Para as gerações mais jovens que acompanham o esporte no TikTok ou no videogame fora do Brasil, o nome de Brito talvez não carregue o peso midiático de Pelé ou Jairzinho

Para as gerações mais jovens que acompanham o esporte no TikTok ou no videogame fora do Brasil, o nome de Brito talvez não carregue o peso midiático de Pelé ou Jairzinho

Entre as celebrações intensas dos torcedores, as surpresas chocantes, as decepções amargas e as crônicas curiosas que aparecem nesta Copa do Mundo, há uma verdade implacável que continua saltando aos olhos.

O Brasil ainda é, talvez hoje mais do que nunca, o país mais magnético e amado do futebol que existe no planeta.

Nas tribunas reluzentes e nos camarotes VIPs dos estádios norte-americanos, desfilam rostos dos ídolos que qualquer um reconhece num piscar de olhos.

Ali entre dirigentes do futebol mundial, estão Kaká, Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo Fenômeno, caminhando com a fidalguia de quem é dono do espaço, cercados por flashes, tapinhas nas costas e memórias vivas.

São imagens potentes, que fazem recordar uma nostalgia quase amarga, uma saudade daquele tempo.

E que nos resgatam aquela era de ouro onde o Brasil parecia praticar um esporte vindo de outra galáxia.

Mas, antes que essa constelação moderna ditasse as regras do jogo, o solo sagrado do futebol foi pavimentado por outros gigantes.

Homens de ferro de verdade, que escreveram páginas monumentais e erguerem do absoluto zero o respeito que a camisa verde-amarela impõe no cenário global.

E precisamente agora, em meio ao turbilhão eletrizante deste maior Mundial da história, duas notícias desferiram um golpe profundo e doloroso no coração de quem realmente entende e vive a alma do futebol brasileiro.

E que precisam ser lembradas.

Uma delas nos confronta com a dor de uma despedida definitiva.

A outra, nos coloca diante da ansiedade diante de uma batalha silenciosa pela vida.

O primeiro capítulo dessa crônica tem nome, sobrenome e a imponência da história: Hércules Brito Ruas.

Para o mundo, simplesmente Brito.

Exatamente no momento em que os motores desta Copa começavam a roncar e os holofotes se acendiam, o lendário ex-defensor brasileiro nos deixou, aos 86 anos.

Para as gerações mais jovens que acompanham o esporte no TikTok ou no videogame fora do Brasil, o nome de Brito talvez não carregue o peso midiático de Pelé ou Jairzinho.

Mas para quem mergulha nas entranhas daquela dinastia, ele era a viga de sustentação, o porto seguro de uma das maiores seleções que a humanidade já viu jogar.

E para dimensionar o tamanho exato desse colosso, bastam as palavras definitivas do Rei Pelé, que certa vez decretou: "Brito foi o melhor zagueiro que jogou ao meu lado em toda a minha carreira".

Pare e pense na dimensão, no peso dessa declaração.

Pelé dividiu o gramado com os maiores operários e gênios da bola. Compartilhou vestiários com deuses do futebol, lendas intocáveis. E, ainda assim, elegeu Brito.

Com o nome de batismo de Hércules, o nome parecia uma profecia esculpida para o seu porte físico e sua força descomunal dentro das quatro linhas.

Numa época romântica, sem o rastreamento milimétrico de GPS, sem suplementação de última geração ou a ciência esportiva moderna, Brito era um espécime físico invejável, o pulmão de aço daquele esquadrão.

No México, em 1970, ele jogou simplesmente cada minuto, cada segundo da Copa.

Não saiu de campo uma única vez.

Aquele time de 1970 é reverenciado por dez entre dez especialistas como a obra-prima definitiva do futebol.

Tinha Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto Torres. Uma constelação de camisas 10.

E no meio daquele furacão de criatividade, lá estava Brito, executando o trabalho cirúrgico, duro e silencioso que raramente ganha a moldura das capas de revista, mas que sustentou o show de bola que o Brasil apresentou, vencendo todas as partidas que jogou no México, na Copa de 1970.

Há também o peso da responsabilidade em sua trajetória.

Quando despontou no Vasco da Gama, recebeu a ingrata e quase impossível missão de substituir Bellini.

Isso: Bellini, o capitão que ergueu a primeira Taça do Mundo conquistada pelo Brasil, em 1958.

A pressão esmagaria qualquer garoto comum.

Não para Brito.

Ele, forte e corajoso, humilde e sério, assimilou o golpe e construiu uma dinastia.

A dinastia Brito!

Foram mais de 400 jogos pelo clube de São Januário, passagens marcantes por Flamengo, Botafogo e Internacional, consolidando-se como uma das torres de defesa no futebol, mais respeitadas de sua era.

