Olhos no retrovisor: Há 50 anos, em Nurburgring, o terrível acidente de Niki Lauda
Olhos no retrovisor: Há 50 anos, em Nurburgring, o terrível acidente de Niki Lauda
Por Marcos Júnior Micheletti - 01/08/2026 11:00
Piloto austríaco sofreu inúmeras sequelas, mas retomou sua carreira. Foto: Reprodução
Tricampeão mundial de Fórmula 1, à época dono de um título, o de 1975 (pela Ferrari), o austríaco Niki Lauda (1949-2019) sofria um seríssimo acidente há exatos 50 anos, durante o GP da Alemanha, no longo e traiçoeiro circuito de Nurburgring.
A Ferrari #1 de Lauda incendiou-se após choque contra um guard rail ainda na primeira volta da prova naquele 1º de agosto de 1976, e ele ficou preso às ferragens por vários minutos. Foram necessários vários minutos para que ele fosse removido do cockpit de sua 312T.
Com queimaduras de primeiro grau, chegou a receber a extrema-unção de um padre no hospital. Segundo o próprio Lauda, ele ouvia tudo o que falavam ao seu redor durante os primeiros dias de internação, quando todos pensavam que ele estivesse inconsciente.
As sequelas foram profundas em seu rosto, que ficou desfigurado, mesmo após diversas cirurgias plásticas. Sua orelha direita foi praticamente toda consumida pelo fogo e parcialmente reconstituída.
A TEMPORADA DE 1976, DO GRAVE ACIDENTE
Começou a temporada de 1976, também guiando pela Ferrari, com dus vitórias (Brasil e África do Sul) e conseguiu mais três triunfos (Bélgica, Mônaco e Inglaterra). Mas o acidente em Nurburgring foi decisivo e além de perder a etapa alemã, Lauda não participou da prova seguinte, na Áustria.
Hunt aproveitou para reduzir a diferença no campeonato. Até o acidente de Lauda, o placar era 61 para o austríaco da Ferrari e 26 para o inglês Hunt, da McLaren.O título para o time de Maranello parecia barbada.
O inglês, guiando o carro acertado por Emerson na temporada anterior, tirou toda a diferença que pôde enquanto Lauda esteve fora de combate, e alinhou sua McLaren em Monte Fuji com três pontos a menos que o ferrarista.
Resumo: a largada foi adiada por mais de duas horas devido à chuva torrencial que caía no Japão. Vencidos pelos interesses dos patrocinadores, os pilotos entraram em suas "cadeiras elétricas", e foram à luta.
Lauda, cauteloso, deixou um batalhão ultrapassá-lo e em seguida encostou seu carro escarlate nos boxes.
O time de Maranello justificou, em nota, "problemas mecânicos" para o abandono de seu campeão. Lauda rebateu, depois, alegando outro motivo, bem mais humano:
"A Ferrari me paga para correr, não para me jogar da janela", disse o austríaco.
Tudo transcorria a favor de Hunt sem o rival na pista. Após ter liderado por bastante tempo, ele estava em terceiro na prova, atrás de Depailler e Andretti, colocação que lhe renderia quatro pontos pelo sistema antigo da F1, quando Depailler foi para os boxes trocar pneus, e o trabalho foi mais demorado, pois ele corria com a folclórica Tyrrell P-34, aquela de seis rodas.
Ainda sofreu um ataque impetuoso do piloto italiano Vitorio Brambilla, que quase bateu em Hunt em tentativa frustrada de ultrapassagem.
Hunt, então, subira para segundo, agora fazendo seis pontos, mas o inesperado aconteceu, quando o pneu dianteiro esquerdo de seu carro estourou pouco antes da reta dos boxes.
Com o coração na boca, o inglês entrou para uma troca não planejada e, após trinta eternos segundos, foi devolvido à pista pelos mecânicos na quinta colocação, atrás de Mário Andretti, Patrick Depailler, Clay Regazzoni e Alan Jones. Em quinto lugar, Hunt marcaria apenas dois pontos, lembrando que ele precisava de três para sagrar-se campeão.
Hunt partiu para o tudo ou nada nas voltas finais. Regazzoni, com problemas nos pneus, caiu várias posições, mas a falta de comunicação de pilotos e boxes não permitiu que Hunt soubesse que já era o quarto colocado e virtualmente o campeão.
Encostou na Surtees de Alan Jones e, na última volta, arriscou tudo na ultrapassagem sobre o australiano, pensando ser o quarto ao conseguir a manobra, quando na realidade já era o terceiro.
O que se discutiu a partir daquele instante, com Hunt ganhando seu único título na elite do automobilismo mundial, foi se Lauda não deveria ter tido coragem para continuar na pista. Os tiffosi o alcunharam de covarde, mas tiveram de engolir Lauda desfilar sua categoria no ano seguinte, quando arrebatou seu segundo título mundial, pela própria Ferrari, com três vitórias (Africa do Sul, Alemanha e Holanda).
