O que o Brasil viu naquele 18 de maio foi tratado pelas emissoras de televisão e jornais locais como algo quase nunca visto no país do futebol. Foto: Rafael Ribeiro/CBF

O que o Brasil viu naquele 18 de maio foi tratado pelas emissoras de televisão e jornais locais como algo quase nunca visto no país do futebol. Foto: Rafael Ribeiro/CBF

(Este texto foi escrito para a imprensa européia. O impacto do caso Neymar-Seleção tomou conta das redações de meio mundo.

Trago aqui a íntegra para que se entenda como se vê o Brasil, neste caso, através de Neymar, em outros países)

É fato.

E agora também é oficial: no Brasil tudo vira festa.

Qualquer história pode virar motivo para comemoração.

Existe pré Carnaval, pós Carnaval, Carnaval fora de época no meio do ano....

E agora até mesmo o anúncio da convocação da Seleção Brasileira virou uma grande festa nacional.

Você gosta de Neymar ? Ou talvez odeie Neymar.

Ele realmente tem condições físicas para disputar uma Copa do Mundo?

O Brasil deveria confiar em um jogador mais jovem no lugar dele ?

Durante mais de seis meses foram essas conversas atravessaram bares, padarias, praias, restaurantes, escolas, escritórios, clínicas médicas e prédios residenciais por todo o país.

Na segunda-feira, 18 de Maio, tudo simplesmente explodiu ao mesmo tempo, do Norte ao Sul, da região amazônica até a fronteira com a Argentina: não havia Irã, nada de Bolsonaro, zero criminalidade e nenhuma cracolândia, moradores de rua ou enchentes.

Tudo era secundário a....Neymar

O que o Brasil viu naquele 18 de maio foi tratado pelas emissoras de televisão e jornais locais como algo quase nunca visto no país do futebol.

Ao vivo em todos os lugares. YouTube, rádio, televisão, streaming, sites esportivos.

Onde existia uma tela, existia também a festa da convocação dos jogadores que representarão o Brasil na Copa do Mundo.

Enquanto o governo brasileiro ainda negocia com indústrias, sindicatos, empresas e grupos comerciais se trabalhadores poderão legalmente parar durante os jogos do Brasil no Mundial do ano que vem, milhões de pessoas interromperam a rotina para acompanhar a primeira convocação de Carlo Ancelotti pela Seleção.

Tudo girava em torno de um nome.

Neymar.

O próprio Ancelotti, com apenas um ano de trabalho no Brasil, confessou nos bastidores que ficou impressionado com o tamanho da pressão.

E da repercussão.

Em Santos, cidade do clube de Neymar, milhares de pessoas se reuniram, em casas, na praia ou diante de qualquer tela que fosse.

Faziam churrasco, dançavam, vestiam qualquer coisa amarela e verde e aguardavam a possibilidade de uma festa ainda maior caso Neymar fosse chamado.

Tudo esperando o tal anúncio.

Quando Ancelotti finalmente pronunciou o nome de Neymar, depois de mais de uma hora de uma angustiante expectativa, fogos de artifício explodiram por bairros inteiros.

Como um gol em final de Copa do Mundo, buzinas ecoaram por ruas e avenidas em várias cidades brasileiras.

De janelas de prédios e casas surgiram gritos, choros e comemorações.

Vídeos se espalharam pela internet mostrando pessoas gritando o nome de Neymar nas ruas, nos bares e novamente das sacadas e janelas.

Eram 17h54 de uma segunda feira comum que virou histérica. E histórica.

Crianças foram filmadas rezando para que Neymar fosse escolhido por Ancelotti.

Depois que o nome apareceu na lista, essas mesmas crianças viralizaram agradecendo a Deus, chorando e comemorando diante da televisão.

Políticos brasileiros chegaram ao absurdo de enviar cartas oficiais para a Confederação Brasileira de Futebol pedindo a convocação do jogador.

Alguns tratavam o tema como de “interesse nacional”.

E o último jogador verdadeiramente mítico do futebol brasileiro nos últimos quinze anos, depois de toda essa pressão e de todo esse circo, estava na lista.

