O confronto entre a Argentina e a seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo coloca no mesmo gramado dois universos totalmente diferentes que mostram o tamanho da absurda desigualdade de um Mundial com 48 equipes, mas traz também toda a magia do futebol.
O futebol tem a capacidade de reunir sob as mesmos holofotes do Hard Rock Stadium, em Miami, duas realidades que parecem de planetas distantes, mas que agora se enfrentam em uma fase avançada da maior competição do mundo.
Parece conto de fadas, um David contra o gigante Golias. Uma cena tão absurda como fascinante!
De um lado está uma potência histórica que busca manter o seu espaço no topo do mundo.
A Argentina é uma das maiores forças do futebol, atual campeã do mundo e carrega o peso de três estrelas no peito das Copas conquistadas ao longo da sua longa história.
E lá do outro lado, bem longe, com Oceanos de distância, está a equipe com menor pontuação no ranking da FIFA que conseguiu alcançar este momento do torneio nesta Copa.
A seleção de Cabo Verde faz a sua estreia absoluta na competição máxima do futebol mundial.
E já se colocou entre as 32 melhores equipes desta Copa do Mundo.
Os dados que comparam o valor financeiro das duas estruturas mostram uma distância que mostram o abismo que se vê em campo quando Argentina e Cabo Verde entraram em campo.
O valor total de mercado de todos os jogadores da seleção de Cabo Verde junta, chega a cerca de 54,5 milhões de euros para os seus 23 jogadores.
Esse valor não chega nem perto do valor que um único jogador do outro lado ganha por ano na sua carreira profissional.
Lionel Messi recebe um salário anual fixo de 70 milhões de dólares no Inter Miami, e esse número cresce ainda mais quando somamos outros 40 milhões de dólares que o jogador fatura com os seus contratos de publicidade espalhados pelo mundo.
A fortuna pessoal total do craque da Argentina já passou da marca de 1 bilhão de dólares.
Messi e sua fortuna equivalem a pouco mais da metade de todo o Produto Interno Bruto que o país de Cabo Verde consegue produzir em um ano inteiro de trabalho, produção, exportação e impostos, em toda a sua economia nacional.
A disparidade financeira também fica nítida quando comparamos quem cuida de evitar os gols em cada lado do campo.
O goleiro titular da Argentina e do Aston Villa, Emiliano "Dibu" Martínez, tem um salário anual que gira na casa dos 7 milhões de euros no futebol inglês, além de prêmios por conquistas internacionais e luvas.
Do outro lado, o já popular e famoso mundialmente goleiro Vozinha construiu sua carreira em mercados muito mais modestos, com passagens por times de Portugal, Chipre e Eslováquia, como o Tren?ín, onde os salários de todo o elenco não atinge o ganho mensal do goleiro argentino.
O salário anual do goleiro cabo-verdiano era de cerca de 150 mil euros, quase cinquenta vezes menor do que o salário do goleiro argentino.
Era.
Porque hoje Vozinha está à procura de um clube.
Essa diferença, um abismo na verdade em ganhos, se repete nos bancos de reservas, onde os comandantes traçam as estratégias para a partida.
Lionel Scaloni tem uma carreira consagrada como treinador, faturou o prêmio The Best da FIFA e recebe um salário anual estimado em cerca de 2,6 milhões de dólares para comandar a atual campeã do mundo.
O técnico Bubista, que comanda a seleção de Cabo Verde, tem uma realidade completamente local: seu salário é de cerca de 120 mil dólares anuais. Isso mesmo: menos de 20 vezes menor que o técnico da Argentina.
Scaloni tem em seu currículo títulos de Copa do Mundo e Copa América, enquanto Bubista construiu sua carreira como jogador e técnico dentro do futebol de Cabo Verde e em clubes locais antes de assumir o desafio de liderar os "Tubarões Azuis", como é chamada a Seleção local, no cenário internacional.
A própria premiação financeira que a organização do torneio distribui mostra o impacto econômico que o avanço na competição representa para argentinos e cabo-verdianos.
A classificação para a fase de mata-mata garante para a federação da Argentina mais um acréscimo em milhões que serve para cobrir bônus de atletas que já possuem premiações estipuladas em contratos comerciais gigantescos.
Para a federação de Cabo Verde, o simples valor garantido por participar e avançar de fase no Mundial supera todo o orçamento anual utilizado para manter o futebol local vivo nas ilhas.
O prêmio por disputar essa fase da Copa do Mundo equivale a quase todo o investimento que o país africano faz em suas categorias de base durante um ciclo olímpico inteiro.
Quando olhamos o tamanho da população de cada lado, a diferença demográfica também salta aos olhos de forma impressionante.
Messi tem mais seguidores do que Cabo Verde tem de população!
O arquipélago africano de Cabo Verde tem uma população total de apenas 491 mil habitantes que vivem nas suas dez ilhas vulcânicas.
Enquanto isso, só o perfil oficial de Lionel Messi conta com mais de 500 milhões de seguidores apenas na rede social Instagram.
Esse número sobe para 620 milhões de seguidores quando juntamos todas as suas contas oficiais na internet, superando com folga o total de moradores do país adversário.