As agruras daquela temporada de 1976 foram detalhadas em película, no ótimo "Rush", de 2013, com direção de Ron Howard.
Andreas Nikolaus Lauda voltaria a ser campeão mundial de Fórmula 1 em 1984, derrotando o companheiro de equipe, o francês Alain Prost, por apenas 0,5 ponto.
OPINIÃO DE CLAUDIO CARSUGHI SOBRE NIKI LAUDA
Para o jornalista Claudio Carsughi, o ponto diferencial de Lauda em relação aos seus oponentes foi a `tática de corrida, que lhe valeu o apelido de computador´, sabendo o que era necessário para que somasse pontos para vencer um campeonato.
"A característica que mais marcou sua carreira e lhe valeu o apelido de “computador” foi a tática de corrida, o saber em todo momento o que era melhor fazer, se atacar no limite do carro ou resguardá-lo para chegar até a bandeirada. Sempre tendo em mente a disputa do Mundial, e os pontos necessários para vencê-lo", comentou Carsughi ao Portal Terceiro Tempo, exemplificando esta virtude do austríaco na conquista de seu terceiro título na F1, em 1984, derrotando seu companheiro de equipe na McLaren, o francês Alain Prost.
ABAIXO, TRAILER OFICIAL DE "RUSH, NO LIMITE DA EMOÇÃO", DE 2013, COM DIREÇÃO DE RON HOWARD
Alex na Inglaterra, no circuito de Watikins Glen em 1977, com a March. Ao lado, a Ferrari de Niki Lauda. Foto: Divulgação
Niki Lauda e Rubens Barrichello em 22 de setembro de 2013, no circuito de Marina Bay, em Cingapura, acompanhando o GP de F1. Foto: Instagram de Rubens Barrichello
James Hunt e Niki Lauda na temporada de 1976 eternizada em um filme, "Rush, No Limite da Emoção", de 2013, com direção de Ron Howard, o mesmo de "Cocoon", "Apolo 13" e "Uma Mente Brilhante", pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor em 2003. Reprodução
O tricampeão Niki Lauda se encontra com o tetracampeão Alain Prost minutos antes da largada do GP de Mônaco de F1, em 25 de maio de 2013. Foto: UOL
Caixão de Ronnie Peterson, morto em decorrência do acidente na largada do GP da Itália de 1978, em Monza, sendo carregado pelos amigos pilotos. Atrás estão Keke Rosberg, Emerson Fittipaldi e James Hunt. Em primeiro plano, Jody Scheckter, Niki Lauda, John Watson e Gunnar Nilson, que faleceu um mês e nove dias depois. Foto: Divulgação
Em 1976, o austríaco Niki Lauda (à época na Ferrari) e Ronnie Peterson, da March, conversam antes de um GP. Naquele mesmo ano, Lauda teve o rosto desfigurado pelo acidente sofrido no GP da Alemanha, em Nurburgring. Foto: Divulgação
Niki Lauda e Emerson Fittipaldi durante os treinos para o GP do Canadá de Fórmula 1, em 9 de junho de 2012. Foto: Twitter de Emerson Fittipaldi
Em seu primeiro ano pela Ferrari, ouvindo os conselhos do tricampeão Niki Lauda. Foto: Divulgação
Em 1974 e em 2011
O avião da Niki, empresa administrada por Lauda e a Lufthart. Foto: Divulgação
O avião da Lauda Air, empresa fundada por Niki Lauda. Foto: Divulgação
Lauda aos 62 anos. Foto: Divulgação
Com as marcas do acidente, em sua primeira temporada pela McLaren. Foto: Divulgação
Um ano antes do acidente que provocou queimaduras em seu rosto. Foto: Divulgação
Em 2002, Lauda era diretor-técnico da Jaguar, e declarou que os carros da época eram fáceis de pilotar, "até um chimpanzé" guiaria um deles, disse. Ele fez uma tentativa em Valênca, na Espanha, mas o carro não foi tão "amistoso" com o tricampeão, e Lauda acabou rodando e voltando aos boxes rebocado. Foto: Divulgação
Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart e Niki Lauda.Foto: Divulgação
Outra bela imagem dos amigos Nelson Piquet e Nik Lauda, em 2002. Foto: Divulgação
Em 1979, Nelson Piquet ao lado do amigo Niki Lauda. Foto: Divulgação
Niki Lauda e o argentino Carlos Reutemann, em 1974. Foto: Divulgação
Niki Lauda é saudado por Ayrton Senna em 1984, ano de estreia do brasileiro, pela Toleman-Hart. Foto: Divulgação
