Aos 39 anos, o camisa 10 da Argentina mostra que o maior limite de um atleta costuma estar na mente, não no corpo. Foto: Instagram/AFA

Aos 39 anos, o camisa 10 da Argentina mostra que o maior limite de um atleta costuma estar na mente, não no corpo. Foto: Instagram/AFA

O ano era 1983. Em um bar, numa galeria do Centro de São Paulo, Serginho Chulapa reunia os amigos para lançar o seu LP “Camisa 9”, em que interpretava sucessos de Adoniran Barbosa e outros sambas. Ao meu lado, o centroavante Enéas de Camargo, então com 29 anos, tentava me convencer e a si próprio de que já estava acabado para o futebol.

Ídolo e artilheiro da Portuguesa, clube que o revelou e que ele defendeu por 10 anos, Enéas estava no Palmeiras, depois de uma passagem sem muito brilho pelos italianos Bologna e Udinese, mas não parecia confiante de que pudesse retomar aos seus melhores tempos.

Lembrei-o dos ensinamentos do preparador físico e fisiologista Nuno Cobra – a quem apresentaria a Ayrton Senna no início de 1984 – e reforcei a Enéas que ele poderia manter a forma e o rendimento até os 40 anos, caso continuasse treinando e se cuidando, mas ele se mostrava irredutível. Acreditava que 30 anos eram o limite para um jogador de futebol manter o bom rendimento.

Enéas continuaria jogando mais um tempo, mas sem brilho, pulando de clube em clube, até que aos 34 anos sofreria o grave acidente automobilístico em São Paulo que o levaria à morte. Volta e meia me pego lembrando do nosso papo naquela noite e nada me tira do pensamento que o que levou Enéas à decadência foi sua descrença de que pudesse continuar jogando bem e marcando gols, apesar da passagem do tempo.

Na jornada épica contra a Inglaterra, Lionel Messi, 39 anos, mostrou na prática o que não consegui provar a Enéas. Tomado pela necessidade da vitória, o 10 da Argentina esqueceu a idade, esqueceu tudo, e jogou como se fosse um garoto, deixando que sua mente e sua vontade comandassem seu corpo, seu time, seu país.

Vemos um fenômeno parecido no tênis, em que o sérvio Novak Djokovic, também de 39 anos, se recusa a abandonar as quadras e continua como um dos melhores do mundo. Além dos hábitos regrados e da disciplina para o treinamento, ambos – Messi e Djokovic – têm uma personalidade confiante e vencedora, que os mantém caminhando para frente.

Antes era muito raro um jogador continuar se destacando após o limite dos 30 anos. Um caso que me ocorre é do meia carioca Jair Rosa Pinto, destaque do Santos com a mesma idade atual de Messi, que depois ainda jogou por São Paulo e Ponte Preta e encerrou a carreira aos 42 anos.

Hoje se sabe que se o atleta continuar se dedicando aos exercícios para evitar a perda gradual de massa muscular, usar suplementos e mantiver uma atitude positiva em campo, a idade não pesará tanto, ou se tornará apenas um adversário a mais a ser vencido.

Andam perguntando se o português Cristiano Ronaldo, 41 anos, e o brasileiro Neymar, 34, poderão participar da Copa de 2030? Caso realmente queiram e se dediquem a esse objetivo, por que não? E não seriam os maiores exemplos de longevidade nos gramados.

Os torcedores de Santos e Palmeiras devem se lembrar do japonês Kazuyoshi Miura, conhecido como Kazu, que defendeu suas equipes em 1986, quando tinha apenas 19 anos. Pois bem. O rapaz ainda continua em atividade. Aos 59 anos, Kazu, também chamado de “King Kazu”, ou “Pelé japonês”, joga pelo Fukushima United e é o mais velho jogador profissional de futebol no mundo.

Japoneses, a gente sabe, são um dos povos mais disciplinados do planeta. A idade não parece tão determinante para eles. Será que os latinos Cristiano Ronaldo e Neymar estariam dispostos a uma preparação rigorosa para participar da Copa de 2030? Se têm dúvida se valerá a pena ou não, é só se inspirarem em Lionel Messi. O argentino está mostrando, mais uma vez, que o sonho da Copa não tem preço. Nem idade.

Últimas do seu time