A diferença de tamanho também aparece nas contas oficiais das federações de futebol que se enfrentam neste jogo eliminatório na Flórida.
A conta oficial da federação de futebol de Cabo Verde no Instagram tem apenas 60 mil seguidores que acompanham o dia a dia do time.
Do outro lado, a visibilidade da Copa do Mundo causou um fenômeno nunca visto com o goleiro Vozinha após o jogo de estreia contra a Espanha.
O goleiro de Cabo Verde saiu de uma marca de 50 mil seguidores para alcançar a marca de 17 milhões de seguidores na internet, um crescimento gigante que ainda representa 25 vezes menos do que o público que acompanha o craque argentino.
A história e a bagagem dentro dos gramados também mostram uma distância imensa no número de partidas internacionais.
Lionel Messi sozinho já vestiu a camisa da seleção principal da Argentina em 202 partidas oficiais ao longo de toda a sua carreira profissional.
Toda a seleção de Cabo Verde, somando todos os jogos oficiais que disputou na sua história desde o seu primeiro jogo internacional no ano de 1978, entrou em campo apenas 244 vezes.
O jogador argentino jogou quase o mesmo número de partidas que toda a seleção do país africano conseguiu disputar desde a sua fundação oficial.
A experiência específica na competição máxima do futebol deixa clara a diferença de tradição entre as duas camisas.
Esta é a participação de número 19 da seleção da Argentina na história das Copas do Mundo, dividindo o favoritismo com as maiores potências do esporte.
A seleção de Cabo Verde faz a sua primeira Copa do Mundo e tenta buscar o seu espaço no cenário internacional.
O time africano disputou apenas 4 edições da Copa Africana de Nações em toda a sua existência, o que significa que o país tem menos participações no seu torneio continental do que Messi tem de participações em Copas do Mundo, já que o craque está jogando a sua 6ª edição do Mundial.
O peso dos nomes históricos de cada lado serve para ilustrar o abismo técnico tradicional que separa as duas realidades.
As grandes lendas da história argentina contam com nomes como Kempes, Maradona e o próprio Messi, que transformaram o futebol mundial com conquistas e genialidade.
O contraponto no lado de Cabo Verde é o jogador Ryan Mendes.
O atleta de Cabo Verde teve como o seu ponto mais alto na carreira profissional a sua passagem pelo Lille, da França, sem nunca ter alcançado os grandes palcos do futebol europeu de elite.
A posição no ranking mundial que a organização do futebol divulga regularmente ajuda a entender o tamanho do desafio no gramado de Miami.
A seleção da Argentina ocupa atualmente a segunda posição do ranking mundial da FIFA e está colada na liderança mundial.
A equipe de Cabo Verde ocupa a posição de número 67 do ranking mundial da FIFA.
O time começou o torneio como a seleção com a menor pontuação entre todas as equipes que conseguiram a vaga para disputar a Copa do Mundo neste ano.
Os caminhos das duas seleções para chegar até este momento do torneio também mostram dados que chamam a atenção dos analistas.
A Argentina confirmou o seu favoritismo dentro do Grupo J ao terminar a primeira fase com o aproveitamento máximo de 100% dos pontos disputados, vencendo os seus jogos contra a Áustria, contra a Algélia e contra a Jordânia.
A seleção de Cabo Verde surpreendeu o mundo do futebol ao passar de fase de forma invicta dentro do Grupo H.
O time africano conseguiu arrancar um empate por 0 a 0 contra a Espanha na estreia, empatou por 2 a 2 contra o Uruguai e garantiu a vaga com outro empate por 0 a 0 contra a Arábia Saudita.
A linha defensiva de Cabo Verde que conta com Pina, Pico Lopes, Borges e Lopes Cabral vai ter a missão de parar o ataque da Argentina no Hard Rock Stadium.
Os defensores conseguiram segurar o ataque da Espanha sem sofrer nenhum gol no primeiro jogo da história do país em um Mundial.
E assim, o nível de confiança do lado azarão ganhou um contorno divertido nos bastidores do torneio.
O próprio presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, resolveu entrar na onda do otimismo e declarou publicamente que espera uma vitória por 1 a 0 dos Tubarões Azuis contra os atuais campeões do mundo.
Se a previsão se concretizar, o prêmio financeiro da FIFA por avançar às oitavas de final não vai apenas financiar a federação local, mas provavelmente pagar uma rodada de cerveja para mais da metade da população do arquipélago!
Agora, esses mesmos jogadores enfrentam o atleta que já ganhou oito bolas de ouro na carreira.
Os números mostram que a organização coletiva de Cabo Verde vai ser testada contra o maior pontuador da história da seleção argentina.
O futebol é o único espaço onde esses números colossais perdem o peso absoluto assim que o árbitro dá o apito inicial.
Quando a bola rolar no gramado da Flórida, o dinheiro, os seguidores e os séculos de história vão dar lugar a onze jogadores de cada lado correndo atrás do mesmo objetivo.
Talvez, essa seja a única coisa que há de igual entre estas duas seleções.