Todos falam agora da final da Copa do Mundo.
É claro… Esse é o maior evento de toda a humanidade, e a finalíssima deste domingo, é o ponto alto desse torneio.
Todos estão atentos a essa passagem possível do mastro que o "rei Messi, aos seus 39 anos, poderia passar na sua última Copa a jovem estrela espanhola, Lamine Yamal.
Ele só tem 19 anos de idade.
Talvez ele não estranhe esse futebol repleto de eletrônica, interrupções para hidratação e outras novidades malucas que estão assassinando aquele jogo que tanto amamos.
Aquele futebol dos bons, antigo, verdadeiro, de rua, de terra batida.
Hartmut Scherzer tem 88 anos e ainda trabalha.
Pauline Kana tem 100 e ela,...ainda viaja atrás do futebol.
Eles não se conhecem.
Mas estão no mesmo palco, aqui nos EUA.
Nunca se encontraram.
Mas na Copa do Mundo de 2026, eles se tornaram símbolos vivos de algo que ninguém quer falar em voz alta.
O futebol que eles conheceram morreu.
O que está acontecendo em campo, agora, é outra coisa. Tudo menos, aquele futebol que Hartmut e Paulina se apaixonaram
quando jovens.
Algo que parece futebol, mas não é bem aquilo que todos
conheceram e não sabem bem como engolir o que a FIFA
" cozinhou ", nesse novo prato que temos em nossa mesa.
Hartmut começou seu caminho no futebol mundial em 1962.
Estava em Santiago do Chile quando cobriu sua primeira Copa
como jornalista.
Tinha 24 anos.
Viu Garrincha jogar. Viu Pelé em ação.
Viu o futebol quando era ainda futebol.
Nada menos 64 anos depois, em 2026, aos 88 anos, ali estava
Hartmut, em Nova York, cobrindo sua 17ª Copa.
Nunca perdeu uma. Nenhuma desde então.
64 anos de Copas do Mundo. 64 anos vendo o jogo mudar.
"Mudar e mudar e mudar de novo, até não ser mais o mesmo que
conheci", me disse ele, há alguns dias. numa das salas de
imprensa desta Copa.
Ele viaja sozinho e trabalha sozinho. Também escreve sozinho.
Ninguém o ajuda nem o acompanha. Ele apenas continua seu caminho.
Hartmut Scherzer, lenda viva do jornalismo esportivo mundial
começou oficialmente a escrever, há mais de 6 décadas, quando
ingressou na agência de notícias americana UPI em 1960.
Dois anos depois, em 1962, ele cobria o seu primeiro Mundial no
Chile.
Ao longo de sua carreira, ele também relatou as emoções de mais
de 20 Jogos Olímpicos e de dezenas de edições do Tour de France.
Hoje, atuando como freelancer, ele publica suas crônicas em
prestigiados jornais alemães, incluindo o Frankfurter Allgemeine
Zeitung, o Die Zeit, o Frankfurter Rundschau e o Abendzeitung
München.
Scherzer também imortalizou essas histórias no livro de
memórias "Welt Sport - 60 Jahre Erlebnisse einer Reporter-
Legende" ( Esporte Mundial- 60 anos de Experiências de
uma Lenda da Reportagem).
Sua longevidade na imprensa internacional é um feito único no
esporte global.
A FIFA reconheceu esse feito. Demorou, mas reconheceu.
Lhe deu um troféu especial.
A FIFA lhe concedeu duas distinções oficiais importantes.
A distinção Jules Rimet em 2005 e o prêmio "Journalists on the
Podium" em 2022, na Copa do Mundo do Qatar.
Ali, Scherzer foi condecorado no palco por Ronaldo Fenômeno.
Ele recebeu um certificado oficial e uma réplica em miniatura do troféu da Copa do Mundo em homenagem à sua longevidade.
Antes do jogo Alemanha e Equador no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a FIFA lhe deu mais um diploma, para celebrar o recorde mundial absoluto de sua 17ª cobertura de Copas.
" Vi o futebol moderno nascer em 1970, com a TV a cores.
E vejo desde então, de novo, a cada 4 anos novidades.
E agora estou vendo o futebol mudar, em câmera lenta, para algo
que está difícil entender, estranho de aceitar", ele explica sorridente.
Um reconhecimento para alguém que viu Maradona, Pelé, Bobby
Charlton, Beckenbauer, Zico, Cruijff, Platini, Eusébio, Francescolli,
Zoff, Dasayev, Rossi e Romário, Ronaldinho...enfim: todos os
grandes.
Para ele, " Pelé ficaria louco diante de tantas mudanças.
Beckenbauer se revoltaria!".
Para alguém que viu 64 anos de história do futebol,
pausas de hidratação, árbitros com câmeras na cabeça e
impedimentos por causa de uma ponta de chuteira além da linha
do defensor....são uma revolução " que às vezes me deixa com dor
de cabeça. Um esporte simples, que qualquer um pode jogar com
uma bola feita de meias, não pode virar algo tão meticuloso,
detalhista", Hartmut me diz.
Já Pauline Kana é diferente.
Ela não é jornalista.
Ela gosta mesmo é do Messi. 100 anos de idade.
E segundo ela, 100 anos vendo Copas do Mundo.
Conhecida nas redes sociais como "Gangster Granny" (Vovó
Gângster) ou "Granny Smith", ela é uma influenciadora digital
norte-americana de 100 anos de idade, que cria conteúdos
humorísticos e virais junto com seu neto, o tiktoker Ross Smith.
