Nesse final de semana que marcou a volta dos maravilhosos estaduais, a delegação do CSE de Palmeira dos Índios quase ficou hospedada num motel na cidade de São Miguel dos Campos. Dizem que foi exagero da imprensa, outros relatam erro na comunicação da logística, mas o fato é que alguns atletas citaram a presença de camas redondas nos quartos.
Lendas e folclores à parte, prefiro descrever nessa crônica quando o amor prevalecia no futebol sergipano, especialmente na torcida do Sergipe, que possuía Ciganinha como ilustre torcedora e “fiel amante” do futebol em Aracaju nas décadas de 70 e 80.
Nas minhas pesquisas, tentei encontrar fotos ou o nome original dela. Descobri apenas que Ciganinha nasceu na zona rural de São José da Laje em Alagoas. Talvez Ciganinha fosse a própria personificação da Tieta de Jorge Amado, saindo de uma região rural e pobre para crescer economicamente na Capital, sendo conhecida por uma grande parcela da população.
A capital nesse caso era a do estado de Sergipe. Como proprietária de um estabelecimento, seja com a denominação de Pousada, Boate ou o popular termo “Cabaré”, Ciganinha ficou muito conhecida em Aracaju. Seu estabelecimento no Bairro Santos Dumont, inicialmente ficou conhecido como “Sítio do Pica Pau Amarelo”, devido ao local na época ser muito arborizado e afastado do centro de Aracaju.
O estabelecimento de Ciganinha logo caiu no gosto dos jornalistas, dirigentes e especialmente dos jogadores de futebol. Várias reuniões e festas eram realizadas por lá. O local foi pegando fama, aglutinando os poetas e políticos do Cotinguiba, a turma do pagode do Vasco, os aristocratas da Siqueira Campos do Sergipe e os proletários do Confiança. Até um habilidoso meia do Cotinguiba ganhou um apelido e virou xará dela.
Contudo o “tratamento especial” ficava destinado à turma do Sergipe. Além de Ciganinha doar dinheiro ao clube em várias situações, os atletas do Gipão ficavam sossegados no seu Cabaré, ajudavam até servindo as mesas ou gerenciando o bar do estabelecimento. Certa vez um zagueiro, revelado no Flamengo, virou um frequentador assíduo do lugar. Tanto que os dirigentes do Sergipe foram buscá-lo no cabaré, três horas antes de um clássico contra o Confiança. Esse Zagueiro estava tão relaxado que foi eleito o melhor em campo, ganhando um “Motorádio” da imprensa e uma noitada em Ciganinha, com tudo pago por conta da direção
Mas nenhuma situação envolvendo Ciganinha e o Futebol foi tão marcante quanto no Estadual de 1983. Era Itabaiana vindo do pentacampeonato e da confusão judicial em 1982, Estanciano com um time extremamente valente, Confiança cheio de garotos e o faro de gol de Luis Carlos.. Contudo nada tirava o favoritismo do Club Sportivo Sergipe. O Gipão tinha um time entrosado, havia feito boa campanha no Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão e estava muito bem nas finanças devido a venda do craque Henágio para o Santa Cruz. Além dos bons salários ofertados, os jogadores de outros estados ficavam hospedados nos melhores hotéis de Aracaju.
Após longos três turnos e seis fases, o campeonato chegou ao triangular final com o Sergipe entrando com três pontos , o Confiança com dois e o Estanciano com um ponto. O Clássico Maior da última rodada, no domingo dia 04 de Dezembro, iria decidir tudo. O Estanciano tinha seis pontos e não iria mais jogar e o Confiança também tinha seis pontos e só dependia de si para ser campeão. O Sergipe tinha quatro pontos e caso vencesse o rival, provocaria um jogo extra.
O jogo terminou sem gols, o Sergipe não conseguiu fazer nada, mesmo com o árbitro José de Assis Aragão expulsando dois jogadores do Confiança. Após seis anos, o Confiança voltou a ser campeão estadual e ganhou a vaga para o Brasileirão da primeira divisão de 1984. Enquanto isso, a rebordosa veio com muita força nos lados do Gipão.
A direção do clube não pagou o salário dos jogadores (referentes ao mês de novembro) e tão pouco os fornecedores, especialmente os alugueis nos hotéis aos quais os atletas estavam hospedados. Na quarta feira, dia 07 de Dezembro, oito jogadores não eram do estado de Sergipe icaram desalojados e sem nenhum tostão em Aracaju. Graças aos amigos, o goleiro Albertino foi dormir na sala do departamento de esportes da Rádio Jornal de Sergipe, enquanto os outros sete jogadores foram buscar a ajuda de Ciganinha.
Imediatamente ela se prontificou em ajudar; ofereceu casa, comida e carinho para os jogadores. Era tanto amor, que alguns prolongaram a estadia por mais tempo. Então Ciganinha correu para organizar um bingo, fez promoção no estabelecimento e pediu doações.. Depois de conseguir arrecadar uma boa quantia, Ciganinha doou todo o dinheiro aos jogadores para que pudessem voltar para seus estados.
Depois disso, Ciganinha não hospedou mais jogadores de maneira fixa, mas decidiu que não iria cobrar mais nada de qualquer jogador do Gipão. Eram outros tempos, de um futebol mais romântico… literalmente.