Talvez tenhamos essa impressão pela influência do que vimos na Copa. Após assistir a tantos jogos equilibrados, tanta entrega, tanto amor à camisa, tanta disciplina tática, fica difícil ver jogadores de times de tradição andando em campo, como se a sorte de suas equipes pouco lhes importasse.
“Não venha com esse velho papo de que falta garra”, dirão alguns. “Você só está deprê porque seu time anda muito mal”, dirão outros. É, talvez todos tenham um pouco de razão. O certo é que não se vê mais a técnica, a qualidade de antes.
Em alguns jogos pesquisados no Youtube ainda nos deparamos com antigos locutores da TV Bandeirantes saudando os gols com o refrão “o melhor futebol do mundo no 13!”. E era verdade. O Brasil tricampeão do mundo praticava o futebol mais vistoso, mais ofensivo, mais repleto de craques do planeta.
Não que hoje não existam craques. Mas numa dimensão bem menor. Vimos na Copa alguns jogadores bem superiores aos nossos e percebemos, com alguma dor de cotovelo, que torcemos para times limitados, que ficaram com os jogadores que restaram, com os que não foram requisitados pelos mercados mais ricos. Percebemos, enfim, que estamos nos acostumando com a mediocridade.
Olhe para a classificação do Campeonato Brasileiro. Veja que o título deste ano deverá ficar, mais uma vez, entre Palmeiras e Flamengo. Agora olhe lá embaixo e veja quatro times de enorme tradição, como Santos, Vasco, Grêmio e Internacional, debatendo-se contra o rebaixamento.
O pior, entretanto, não ocorre dentro de campo. O futebol brasileiro é dirigido, em sua maioria, por incompetentes gananciosos com mania de grandeza. É óbvio que a única saída para os clubes é investir nas divisões de base e criar uma política salarial condizente com o combalido mercado nacional. Será que é tão difícil enxergar isso?
Como clubes à beira da insolvência, como Corinthians e Santos, podem pagar tanto a alguns jogadores? O caso mais assustador é do argelino, nascido na França, Billal Brahimi, que ganhava mais de um milhão de reais por mês no Santos e era tão ruim que só jogou 26 minutos e foi emprestado para o Estrela Amadora, de Portugal. O Corinthians pagava mais de três milhões mensais para o holandês Memphis Depay.
Montar times com jogadores caros e apostar que a conquista de títulos trará prêmios milionários e valorizará esses mesmos jogadores, compensando o investimento, é como jogar o futuro do clube numa mesa de pôquer ou numa bet. A chance maior é de perder e aumentar o rombo.
Já houve uma tentativa, na época do Clube dos Treze, de se estabelecer uma política salarial sustentável, que resguardaria a saúde financeira dos clubes brasileiros. Mas alguns se opuseram, como se quisessem dizer: “Ora, deixem isso para nós decidirmos, quem puder mais, chora menos”.
Agora, com o choque de realidade provocado por essa Copa, percebe-se que apesar da dinheirama vinda dessa infinidade de casas de apostas, o futebol brasileiro está pobre e previsível. Faltam craques, faltam beleza e competitividade. Se nada for feito, no final nem os que “podem mais” se salvarão. Todos vão chorar.