Niki Lauda e James Hunt disputam roda a roda. O austríaco com a Ferrari e o inglês com a McLaren-Ford. Foto: Divulgação
No GP norte-americano disputado nas ruas de Long Beach, com a McLaren-Ford. Foto: Divulgação
Na mais lenta curva do calendário da Fórmula 1, a Lowes, no Principado de Mônaco. À esquerda está o italiano Arturo Merzario com o carro Merzário-Ford, abrindo passagem para Niki Lauda, com a Ferrari. Foto: Divulgação
Em 1984 Lauda conquistou o tricampeonato na Fórmula 1, com a McLaren-Porsche. Foto: Divulgação
Em 1983 na Inglaterra, no final de semana para a corrida disputada em Brands Hatch. Foto: Divulgação
Em 1979, ano em que anunciou sua primeira despedida da Fórmula 1. Lauda a bordo da Brabham-Alfa Romeu de 12 cilindros no traçado de Interlagos, prova dominada pela Ligier-Ford, que fez a dobradinha com os franceses Jacques Laffitte e Patrick Depailler. Foto: Divulgação
No GP da Inglaterra de 1978, com a Brabham-Alfa Romeo. Foto: Divulgação
Brands Hatch, Inglaterra, com a Ferrari. Foto: Divulgação
O terrível acidente de Lauda em Nurburgring, na Alemanha. Foto: Divulgação
Niki Lauda com a Brabham BT 46 -Alfa Romeo em 1978, à frente de seu companheiro de equipe Nelson Piquet e do francês Patrick Depailler, com a Tyrrell-Ford. Foto: Divulgação
A Ferrari com a qual conquistou seu primeiro título na Fórmula 1, em 1975. Foto: Divulgação
Rivais em 1976, Lauda conversa com o inglês James Hunt antes do GP de Mônaco. Foto: Divulgação
Com o carro da BRM, no Canadá. Foto: Divulgação
Em Fiorano, nos preparativos para a temporada de 1975, a dupla da Ferrari: Niki Lauda e Clay Regazzoni. Lauda foi o campeão daquele ano e Regazzoni terminou em quinto. Foto: Scuderia Ferrari
A Brabham BT46 de 1978. O genial projetista sul-africano Gordon Murray tentou fazer frente às Lotus, que dominavam a temporada, e criou esta solução, com um ventilador atrás, que aspirava o ar e amplificava o efeito-solo. Niki Lauda disputou apenas um GP com este carro naquele ano, o da Suécia, em Anderstop, e venceu. A FIA acabou proibindo a solução e Murray precisou encontrar outras soluções para melhorar o carro. Foto: Reprodução
Em Montjuic, antes do GP da Espanha de 1975, Niki Lauda, Jodcy Scheckter, Graham Hill, Emerson Fittipaldi e James Hunt vistoriam o traçado, preocupados com a segurança. Emerson, alegando que o traçado era muito perigoso, não participou da prova, que ficou marcado pela tragédia das mortes de cinco espectadores, atingidos pela Hill de Rolf Stommelen. Foto: Reprodução
Em 1976, na apresentação da Ferrari 312 T2, Clay Regazzoni, Niki Lauda e Enzo Ferrari. Foto: Divulgação
Niki Lauda dá uma carona a Ronnie Peterson em sua bicicleta, parecida com nossas "Monaretas" dos anos 70. Foto: Reprodução
Em 15 de agosto de 1971, em Osterreichring, na Áustria, dia em que disputou seu primeiro GP de F1. Foto: Divulgação
Em 2 de outubro de 1977, dia em que conquistou seu bicampeonato mundial de F1, pela Ferrari, com o quarto lugar obtido no GP dos EUA, em Watkins Glen. Foto: Divulgação
No pit-lane de Watkins Glen, nos Estados Unidos, Niki Lauda com sua Brabham BT46B (#1) e Emerson Fittipaldi com o Copersucar F5A (#14). Foto: Divulgação
Jovens pilotos e veteranos. Atrás, Niki Lauda e Keke Rosberg. À frente, Mathias Lauda, Nelsinho Piquet e Nico Rosberg, em 2005, durante fim de semana da GP2. Foto: Divulgação
A Caloi promoveu sua bicicleta mais cobiçada na época, a Caloi 10 com uma propaganda envolvendo sete pilotos que participaram do GP Brasil de 1977. Da esquerda para a direita: Jody Scheckter (Wolf), Patrick Depailler (Tyrrell), James Hunt (McLaren), Niki Lauda (Ferrari), Ingo Hoffmann (Copersucar-Fittipaldi), Emerson Fittipaldi (Copersucar-Fittipaldi) e Larry Perkins (BRM). Foto: Facebook/Copersucar-Fittipaldi