Daniel Alves critica a eminência parda de canetas e microfones e levanta debate sobre o verdadeiro papel do jornalismo. Foto: Divulgação/Warner Bros

Daniel Alves critica a eminência parda de canetas e microfones e levanta debate sobre o verdadeiro papel do jornalismo. Foto: Divulgação/Warner Bros

Estádio do Morumbi, noite de domingo. Enquanto arrumo minhas coisas após narrar São Paulo 1 x 1 CSA, pelo Campeonato Brasileiro, ouço Daniel Alves - craque tricolor - falar da sua atuação como lateral-direito (posição de origem) no empate decepcionante para a torcida paulista. Aparentemente incomodado com a mudança de função, já que, desde a estreia, atuara no meio-campo, disparou para os repórteres:

“Estamos aqui, volto a insistir, para construir junto. Eu sou um jogador que pode ajudar meus companheiros a serem muito melhor (sic) do que são. Mas, ao contrário do que a maioria pensa, eu, jogando de lateral, passo muito tempo sem tocar na bola e é difícil fazer seus companheiros jogar (sic) melhor, fazer seus companheiros criar (sic) situações de jogo. Mas, evidente, que (risos) a imprensa não vai saber disso, porque nunca jogaram futebol…”

Confrontado em seguida pelo repórter Alexandre Silvestre, da TV Gazeta, desconversou, mas revelou a visão que a maioria dos boleiros tem dessa entidade, um verdadeiro fantasma eleito pelo mercado do futebol como inimiga: a IMPRENSA. Dirigentes, atletas, treinadores e ultimamente também torcedores, nos encaram como uma fábrica de problemas, tendenciosos e barraqueiros, voltados unicamente à nossa audiência, escravos que somos dos números de tiragem e IBOPE. É como se ficássemos enclausurados em nossas redações, com as mãos na fronte pensando em como iríamos “causar” no clube A, B ou C. É a visão que eles têm de nós, jornalistas esportivos.

Nos transformamos em uma espécie de Pennywise, ser do mal que se apresenta como um singelo palhaço às crianças da pequena cidade de Dery, nos EUA, matando-as em série. Esse é o enredo de It: a Coisa (2017), que ganhou segundo capítulo em 2019 com grande sucesso; juntos já arrecadaram US$ 1,023 bilhão em todo o planeta. No filme inaugural, um grupo de garotos marcados pelo bullying criam o “Clube dos Perdedores” e decidem enfrentar a entidade, colocando um ponto final nos assassinatos. Mal comparando, é como se aqueles atingidos diariamente por manchetes e comentários “lavradores” se insurgissem contra aqueles que gostam de tumultuar o ambiente.

Confesso aos amigos que declarações como essa mexem com o brio do jornalista; no sobressalto do ataque, os dedos coçam no Twitter para responder a ele e a todos. No entanto, é preciso cabeça fria e paz de espírito para analisar de onde vem esse olhar e como nós, vendedores de informação, criamos isso. Note que, para ficarmos apenas nas falas de Daniel Alves, não se resumem ao Brasil apenas; trata-se de um crítico da imprensa também na Espanha. Veja:

29/06/2003 - Daniel Alves critica imprensa do Brasil e pede cobertura “à la espanhola”.

08/01/2016 - Revoltado, Daniel Alves desabafa e detona a imprensa: “Vocês são um p… lixo”.

08/01/2016 - Daniel Alves faz críticas à imprensa e leva “bronca” do Barcelona

22/08/2016 - Daniel Alves critica imprensa: “Não estamos aqui para aparecer”.

12/11/2016 - Daniel Alves defende silêncio de Neymar e critica imprensa

03/07/2019 - “As pessoas duvidam da gente”, critica Daniel Alves

Pincei aqui declarações em diferentes momentos da carreira de Daniel para mostrar que é uma constante visão sobre o papel do jornalismo na cobertura do futebol. Não é uma sensação apenas dele, mas da maioria dos fãs de esporte, que na era das redes, voltam-se contra nós numa voracidade notável. Mas o que seria a tal imprensa? Quem é essa coisa que atrapalha tanto o futebol brasileiro? Tem uma única linha de trabalho? Todos são mesmo iguais? São criadores ou espelhos das mazelas do esporte nacional? São perguntas pouco feitas e em nada respondidas, escondidas no corporativismo nosso de cada dia e na dicotomia dos tempos atuais.

O que é chamado de imprensa especializada basicamente é formada por cerca de menos de 10 jornais relevantes de circulação nacional, quatro canais dedicados exclusivamente ao desporto, outro de programação mista e forte presença digital (Esporte Interativo), três redes de TV aberta com cobertura mais forte do dia-a-dia do futebol. Em São Paulo, soma-se seis redes de rádio com tradição e força neste tema. Soma-se ao cenário blogueiros e podcasters segmentados. Portanto, um mercado relativamente pequeno nacionalmente, e com perfis totalmente distintos entre cada veículo. Há os mais populares, sensacionalistas, os brincalhões, os táticos, os corneteiros apaixonados etc., cada um com sua visão do esporte e sua cultura.

Muitos destes espaços, aliás, tem uma presença relevante de ex-jogadores de futebol nas bancadas de debate durante todo o dia. Uns escrevendo colunas belíssimas, como Tostão, outros trazendo o bom humor à hora do almoço, como Denílson. Boa parte desses profissionais, importantes na leitura do jogo e na entrega da história de um jogo ao consumidor, jamais estudaram Comunicação Social, nem tem habilitação em Jornalismo. Nem por isso são descartáveis ou menos capazes de executar esse trabalho tão nobre dentro da engrenagem da tal “Imprensa”. Da mesma maneira, nós, que nunca jogamos bola - eu já fui lateral esquerdo, há uns 25 anos, mas larguei cedo - temos sim a competência de contar e analisar um jogo de futebol, sem mérito, nem demérito na comparação aos “boleiros”.

Falta talvez ao outro lado do balcão a compreensão exata da nossa missão, que é oferecer o conteúdo mais atrativo à nossa audiência, ganhando relevância e atraindo marcas que sustentam o negócio. Nem sempre interesse compartilhado por quem está no dia-a-dia da bola, instalando esse conflito permanente. Muitos admitem o fato quando pulam para a nossa lojinha e compreendem o trabalho do jornalismo. O grande barato dos nossos tempos é a multiplicidade de opções e a livre escolha do melhor podcast, blog, canal no Youtube, programa de TV ou de rádio, jornal ou revista, dentro do trabalho que o torcedor ache coerente.

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