinho, aos 63 anos, no décimo clube de sua carreira, precisa exatamente da mesma coisa para voltar a acreditar em si mesmo.
O Madrid precisava de Mourinho.
Mas Mourinho precisa ainda mais do Madrid.
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