Meus amigos e minhas amigas, a França já foi uma seleção de branquelos de cintura dura e pernas de pau. Quando enfrentou pela primeira vez o futebol brasileiro, no longínquo 15 de março de 1925, em Paris, foi goleada por 7 a 2 pela equipe do Paulistano, a melhor da fase amadora do futebol brasileiro.
A história mudou de vez em 1998, quando o país sediou a Copa e decidiu ser representado por uma equipe miscigenada, em que negros e árabes, imigrantes até então pouco valorizados na sociedade francesa, foram escolhidos para formar na seleção nacional.
Assim, Les Bleus (Os Azuis) mostraram o futebol dos zagueiros Marcel Desailly e Lilian Thuram, dos volantes Christian Karembeu e Patrick Vieira e do genial meia Zidane, escolhido como o melhor daquela Copa.
A conquista daquele título uniu os franceses e fez mais pela integração das etnias que convivem no País do que quaisquer decretos poderiam conseguir. E assim a França descobriu que a miscigenação tornava o seu futebol mais poderoso, mais técnico, mais esperto e cheio de ginga – em uma lição que se espalhou por outras áreas da sociedade.
Hoje o que vemos é uma Seleção Francesa mestiça, com mais jogadores negros e mulatos do que o Brasil, além do toque árabe que torna o seu futebol irresistível e vencedor (claro que torcemos para o Brasil, mas é evidente que até agora o melhor futebol desta Copa tem sido jogado por Dembélé, Mbappé e companhia).
Quase todos os seus titulares nasceram na França, mas suas famílias têm origens diversas. O pai de Ousmane Dembélé é de Mali, e sua mãe é mauritano-senegalesa; enquanto Kylian Mbappé tem pai camaronês e mãe argelina.
Mike Maignan nasceu na Guiana Francesa e sua família é de origem haitiana; Jules Koundé tem mãe francesa e pai do Benim; William Saliba é filho de mãe francesa e pai do Líbano; os pais de Dayot Upamecano são da Guiné-Bissau, e os de Aurélien Tchouaméni são camaroneses. Michael Olise tem pai nigeriano e mãe franco-argelina, e Marcus Thuram tem mãe francesa e pai de Guadalupe.
Enfim, a França assumiu sua mestiçagem e esse é o segredo de um futebol ao mesmo tempo prático e criativo, pragmático e atrevido, alegre e vencedor. Futebol que tem encantado a todos nessa Copa de tantos encantos.
Quando perguntavam a Pelé por que ele não usava a sua fama de melhor jogador do mundo para discursar a favor da igualdade dos negros, ele só respondia: “E precisa? O que eu faço em campo, minha carreira, não provam nada?”
Pois agora, 101 anos depois da goleada do Paulistano sobre os esbranquiçados azuis, vemos uma França quase africana dominar o futebol, o esporte mais praticado e competitivo do planeta. Falar mais o quê?