Shhhhhhhh....
Fiquem só um segundo em silêncio.
Dá quase para ouvir o barulho lá de Zurique. Um ruído de uma tensão total que atravessa o oceano e estaciona nos corredores da FIFA.
Lá na Suíça, não é só o relógio da contagem regressiva para a Copa que está tirando o sono dos dirigentes do futebol mundial.
Pois eis que faltam exatos cem dias para a Copa do Mundo de 2026.
O relógio não perdoa e marca 99, 98, agora 97 e depois 96 dias..até que os dias se esgotem.
E a bola finalmente role no maior evento do planeta.
Já do outro lado do mundo, a guerra explode no Oriente Médio com fúria de aço e fogo.
E passaram 7 dias. E agora 8,...9...quem sabe serão 12, ou 15 e porque não as 5 semanas que o Presidente dos EUA disse que seriam necessários.
Ou quem sabe até mais. A guerra já saiu do Irã e chegou aos Emirados Árabes Unidos, passa também pela gigante Arábia Saudita. Atinge o Qatar.
E agora tem bombardeios no Líbano!
Mas é lá no comando central do futebol mundial, na colina em Zurique onde está o quartel general da FIFA, que reside hoje a maior de todas as angústias.
O que devemos contar agora?
Os dias que passam rápido e que faltam para o começo da Copa ou os dias de explosões e sangue que se acumulam em uma guerra que pegou o mundo de surpresa?
Hoje, dia 5 de Março, completamos uma semana de bombardeios intensos contra o Irã.
Poderiam ser sete, dez ou quem sabe semanas inteiras de ataques por ar, terra e mar.
Há quem conte o tempo que falta para os mais de cem jogos que a maior Copa do Mundo da história.
E há quem conte a soma dos dias de um combate que já envolve ao menos quatro seleções classificadas para o Mundial.
Cem dias. Agora 99, e depois 98.... e a esperança da alegria do futebol se mistura ao medo mais profundo.
Uma semana de guerra e já contabilizamos mil mortos no solo iraniano.
Outros tantos mortos em Israel, 6 mortos entre as Forças dos EUA, e feridos espalhados por mais 5 países da região.
Logo logo chegaremos aos doze ou quatorze dias de batalhas com torpedos e super bombardeiros aéreos, enquanto isso a Itália, a Ucrânia, a Suécia e outras seleções se preparam para a rodada de eliminatórias que definirá as últimas seleções que se classificarão para o Mundial 2026.
Batalhas por todos os lados: entre seleções que lutam para chegar à Copa.
E de exércitos, que lutam para exterminar o inimigo.
Caças supersônicos e estádios modernos dividem a mesma tela de televisão.
Aiatolás, ingressos caros, drones explosivos e a dúvida cruel sobre a presença de Neymar....
Tudo se funde em uma contagem que é macabra de um lado e intensa de outro.
Ninguém arrisca um palpite sobre o que virá nos próximos meses.
Nem no campo de batalha no Irã e muito menos nos gramados dos EUA, Canadá e México.
A Jordânia, que vive o sonho de sua primeira classificação histórica para a Copa, já viu suas bases americanas sob fogo e bombas do inimigo iraniano.
O Qatar testemunhou mísseis rasgando o céu da sua capital: a mesma Doha que há quatro anos celebrava o futebol mundial.
Uma das maiores refinarias da Arábia Saudita pertencente à Aramco, um patrocinador gigante da FIFA, virou alvo dos iranianos. E
E falando em Irã, a seleção deste país está oficialmente classificada para esta Copa do Mundo.
E agora...?
Dentro do Grupo G, da Copa, o Irã deveria estrear no dia 15 de junho em Los Angeles contra a Nova Zelândia.
Depois, seguiria para Seattle no dia 21 de junho para enfrentar a Bélgica.
O encerramento da 1ª fase para o Irã aconteceria em Kansas City no dia 27 de junho, em um jogo contra a Argélia.
Seria. Seguiria. Aconteceria.
Porque nada é garantido hoje....há 100, 99, 98, 97 dias para a Copa do Mundo.
Mas como falar da presença do time iraniano nos EUA quando o aeroporto em Teerã está reduzido a escombros ?
A seleção do Irã talvez sequer até consiga cruzar a fronteira para uma viagem até o destino final nos EUA, que seria uma verdadeira epopéia para seus jogadores.
Hoje há fortes dúvidas de que sequer a federação de futebol do Irã consiga sequer reunir seus jogadores.
Campos de treinamento foram destruídos e os atletas estão dispersos em meio ao caos urbano.
Não há como fazer amistosos ou treinar, como uma seleção normal faria a esta altura....há 100 dias da Copa.
Mas há ainda uma possibilidade ainda pior e mais caótica.
