Ontem vi e ouvi uma entrevista de Gabigol em que ele falava da possibilidade de voltar para o Cruzeiro ou para o Flamengo, já que o Santos está com problemas financeiros. Lembrei-me da matéria que fiz com ele e outros Meninos da Vila para a revista Personnalité há 16 anos e dois meses.
Com seis páginas e o título “Meninos do Brasil”, a matéria começava assim:
"O ônibus velho sai da avenida Martins Pena e, à direita, entra no estacionamento do necrotério municipal de Saboó. Um grande portão gradeado é aberto pelo vigia e os pneus crepitam ao passar pelo cascalho, já no interior do centro de treinamento Meninos da Vila. Construído pelo Santos em 2006, no terreno cedido pela prefeitura que fica na entrada da cidade, o lugar se dedica às chamadas categorias de base e existe para seguir a vocação do Santos de revelar jogadores, invariavelmente atacantes, habilidosos e atrevidos.
Lá estão eles. Descendo do ônibus alegres, barulhentos, já de chuteiras e calção, prontos para o treino da tarde... O olhar de alguns brilha um pouco mais. Já driblaram várias etapas e estão se aproximando do sonho de assinar o primeiro contrato profissional, aos 16 anos. São destaques da equipe infantil (sub-15).
Pelo andar confiante e pelo semblante relaxado, percebe-se que o meia de armação Jean Carlos Chera, 15 anos, e os meias-atacantes Victor Andrade, 14, e Gabriel Barbosa, 14, não vivem mais as incertezas que afligem a maioria dos outros. Tratados como promessas, sabem que se tornarão profissionais do Santos."
Gostei de falar com os meninos. Cheios de planos, eles respiravam esperança. Lembro-me que Gabriel Barbosa, sobrancelhas grossas e fechadas, como as de Zito, tinha um jeitão de médio-volante. Surpreendi-me ao saber que era atacante, artilheiro, e tinha feito o gol que dera ao Santos o bicampeonato estadual da categoria mirim.
Nascido em São Bernardo, morou na periferia de São Vicente antes de ser adotado pelo Santos.
Passei a ser um torcedor de todos eles desde então (incluo aí Felipe Anderson, 17 anos, que entrevistei depois). Alegrei-me quando, em 2018, o presidente José Carlos Peres trouxe Gabriel Barbosa da Europa, onde em um ano e meio ele amargou a reserva da Internazionale e do Benfica e só fez um gol para cada time. Na velha Vila Belmiro Gabriel retomou a confiança que no Flamengo o transformaria no decisivo Gabigol, convocado até para a Seleção Brasileira.
Agora, aos 30 anos, com a situação financeira definida, mas provavelmente com os sonhos ainda incompletos, vejo-o usar um tom de despedida para falar do Santos. Tento entender o que faltou para que essa relação prosseguisse feliz. Faltou um sistema tático ou companheiros que o colocassem na cara do gol, ou foi ele quem não se empenhou e não caprichou o suficiente? Difícil dizer. Só sei que, num divórcio, a culpa nunca é de um lado só.