Até nos seus momentos derradeiros, a ironia fina e o espírito brincalhão do futebol não o abandonaram.

Pouco antes de partir, humilde e amável gigante como sempre, brincou com os amigos mais próximos dizendo esperar que Carlo Ancelotti não o cortasse da lista de convocados para esta Copa.

"Quero defender o Brasil!"

Um sorriso genuíno de quem nunca se desligou do cheiro da grama.

A ironia do destino também carrega a sua dose de poesia e dor.

O Brasil atingiu o ápice daquele tricampeonato no mítico Estádio Azteca, trucidando a Itália por 4 a 1, na capital do México.

E quis o destino que o Azteca voltasse a ser o epicentro emocional deste Mundial em 2026.

É como se o futebol, em sua matemática perfeita, tivesse fechado um ciclo histórico. Com Brito que se foi.

Mas enquanto o futebol se despedia de um de seus pilares de 1970, outro bastidor começou a acender o sinal de alerta e trazer profunda preocupação.

Carlos Alberto Parreira, a mente brilhante, o estrategista que orquestrou o tetracampeonato do Brasil em 1994, atravessa um momento delicado e complexo em sua saúde, lutando internamente em um hospital no Rio de Janeiro.

E, sim, vou falar dele.

O quanto precisar, pois como dizem nos corredores da FIFA, não existiu um "gentleman sábio de futebol como Parreira!".

Parreira, hoje com 83 anos, representa para o futebol internacional muito mais do que um simples técnico de prancheta.

Ele foi um arquiteto conceitual.

Quando o Brasil desembarcou nos Estados Unidos em 1994, o país carregava nas costas o fantasma de um jejum insuportável de 24 anos sem o título mundial.

A pressão social e esportiva era sufocante. Havia uma crise de identidade, um medo real de que o Brasil tivesse esquecido o caminho das pedras.

Foi ele, Parreira, quem blindou o grupo, organizou o caos e reconstruiu a máquina vencedora.

E há uma conexão extraordinária que poucos reparam: em 1970, na epopéia do tri, Parreira já estava lá, sob o comando de Zagallo, suando a camisa nos bastidores como preparador físico daquele time de Brito e Pelé.

24 anos depois, os papéis se inverteram de forma magistral: ele assumiu o comando principal e trouxe o mestre Zagallo para ser seu braço direito.

Uma vida inteira, sem pausas, dedicada à liturgia tática e técnica do futebol.

Parreira é um dos homens que mais respirou Copas do Mundo na história do esporte, comandando além do Brasil, as seleções nacionais do Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita e a anfitriã África do Sul em 2010.

Um acadêmico da bola que passou décadas ensinando novos treinadores e liderando os grupos de estudo técnico da FIFA pelo planeta.

O detalhe mais fascinante de sua biografia é que Parreira nunca foi um jogador de elite, uma estrela dos gramados.

Ele ergueu seu império através do intelecto, do estudo científico, da leitura minuciosa do jogo e do trabalho obsessivo.

E de muita personalidade.

Por isso, o contraste com o momento atual nos atinge em cheio como um soco no estômago.

Enquanto o mundo se deslumbra com esta Copa hiper tecnológica, inflada por luzes de LED, arenas futuristas, shows de entretenimento e ex-jogadores desfilando de terno em áreas exclusivas, há um grande homem bem longe daqui, do palco da Copa do Mundo.

Um dos homens que resgatou o orgulho do futebol brasileiro e devolveu o país ao topo do mundo, agora trava a sua batalha mais dura e solitária em um leito hospitalar.

E é nessa fresta que o futebol moderno revela sua face mais cruel e esquecida.

Os Mundiais passam num piscar de olhos.

Os gols viram vídeos rápidos na internet.

As postagens em redes sociais evaporam em segundos.

Mas os operários e os pensadores que moldaram a mitologia desse esporte deveriam ser eternos.

Brito saiu de cena. Parreira resiste em sua trincheira.

E para fechar essa crônica com a acidez necessária, há um detalhe final que deixa um sabor extremamente amargo na boca dos amantes do futebol.

Em meio ao glamour dessa Copa do Mundo, entre os discursos ensaiados de protocolo, homenagens comerciais e pirotecnia de abertura, a FIFA não teve a sensibilidade de promover um único minuto de silêncio para honrar a morte de Brito.

Uma falha burocrática imperdoável com um campeão de 1970, um homem que ajudou a transformar o futebol no espetáculo bilionário que a própria entidade vende hoje.

O futebol de bastidores esquece rápido demais, mas a história escrita com suor e glória não se apaga.

Brito tem legado.Parreira ainda é um herói brasileiro.

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