Se o Irã não vier ao Mundial, ninguem sabe o que fará a FIFA com esse buraco negro técnico e jurídico na tabela oficial da Copa.
Se o Irã decidir que não tem condições, ou que vai boicotar o Mundial nos EUA, o caos está instalado.
Pelo menos por enquanto.
Mehdi Taj, o presidente da Federação Iraniana, foi enfático em declarações recentes no último dia 1º de março.
"O que é certo é que, após este ataque, não se pode esperar que olhemos para a Copa do Mundo com esperança".
Ele deixou claro que não há clima, nem ambiente psicológico ou logístico, para planejar algo para o torneio nos EUA, enquanto seu país ainda é bombardeado.
E enquanto a FIFA e o mundo contam os dias que faltam para a Copa, e quantos dias se passam nessa guerra, ninguém sabe o que acontecerá se o Irã não vier ao Mundial.
A legislação é clara.
E dá à entidade o poder total de decisão em casos de "força maior", como diz o regulamento da FIFA.
O artigo sétimo deste mesmo regulamento permite que a FIFA substitua uma seleção por outra de sua escolha.
Assim, sem cerimônia alguma. Quem a FIFA decidir....está decidido.
Mas essa possível troca implodiria todo o equilíbrio geográfico estabelecido no sorteio da Copa no último dia 5 de Dezembro, realizado em Washington.
A FIFA tentou manter seleções das mesmas confederações em grupos diferentes para garantir a diversidade e equilíbrio.
A vaga que o Irã pode deixar na Copa, já deflagrou uma guerra de bastidores na FIFA, onde a burocracia do regulamento enfrenta o peso da política e do dinheiro.
Se o país realmente não puder participar, a solução mais justa seria olhar para os Emirados Árabes Unidos ou o Iraque, que foram os "próximos da fila" nas eliminatórias da Ásia.
Essa escolha manteria o equilíbrio do sorteio feito em dezembro e respeitaria o mérito das seleções do mesmo continente, evitando que a vaga mude de mãos de forma injusta.
No entanto, até mesmo os nomes da Bolívia e do Suriname aparece nos corredores de Zurique por uma razão puramente comercial e prática.
A FIFA estuda o sistema de "Lucky Loser" (o perdedor com sorte), que daria a vaga para quem for eliminado "por um triz" na repescagem final de março.
A lógica é simples, mas polêmica: essas seleções estariam no auge da forma física e prontas para jogar.
Além disso, ter o Suriname ou a Bolívia em campo nas sedes americanas e mexicanas garantiria estádios lotados e um lucro muito maior com ingressos e turismo local.
E a FIFA pode escolher quem ela bem entender para a vaga do Irã. O regulamento permite isso.
O grande problema é que essa troca ignoraria as regras de proteção que impedem muitos países da mesma região em um só grupo.
Colocar a Bolívia ou o Suriname no lugar de um asiático quebraria a harmonia do Grupo G e causaria uma revolta nas federações da Ásia.
Agora, a FIFA precisa decidir se segue o manual à risca, chamando os árabes para honrar o futebol, ou se cede ao lobby das Américas para garantir o sucesso financeiro do espetáculo.
O destino do Irã na Copa virou um quebra-cabeça onde a última peça ainda está longe de ser encaixada.
Os escritórios da FIFA viram já o palco de lobby desesperado onde Iraque e Emirados Árabes Unidos lutam pela vaga.
Eles alegam que o posto pertence à Ásia para manter a estrutura original do torneio.
Enquanto isso, torcedores que gastaram fortunas para ver o Irã em Los Angeles estão em choque.
Quem comprou o ingresso para ver os iranianos não aceitaria ver a Bolívia ou o Iraque jogarem.
O valor comercial e afetivo desses bilhetes se transformou em uma incógnita jurídica sem precedentes.
Enquanto isso Donald Trump dispara palavras que cortam mais que estilhaços de granada.
Afirmou que "não importa se o Irã vem ou não ao torneio mundial. O país está derrotado e a equipe deles chegaria completamente desfigurada ao solo americano".
Disse com todas as letras que isso não lhe interessa nem um pouco a seleção do Irã vem ou não vem.
Mas se vier, haja segurança e supervisão feita pelos órgãos secretos dos EUA....
A verdade é que em Zurique as dores de cabeça são maiores que as montanhas suíças nevadas.
Esta é a maior Copa de todos os tempos e também a mais problemática desde a segunda grande guerra.
Em 1986 a Colômbia perdeu a possibilidade de organizar a Copa meses antes do evento, devido à problemas com segurança gerados pelos cartéis da droga naquela época no país.
E o México salvou o espetáculo e organizou a Copa do Mundo em tempos recorde.