Mesmo sem disputar um único jogo das Eliminatórias da Copa.

Dentro do evento oficial da convocação, realizado em um museu moderno no Rio de Janeiro, o ambiente parecia mais próximo de um show de entretenimento do que de um anúncio esportivo.

Música tocava, telas de led brilhavam, havia de tudo um pouco....menos a convocação em si.

Suspense.... antes da lista aparecer.

Dirigentes da CBF e patrocinadores discursavam enquanto os jornalistas aguardavam mais de uma hora pelos nomes finais.

Um técnico responsável pelas informações no painel de LED do palco acabou se tornando silenciosamente o primeiro brasileiro "comum" a saber que Neymar iria para a Copa, após receber um pen drive com os arquivos da apresentação antes da cerimônia começar.

Por contrato ele não podia demonstrar nenhuma reação.

Dois seguranças atrás dele garantiam isso.

Nada parecido acontecia no Brasil desde a revolta nacional pela ausência de Romário na Copa de 2002 por decisão de Luiz Felipe Scolari.

Mas existia uma diferença enorme.

Romário naquele momento era praticamente unanimidade nacional, um dos melhores jogadores do planeta e artilheiro por onde passava.

Neymar divide o Brasil socialmente, politicamente e futebolisticamente talvez mais do que qualquer outro atleta do país. E não consegue sequer ajudar seu time no campeonato brasileiro.

Divide, principalmente emocionalmente.

Existe um grupo que acredita que Neymar já é apenas um ex- jogador em atividade.

E existe outro que continua vendo nele um talento que nenhum outro brasileiro possui.

Para muitos brasileiros, Neymar ainda significa esperança.

Depois de 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo, ele representa a possibilidade de que o sonho volte a acontecer.

As reações continuaram intensas até a manhã de terça feira.

Neymar seguiu dominando programas esportivos, capas de jornais, manchetes nas rádios e redes sociais.

No mesmo dia em que surgiam notícias sobre a possível saída de Pep Guardiola do Manchester City e sobre uma nova ligação entre José Mourinho e o Real Madrid, foi a convocação de Neymar que virou a principal história do futebol mundial.

Os argumentos esportivos apenas aumentaram a divisão nacional.

Neymar chega à sua quarta Copa do Mundo como maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, acima até de Pelé.

Mas também chega carregando dores físicas, preocupação constante com lesões, discussões públicas com torcedores e imprensa e um Santos FC mergulhado na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro.

Ele disputou apenas 15 partidas no Brasil, enquanto vários atacantes deixados fora da lista apresentaram números muito superiores.

João Pedro terminou a temporada europeia com 15 gols em uma liga que tem nomes como Erling Haaland e Igor Thiago. Neymar convocado.

João Pedro, eleito jogador da temporada do Chelsea, fora.

Antony, Igor Jesus, Kaio Jorge, Yuri Alberto, Savinho, Andrey Santos e Pedro, artilheiro do Flamengo, todos em plena ascensão, em perfeitas condições físicas, ídolos em seus clubes e goleadores potentes... também fora da lista final.

Ninguém questiona seriamente. Ninguém explica. Ninguém entende.

Mas todos focam o olhar em Neymar.

Parte da " sorte " e do caminho de Neymar para a convocação também passou pelas lesões de Rodrygo e Estevão poucas semanas antes do início mais intenso da preparação para a Copa.

As críticas contra Neymar focavam principalmente em sua condição física, nas lesões recentes, na falta de ritmo e no medo de que jogadores mais jovens e em melhor forma tivessem perdido espaço para um ídolo cujo corpo continua sendo uma incógnita.

Exatamente como em 2010, quando o então técnico Dunga deixou Neymar fora da Copa.

Na época Neymar tinha 18 anos, brilhava e marcava gols quase toda semana.

Mesmo assim, Dunga preferiu levar Grafite, de 30 anos, Luis Fabiano, de 29, e até Gilberto Silva, de 33 anos.

Recentemente, programas esportivos chegaram ao ponto de convidar médicos, psicólogos e ex-jogadores para discutir se Neymar conseguiria sobreviver física e emocionalmente a outra Copa do Mundo.