Ela aparecia nos estádios com cartazes.
Cartazes simples. Que diziam coisas como "Eu amo Messi".
Que, obviamente, viralizavam nas redes sociais.
Seu neto, Ross Smith, filmava tudo.
Pauline virou viral, quase uma lenda.
Ela se declarou uma super fã, apaixonada por Messi.
Ela esteve presente em jogos do Inter Miami (onde o camisa 10 a
saudou no aquecimento) e marcou presença nas arquibancadas dos estádios americanos nesta Copa do Mundo, para assistir aos
jogos da Argentina.
Após levar um cartaz ao estádio dizendo que "viveu todas as
Copas do Mundo", ela chamou tanto a atenção, que o próprio
Messi mandou entregar uma camisa oficial da Argentina
autografada de presente para Pauline.
Uma torcedora centenária e ilustre nos estádios da Copa, que
também disse : "não entendo muito bem as novas regras, para
dizer a verdade. Sempre vi futebol, mas parece que agora está
diferente, mais complicado", diz ela singela e pacientemente.
Entre o TikTok, o YouTube e o Instagram, ela já ultrapassa a
marca de 70 milhões de seguidores.
Como ela nasceu em agosto de 1926, Pauline tinha apenas 4 anos
quando a primeira Copa do Mundo da FIFA aconteceu no Uruguai,
em 1930.
Além de acompanhar o torneio atual de 2026 na América do Norte,
ela carrega no currículo a experiência de ter visto o jovem Pelé
jogar "desde 1958! ", diz ela.
Pauline virou a avó que todo mundo queria ter, aplaudida de pé, cada vez que o telão dos estádios mostrava seus cabelos brancos e seu sorriso permanente.
Mas Pauline também sabe que está vendo o fim de uma era:
" Do futebol que conquistou meu coração. Não este futebol maluco
que vejo hoje", disse ela, após a vitória da Argentina contra o Egito.
Quando Messi marcou contra Cabo Verde, Pauline chorou.
Quando Messi foi para o chão, Pauline gritou.
Quando Messi levantou, Pauline respirou com alívio.
Mas quando a câmera do árbitro transmitiu em tempo real o ponto
de vista dele, e quando o chip da bola rastreou cada toque em
tempo real, ela diz ter ficado confusa.
Quando a pausa de hidratação obrigatória no 1º tempo interrompeu
o fluxo do jogo, Pauline viu algo que a assustou, segundo seu neto.
"Ela viu que o futebol não era mais sobre os jogadores. Era sobre
a tecnologia. Era sobre os árbitros com câmeras na cabeça e
os sensores na bola.
Os avatares 3D que aparecem nas transmissões, mostrando
linhas de impedimento como um desenho animado, com precisão de centímetros,a assustaram um pouco.
Pauline entendeu que "o futebol tinha se tornado um laboratório".
A verdade é que para Hartmut e Pauline, mas para centenas de
milhões de torcedores, árbitros em 2026, não parecem mais
árbitros.
"Parecem soldados de ficção científica", diz Hartmut.
Câmeras montadas nas têmporas e fones nos ouvidos.
Auriculares para receber instruções do VAR, microfones para
falar ao estádio inteiro e GPS no pulso. Relógios inteligentes.
Conexão permanente com o sistema de análise eletrônica.
Telas e mais telas.
Cada árbitro agora é quase um cyborg.
"Os árbitros parecem robôs, máquinas humanas no terreno de
jogo", explica o jornalista veterano alemão.
Os árbitros mudaram,a bola também mudou.
As câmeras, os telões, até as redes do gol: tudo mudou.
As pausas de hidratação acontecem aos 22 minutos de cada
tempo.
Por 20 segundos, os jogadores bebem, mas por mais de 2 minutos
os treinadores mudam táticas, acertam posicionamentos.
Mudam o jogo, que vinha numa intensidade, e depois da pausa,
retoma do zero seu movimento, como se a partida começasse de
novo.
O fluxo natural do jogo foi quebrado.
A emoção foi interrompida, e o ritmo foi destruído.
Nos tempos de Hartmut, os jogadores bebiam água escondido.
"Bebiam durante o jogo. Bebiam quando podiam".
Agora tudo é programado e controlado.
Tudo é científico.
A pausa de hidratação é uma metáfora perfeita para aquilo que o
futebol se tornou:Até a água é regulada por tempos e câmeras.
O futebol em 4 tempos em vez de 2.
4 tempos de 25 minutos cada...
A nova realidade que Hartmut e Pauline, e centenas de milhões de
torcedores não conseguem engolir.
Hartmut e Pauline, apesar da idade avançada, sabem muito bem
o que tudo isso significa.
"Significa que o futebol não será mais sobre 90 minutos daquele
puro jogo onde 90 minutos se deixava os atletas resolverem as
coisas em campo. Agora, querem controlar o futebol por controle
remoto", diz Hartmut.
A final terá um show de música.
Na metade do jogo, fazendo com que os músculos dos atletas esfriem bem mais que os 15 minutos regulamentares de intervalo, que a própria FIFA decidiu estabelecer há décadas.
O time que estiver perdendo ao final do 1º tempo, que se vire: ao
invés de voltar rápido ao campo, e lutar para buscar o empate,
enquanto seu adversário fará de tudo para defender sua vantagem,
....que esperem um pouco mais.