A FIFA criou uma pausa que quebra o ritmo dos jogos, multiplica espaços publicitários e aproxima o futebol do modelo de espetáculo típico dos esportes americanos. Imagem: Reprodução

A FIFA criou uma pausa que quebra o ritmo dos jogos, multiplica espaços publicitários e aproxima o futebol do modelo de espetáculo típico dos esportes americanos. Imagem: Reprodução

Câmeras na cabeça de árbitros, regras novas na substituição de jogadores, Copa com 48 países ao invés de 32… no meio de uma maré de novidades impostas pela FIFA o que vem chamando a atenção é o tal do intervalo para a hidratação.

O que era para ser um cuidado médico virou o assunto mais quente e discutível dos bastidores desta Copa do Mundo.

A verdade é que essa novidade está transformando o futebol, cada vez mais, no tal do soccer.

Agora, assim como no basquete ou no futebol americano, o nosso velho esporte de dois tempos parece ter ganhado quatro tempos.

O torcedor mais atento se pergunta: por que para beber água não se precisam mais de 10 ou 15 segundos, como foi feito até hoje e há décadas na história do futebol?

Agora, a regra é rígida: são nada mais que 3 minutos de intervalo.

Uma vez no primeiro tempo e outra no segundo tempo.

Tempo suficiente para quebrar o ritmo de qualquer partida.

Obviamente, no futebol moderno de Berço de Ouro da FIFA, nada acontece por acaso.

Assim como a placa do quarto árbitro que anuncia as substituições e os minutos de acréscimo virou um espaço comercial, agora o tal do intervalo de hidratação também é patrocinado.

Para as televisões que transmitem os jogos pelo mundo, isso virou uma mina de ouro: são 3 minutos de tempo comercial bem no meio do jogo para vender e mostrar mais publicidade na tela.

O discurso oficial fala em saúde, mas o bolso agradece.

E a tese médica cai por terra quando olhamos para a beira do gramado.

Já são vários técnicos importantes que destroem a ideia de que isso é apenas saúde.

A desculpa era o bem-estar dos atletas, mas os treinadores aproveitam os tais três minutos de hidratação para distribuir instruções táticas, desenhar jogadas e mudar o time.

Mas não era pausa para hidratação?

Como agora estamos falando de técnicos dando instruções?

O mundo do futebol de elite já percebeu a jogada e os grandes comandantes não escondem a irritação:

Jürgen Klopp, talvez dentre os três mais importantes técnicos no mundo, já foi curto e grosso: disse que a pausa é uma aberração.

Carlo Ancelotti seguiu a mesma linha, afirmando que essa parada não traz absolutamente nada ao futebol.

Lionel Scaloni, o comandante da Argentina, desabafou dizendo que essa “pausa não é algo normal!”.

Marcelo Bielsa, técnico do Uruguai, foi ainda mais profundo: “não faz nem deveria fazer parte do futebol”.

Se os técnicos odeiam, a torcida odeia ainda mais.

O público que paga o ingresso não quer comercial de TV no meio da emoção.

Em todos os estádios da competição, o que se ouve quando o juiz apita a pausa são vaias intensas.

No Canadá e nos EUA o clima esquentou, mas foi no México onde as longas e duras vaias quase derrubaram o teto dos estádios.

A FIFA, incomodada com o protesto barulhento do mundo inteiro, tomou uma decisão de bastidores bizarra: colocar música nos alto-falantes do estádio em pleno jogo, durante a pausa de hidratação!

A estratégia começou na cidade de Monterrey, na partida entre Japão e Tunísia, e daí não parou mais.

O som alto tenta abafar a bronca do público.

Mesmo assim, algumas vaias ainda são ouvidas, até que os torcedores, no ambiente de festa, preferem dançar a vaiar.

Enquanto isso, nos bastidores da mídia, o caso da FOX TV ainda ecoa forte nas páginas dos jornais americanos.

A transmissora oficial da Copa nos EUA já conseguiu, por duas vezes, que os jogos recomeçassem de 10 a 15 segundos depois dos três minutos previstos de pausa.

O dinheiro da TV manda tanto que, segundo informações locais obtidas na abertura da Copa, o árbitro brasileiro Wilson Sampaio teria sido orientado a retardar a retomada do jogo na volta da pausa de hidratação.

O motivo?

A FOX ainda estava com uma publicidade comercial no ar e o jogo não podia recomeçar sem a audiência americana.

O calor enorme na América do Norte foi a justificativa para a criação da tal pausa.

O calor demanda hidratação, disseram os engravatados de Zurique.

Mas há uma contradição terrível no ar. Ao mesmo tempo em que a FIFA definiu e decidiu que os atletas precisam parar para beber água, ela proibiu que os torcedores entrem com água nos estádios.

Nem mesmo com garrafas pessoais de metal, por "questões de segurança".

Assim, os torcedores são obrigados, no calor de 41 graus de Miami ou de Dallas, a comprar água exclusivamente nas lojas oficiais do estádio a impressionantes 8 dólares cada garrafinha.

Como cada torcedor fica em média 3 horas dentro do estádio, ao menos duas ou três garrafas de água terão de comprar para poder sobreviver ao calor sufocante.

Mas nem todo mundo tem ou aceita pagar esse absurdo.

Assim, segue a tal da pausa de hidratação para os atletas.

Os que pagam pelo show, que paguem pela água.

Até alguém cair duro no calor absurdo que dá aqui, hidratação mesmo só patrocinada e em campo. 

E olha só que interessante: quando querem, mudam tudo de novo!

No jogo França x Iraque, pela primeira vez nesta Copa, foi ativado o “ Protocolo de Tempestade “. O jogo foi interrompido por nada menos que duas horas.

Entre o fim do primeiro tempo e antes do início do segundo tempo, chuva forte, relâmpagos e trovões cobriram os céus da Filadélfia.
Ao recomeçar o jogo, tudo normal. Sem chuva Mbappe e companhia destruíam o adversário.

E a organização decidiu que não haveria a pausa para hidratação.

Ou seja no segundo tempo deste jogo, pela primeira vez, não houve pausa de hidratação!

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