Agora há três meses da Copa, a FIFA encara questões abertas com todo o mundo árabe.
O Mundial de Clubes de 2025 nos Estados Unidos já mostrou como funcionam as coisas ali.
A segurança nos estádios americanos superou o rigor de qualquer aeroporto internacional moderno.
Rudes, frios e repletos de poder, os agentes de segurança fazem o que querem com os torcedores.
Se alguém parece suspeito, não há hesitação. Se alguém discute é expulso.
Se alguém quer dizer algo, tem que pensar duas vezes.
Torcedores e jornalistas foram tratados com uma vigilância quase sufocante e agressiva.
Agora com a guerra contra o Irã, o estresse dos agentes americanos será multiplicado por mil.
Não há muito o que celebrar nesta marca histórica de cem dias para o início.
O que era um marco de alegria nas Copas passadas, virou uma contagem regressiva de incertezas brutais.
O que é certo é que o Mundial 2026 pode sofrer ainda outros tipos de problemas.
A Alemanha e alguns países nórdicos, e até a Inglaterra, já cogitavam boicotar o Mundial devido a posições políticas e econômicas tomadas por Trump e seu governo.
Se a guerra seguir ainda mais, tudo se complica ainda mais.
É impossível o futebol fugir da realidade que nos cerca em cada esquina do planeta.
O homem que recebeu o prêmio da paz da FIFA há pouco tempo é o mesmo que move hoje o tabuleiro da guerra.
Estamos falando de torpedos que mandam navios para o fundo do oceano em tempo real.
Caças supersônicos F-35 derrubando aviões iranianos em cenas que parecem cinema de décadas atrás.
Se os iranianos desembarcarem nos EUA, o medo do terrorismo será uma sombra constante no evento.
A notícia que chega agora é mais um golpe na pouca tranquilidade que ainda resta.
Mark Carney, o Primeiro-Ministro do Canadá avisou que seu país pode abandonar a neutralidade. Disse que "ninguém deve desconsiderar a participação canadense nos esforços militares contra o Irã".
Era o que faltava para os donos da casa se transformarem em protagonistas do combate.
Já são dois dos países organizadores da Copa falando de guerra, há menos de 100 dias para o Mundial.
Só falta o México decidir mandar suas tropas de elite que mataram o chefão do cartel de Guadalajara recentemente, lutar no Irã...
Enquanto o Canadá pensa em se juntar à guerra, não esqueçamos o México.
O México que mergulha em seu próprio inferno particular.
Unidades de elite mexicanas acabaram de eliminar, há alguns dias, o temido El Mencho, o chefão do cartel de Jalisco.
A represália dos membros do cartel transformou Guadalajara em um campo de batalha doméstico. Desesperador.
A segunda maior cidade do país ficou literalmente em chamas durante três dias seguidos.
Ao lado do estádio Jalisco que viu Pelé desfilar no Mundial de 1970, postos de gasolina foram incendiados.
No aeroporto internacional da cidade que receberá centenas de milhares de torcedores para a Copa em menos de 100 dias....aviões foram explodidos e tiros disparados no terminal de passageiros.
Por quatro dias o comércio fechou as portas e o silêncio do medo dominou as calçadas vazias.
Ninguém trabalhava e ninguém sabia se veria o sol do dia seguinte.
E em apenas três meses o mundo inteiro estará lá em Guadalajara para celebrar o futebol, juro que é verdade...
Estados Unidos, Canadá e México viverão dias de prontidão absoluta e exaustiva nessa contagem regressiva.
Esta Copa será algo fora de qualquer imaginação ou comparação anterior.
Vimos a África receber seu primeiro Mundial e inovar com suas vuvuzelas em 2010.
Vimos o caos das obras até hoje inacabadas no Brasil de 2014.
Vimos o primeiro país comunista receber a Copa, a Rússia de 2018, que logo depois planejou uma guerra que segue até hoje contra a Ucrânia.
E vimos o luxo concentrado do Qatar em 2022, numa Copa que aconteceu em uma única cidade e seus arredores.
Agora temos três países gigantescos com dezesseis cidades sedes monumentais e distantes.
Algumas sedes estão separadas por mais de 5 mil quilômetros de distância entre elas.
Contamos sim as horas e os minutos para o início da Copa de 2026.
Mas talvez a contagem mais honesta seja aquela que ninguém quer admitir de verdade: aquela que mede quantos segundos de paz ainda nos restam antes que os jogos comecem na Copa do Mundo.
Estamos diante da Copa do Mundo mais politizada, mais polêmica e mais tensa da história.
E os relógios de Zurique continuam correndo enquanto o mundo segura a respiração na contagem que soma dias de guerra no Irã e no Líbano.