O ambiente ficou ainda mais estranho menos de 24 horas antes da convocação final.

Em sua última partida antes da lista, Neymar discutiu furiosamente com árbitros após uma confusão envolvendo uma substituição, pegou o painel eletrônico do quarto árbitro e mostrou para as câmeras antes de deixar o campo claramente irritado.

Ao mesmo tempo, há quase um ano Neymar permanece cercado por preparadores físicos, fisioterapeutas e funcionários que trabalham diariamente tentando recuperar fisicamente o jogador para a Copa.

Vídeos gravados dentro da casa de Neymar após a convocação mostraram familiares comemorando emocionados enquanto seu filho mais velho reagia ao lado de amigos e funcionários próximos do jogador.

Como disse Neymar,...a "missão estava cumprida".
Estar na Copa, parece, é mais importante do que qualquer outra coisa para o atacante. Ganhar é outra história...

Dentro do futebol brasileiro as discussões duraram mais de seis meses. Discussões intensas, debates, piadas, e até brigas.

Segundo pessoas próximas da CBF, Ancelotti manteve duas listas diferentes de convocados em dois pen drives diferentes guardados no bolso durante os últimos dias antes do anúncio.

Nem mesmo o presidente da CBF sabia até muito tarde se Neymar realmente seria convocado.

O momento decisivo aconteceu em uma chamada de vídeo entre Neymar, Ancelotti e o diretor Rodrigo Caetano no domingo anterior à convocação.

Durante a conversa, o treinador italiano informou que Neymar não seria automaticamente capitão, não teria posição garantida entre os titulares e precisaria aceitar regras disciplinares mais rígidas dentro da Seleção.

Nos bastidores, jogadores importantes pressionaram fortemente pela presença do atacante.

Casemiro teve papel central nessas conversas com Ancelotti. O capitão liderou um grupo com Raphinha, Vini Jr. e Marquinhos que garantiu ao treinador que o elenco controlaria Neymar caso fosse necessário.

Neymar também prometeu a Raphinha que chegaria “pronto para ajudar nem que fosse por poucos minutos”.

Mas, mesmo assim continuam existindo comentaristas, ex técnicos e ex-jogadores que insistem que a convocação faz parte de um lobby permanente em torno de Neymar e de um circo montado ao redor de um atleta que desde 2023 não realiza uma grande partida.

Mas um fato continua pouco mencionado: a pressão comercial em torno da convocação foi gigantesca.

A CBF ultrapassou um bilhão de reais em contratos de patrocínio apenas para o ciclo da Copa do Mundo.

Neymar continua sendo o jogador brasileiro mais reconhecido globalmente.

Os patrocinadores precisam dele na Copa.

As emissoras que pagaram milhões pelos direitos de transmissão também.

E dirigentes da FIFA e organizadores do Mundial entendem perfeitamente o impacto comercial de uma Copa sem Neymar.

Até mesmo o álbum oficial da Copa lançado pela Panini inicialmente deixou Neymar fora da seleção brasileira porque a empresa acreditava que ele não seria convocado.

Menos de 24 horas depois do anúncio de Ancelotti começaram as discussões sobre atualizações emergenciais e uma nova figurinha de Neymar para futuras edições do álbum.

Durante seis meses o Brasil discutiu se Neymar chegaria à Copa.

Agora a discussão muda completamente.

Agora tudo gira em torno da novela sobre ele ser titular ou reserva.

Quantos minutos consegue suportar em alto nível.

Quanto tempo seu corpo ainda resiste.

Ao lado de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Luka Modri?, Neymar se aproxima daquela que pode ser a última Copa de toda uma geração histórica do futebol mundial.

É....parece que todos precisam de Neymar....

A torcida, sem esperanças no time sem ele. Os atletas sem um líder. Os patrocinadores, a FIFA, a CBF, as TVs....Todos querem ter um herói. Ou um garoto propaganda.

Mas, o que é difícil mesmo, é até imaginar o que teria acontecido no Brasil caso Neymar tivesse ficado fora da lista final.

Aí sim ia ser um fim de carnaval. Uma quarta feira de cinzas, quem sabe.

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