Explosivas manifestações de contentamento puderam ser vistas, até a madrugada, em vídeos provenientes dos mais improváveis lugares do planeta. Gente rica, gente pobre; jovens, principalmente, extravasaram sua alegria pela convocação de Neymar. Desde solitários quartos escuros, até praças públicas lotadas, a citação do nome do craque santista pelo técnico Carlo Ancelotti provocou gritos e gestos de extrema alegria.
O temor de que um dos atacantes mais habilidosos, criativos e carismáticos do futebol não fosse chamado pelo técnico italiano para disputar o Mundial crescia à medida que pitaqueiros profissionais, militantes de esquerda e o próprio governo brasileiro, pressionavam para que o ídolo – um crítico ao sistema político que governa o País – não fosse chamado.
Nos meus mais de 60 anos de futebol eu já tinha presenciado muitos movimentos para que jogadores fossem convocados para uma Copa. Em 21 de maio de 1958 a torcida corintiana, magoada pela não convocação de Luizinho, tomou o Pacaembu para torcer pelo seu time contra a Seleção, no último amistoso antes da viagem para a Copa da Suécia. O Escrete brasileiro, porém, era bem superior, e venceu por 5 a 0.
De qualquer forma, tratava-se de uma iniciativa a favor de um jogador, e não contra um outro, como se viu agora no caso de Neymar. Mesmo apoiado por craques indiscutíveis, como Romário, Ronaldo e Cafu, o atacante do Santos continuava desacreditado por palpiteiros que jamais chutaram – ou chutaram mal – uma bola na vida.
Até o presidente da República, em um encontro com Ancelotti, pressionou para que Neymar, que não é seu eleitor, não fosse chamado. O rapaz viveu um período em que, tal qual um criminoso, tudo o que dissesse poderia ser usado contra ele. Nesse período foi tratado como machista, irresponsável, acabado para o futebol.
Poucos atentaram para o fato de ele ser o maior artilheiro da Seleção Brasileira (79 gols); estar se recuperando, dia após dia, de uma contusão grave; manter-se esguio e em forma e ser um jovem experiente de 34 anos, ainda capaz de grandes jogadas e com uma visão de jogo bastante apurada. Enfim, alguém que pode decidir um jogo complicado de Copa do Mundo.
Em outros tempos, a imprensa esportiva brasileira, com uma nobreza que já não se vê, jamais se prestaria a uma campanha para excluir um jogador do sonho da Copa. Jornalistas como Nelson Rodrigues, Mário Filho, Ney Bianchi e Thomaz Mazzoni, entre outros, enxergavam no futebol uma manifestação popular de arte e beleza. Em nenhum momento iriam contrariar, ou, pior, tentar manipular, a vontade das massas.
Hoje, em que a opinião pública é formada por pitaqueiros, muitos deles sem escrúpulos, é salutar descobrir que a vontade popular ainda predomina nas grandes questões do futebol. A ida de Neymar à Copa é uma vitória de quem realmente ama o esporte e, sem outros interesses, apenas consegue enxergar e sentir a sua pureza.
Odir Cunha